"Disciplina: Histria do Brasil III"

JOS MURILO DE CARVALHO

OS BESTIALIZADOS
O RIO DE JANEIRO E A REPBLICA QUE NO FOI

3 edio
11 reimpresso

Companhia das Letras




Copyright  Jos Murilo de Carvalho
Indicao editorial:
Francisco Foot Hardman
Nicolau Sevcenko

Capa:
Ettore Bottini
a partir de O carnaval de 1892, Revista Ilustrada,
maro de 1892
Reviso:
Marcia Copola
Cyntia Panzani
Genulino Santos

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (cip) (Cmara Brasileira do Livro, sp. Brasil).

Carvalho, Jos Murilo de, 1939-
C324b       Os bestializados : o Rio de Janeiro e a Repblica que no foi/Jos Murilo de Carvalho.  So Paulo : Companhia das Letras, 1987.
Bibliografia
isbn 85-85095-13-x

1. Brasil - Histria - 1Repblica, 1889-1930 2. Brasil - Poltica e governo - 1889-1930 3. Rio de Janeiro (rj) - Condies sociais - 1a Repblica, 1889-1930 4. 
Rio de Janeiro (rj) - Histria - 1 Repblica, 1889-1930 5. Rio de Janeiro (rj) - Histria - Revolta da Vacina I. Ttulo, II. Ttulo: O Rio de Janeiro e a Repblica 
que no foi.
CDD-981.05
cdd-320.98105
87-0031                                                                                                                              -981.53105

ndices para catlogo sistemtico:
1. Primeira Repblica. 1889-1930: Brasil: Histria 981.05
2. Primeira Repblica, 1889-1930: Brasil: Poltica e governo 320.98105
3. Primeira Repblica, 1889-1930: Rio de Janeiro: Cidade: Histria social 981.53105
4. Revolta da Vacina: Rio de Janeiro: Cidade: Histria social 981.53105
5. Rio de Janeiro: Cidade: Histria, 1889-1930 981.53105

2001

Todos os direitos desta edio reservados  EDITORA SCHWARCZ LTDA.
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Telefone: (11) 3846-0801
Fax: (11) 3846-0814
www.companhiadasletras.com.br

NDICE
Abreviaes .........................................................................................................................6
Agradecimentos ...................................................................................................................7
Introduo ............................................................................................................................9
I: O Rio de Janeiro e a Repblica ......................................................................................15
II: Repblica e cidadanias ..................................................................................................42
III: Cidados inativos: a absteno eleitoral ......................................................................66
IV: Cidados ativos: a Revolta da Vacina ..........................................................................91
V: Bestializados ou bilontras? ..........................................................................................140
Concluso ........................................................................................................................161
Notas ................................................................................................................................165
Bibliografia .......................................................................................................................187

ABREVIAES
AGCRJ  Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro
AN  Arquivo Nacional
FCRB  Arquivo Histrico. Fundao Casa de Rui Barbosa
MAE  Ministre des Affaires Etrangres. Archives Diplomatiques, Paris
PRO  Public Records Office, Londres
RAE  Repartio do Arquivo e Biblioteca do Ministrio dos Assuntos Estrangeiros, Lisboa.

AGRADECIMENTOS
Os trabalhos includos neste volume no poderiam ter sido realizados sem o apoio financeiro da FINEP, atravs do Instituto Universitrio de Pesquisas do Rio de Janeiro, 
e da IBM do Brasil, atravs do Centro de Estudos Histricos da Fundao Casa de Rui Barbosa.
Agradeo o apoio constante de Francisco de Assis Barbosa, diretor do Centro de Estudos Histricos, e tambm de Rosa Maria Barboza de Arajo, que deu incio no Centro 
ao projeto "Consolidao da Repblica no Rio de Janeiro", e de Paulo Henrique Coelho, seu continuador. Agradeo ainda a todos os colegas e estagirios do mesmo Centro, 
particularmente a Pedro Paulo Soares, pela cooperao na coleta de dados, pelos comentrios e pelo ambiente de trabalho. Diferentes captulos beneficiaram-se das 
crticas de colegas do grupo de estudos sobre Estado e Sociedade da Associao Nacional de Ps-Graduao e Pesquisa em Cincias Sociais, de Jaime Benchimol, Nicolau 
Sevcenko e Simon Schwartzman. Anita, Beth e Turbio, do Centro, datilografaram os originais.
Slvia Helena, de maneira no menos real por intransparente, contribuiu para a produo deste livro, que  para Sandra, Jonas e Diogo.
Pg. 7
INTRODUO
Em frase que se tornou famosa, Aristides Lobo, o propagandista da Repblica, manifestou seu desapontamento com a maneira pela qual foi proclamado o novo regime. 
Segundo ele, o povo, que pelo iderio republicano deveria ter sido protagonista dos acontecimentos, assistira a tudo bestializado, sem compreender o que se passava, 
julgando ver talvez uma parada militar.1  No nos interessa aqui discutir em que medida a observao correspondia  realidade, isto , em que medida o povo participou 
ou no da proclamao da Repblica. H verses contraditrias  espera de uma anlise crtica, a qual no ser feita neste texto. Interessa-nos, sim, o fato de que 
um observador participante e interessado tenha percebido a participao do povo dessa maneira; interessa-nos o fato de que trs dias aps a proclamao este observador 
j tenha percebido e confessado o pecado original do novo regime.
Aristides Lobo no estava s na percepo do povo como alheio aos fatos polticos. Seria fcil alinhar vrias citaes de outros observadores apontando na mesma 
direo. Basta-nos, no entanto, referir apenas outra frase famosa, agora de um sbio francs h muito residente no Brasil, Louis Couty. Ao analisar a situao sociopoltica
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da populao do pas, Couty concluiu que poderia resumi-la em uma frase: "O Brasil no tem povo".2 Seus olhos franceses no conseguiam ver no Brasil aquela populao 
ativa e organizada a que estava acostumado em seu pas de origem. Aristides Lobo pode ter falado por distoro elitista, assim como Couty o pode ter feito por etnocentrismo 
francs. Ambos eram, todavia, pessoas esclarecidas e interessadas nas mudanas sociais e polticas que fermentavam a seu redor.  preciso que nos perguntemos pelo 
sentido de suas palavras, pela realidade que lhes possa ter servido de referncia.
Tal empreendimento  tanto mais necessrio pelo fato de estarmos aqui diante do problema da natureza mesma de nossa vida poltica. Trata-se da concepo e da prtica 
da cidadania entre ns, em especial entre o povo. Trata-se do problema do relacionamento entre o cidado e o Estado, o cidado e o sistema poltico, o cidado e 
a prpria atividade poltica. Tem havido recentemente tendncia a ver tal relao de maneira maniquesta, segundo a qual o Estado  apresentado como vilo e a sociedade 
como vtima indefesa. Tal viso  quase uma volta  dicotomia clssica estabelecida por Santo Agostinho entre um Estado governado por pecadores, baseado na represso, 
e a Cidade de Deus, a sociedade dos santos, sustentada no amor e na cooperao.3 Nesta perspectiva, a inexistncia da cidadania  simplesmente atribuda ao Estado.
Tal viso  insatisfatria, como todas as dicotomias aplicadas ao fenmeno social. Teoricamente, ela separa o que so lados da mesma moeda, partes do mesmo todo. 
O maniquesmo inviabiliza mesmo qualquer noo de cidadania, pois ou se aceita o Estado como um mal
Pg. 10
necessrio,   maneira agostiana, ou se o nega totalmente,  moda anarquista. Na prtica ele acaba por revelar uma atitude paternalista em relao ao povo, ao consider-lo 
vtima impotente diante das maquinaes do poder do Estado ou de grupos dominantes. Acaba por bestializar o povo. Parece-nos ao contrrio que, exceto em casos muito 
excepicionais e passageiros de sistemas baseados totalmente na represso, e  mais fecundo ver as relaes entre o cidado e o estado como uma via de mo dupla, embora 
no necessariamente equilibrada. Todo sistema de dominao, para sobreviver, ter de desenvolver uma base qualquer de legitimidade, ainda que seja a apatia dos cidados.
O momento de transio do Imprio para a Repblica  particularmente adequado para o estudo desta questo, Tratava-se da primeira grande mudana de regime poltico 
aps a independncia. Mais ainda: tratava-se da implantao de um sistema de governo que se propunha, exatamente, trazer o povo para o proscnio da atividade poltica. 
A Repblica, na voz de seus propagandistas mais radicais, como Silva Jardim e Lopes Trovo, era apresentada com a irrupo do povo na poltica, na melhor tradio 
da Revoluo Francesa de 1789, a "revoluo adorada", como a chamava Silva Jardim. O regime monrquico, vivendo  sombra do Poder Moderador, era condenado pelo manifesto 
republicano de 1870 como incompatvel com a soberania nacional, que s poderia ser baseada na vontade popular. O jornal Revoluo, publicado no Rio em 1881 por um 
funcionrio demitido da Alfndega, Fvila Nunes, conclamava o povo, segundo ele roubado em seus direitos pelo governo monrquico, a empunhar "o estandarte da liberdade 
 a bandeira da Repblica  no meio da praa pblica, ao som da Marselhesa, proclamando a soberania popular".4
Pg. 11
Embora proclamado sem a iniciativa popular, o novo regime despertaria entre os excludos do sistema anterior certo entusiasmo quanto s novas possibilidades de participao. 
O jornal Voz do Povo, tambm do Rio de Janeiro, cuja publicao foi iniciada menos de dois meses aps a proclamao da Repblica/referiu-se a uma nova era para o 
operrio brasileiro trazida pelo novo regime, comparvel  que foi aberta pela Revoluo de 1789. No regime antigo, segundo o articulista do jornal, os operrios 
eram os servos da gleba, a canalha, com todos os deveres e nenhum direito. Agora eram livres, iguais e soberanos, viam-se colocados na vanguarda do progresso da 
ptria. E terminava: "Saibamos ser operrios e cidados de uma ptria livre".5 Logo no comeo de 1890 houve vrias tentativas de organizar um partido operrio, e 
um dos militantes mais envolvidos, Luiz da Frana e Silva, dizia em seu jornal Echo Popular: "A palavra  Repblica  foi por muito tempo o smbolo exclusivo das 
aspiraes democrticas, e o grito  viva a Repblica  tem um longo passado de sedio e irrompe naturalmente do povo quando ele se rene para deliberar".6
Alm de o momento ser propcio, era-o tambm o local, o ambiente, em que pretendemos realizar o estudo  a cidade do Rio de Janeiro. As cidades foram tradicionalmente 
o lugar clssico do desenvolvimento da cidadania. O cidado era, at etimologicamente, o habitante da cidade. Nelas se tornou possvel a libertao do poder privado 
dos senhores feudais. Nelas foi que aos poucos se desenvolveram a noo e a prtica de um sistema de governo montado sobre o pertencimento individual a uma coletividade. 
O burgus foi o primeiro cidado moderno.7
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O Rio de Janeiro dos primeiros anos da Repblica era a maior cidade do pas, com mais de 500 mil habitantes. Capital poltica e administrativa, estava em condies 
de ser tambm, pelo menos em tese, o melhor terreno para o desenvolvimento da cidadania. Desde a independncia e, particularmente, desde o incio do Segundo Reinado, 
quando se deu a consolidao do governo central e da economia cafeeira na provncia adjacente, a cidade passou a ser o centro da vida poltica nacional. O comportamento 
poltico de sua populao tinha reflexos imediatos no resto do pas. A proclamao da Repblica  a melhor demonstrao desta afirmao. Campos Sales j percebia, 
como propagandista, que a falta de coeso do Partido Republicano na corte era o principal obstculo ao desenvolvimento da idia republicana. 8 E a proclamao, afinal, 
resultou de um motim de soldados com o apoio de grupos polticos da capital.
Com esta sumria justificativa do tempo e lugar do estudo a ser desenvolvida no correr do trabalho  j fica evidente que havia algo mais na poltica do que simplesmente 
um povo bestializado. Tentar entender que povo era este, qual seu imaginrio poltico e qual sua prtica poltica ser a tarefa que enfrentaremos ao longo dos captulos 
deste livro. O estudo comear por uma descrio da cidade do Rio de Janeiro no incio da Repblica, com nfase especial nas transformaes sociais, polticas e 
culturais trazidas pelo fim de sculo. O captulo seguinte examinar as vrias concepes de cidadania vigentes  poca da mudana do regime. Depois, tentar-se- 
examinar o mundo dos cidados assim como ele se verificava na capital da Repblica atravs da participao eleitoral. O quarto captulo ser dedicado ao estudo de 
uma ao poltica exemplar  no sentido poltico e moral  da populao: a Revolta da Vacina. Por
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fim, o captulo quinto procurar reconstituir o mundo da cidadania no Rio de Janeiro e buscar razes para explic-lo.
Embora se trate de uma investigao de natureza histrica, no resta dvida de que o problema da cidadania continua no centro da preocupao de todos nos dias de 
hoje, quando mais uma mudana de regime se efetua e mais uma tentativa  feita no sentido de construir a comunidade poltica brasileira. A historiografia  aqui, 
uma vez mais, projeo do presente e instrumento de tentativa de construo da histria. Diziam os positivistas que os mortos governavam os vivos, o passado o presente. 
Ao reler a histria com os olhos de hoje talvez pudssemos dizer que os vivos, ao tentar reconstruir o passado, tentam governar os mortos na iluso de poderem governar 
a si prprios. Ou, em verso pessimista, na frustrao de o no poderem fazer.
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CAPTULO I
O RIO DE JANEIRO E A REPBLICA*
No seria exagero dizer que a cidade do Rio de Janeiro passou, durante a primeira dcada republicana, pela fase mais turbulenta de sua existncia. Grandes transformaes 
de natureza econmica, social, poltica e cultural, que se gestavam h algum tempo, precipitaram-se com a mudana do regime poltico e lanaram a capital em febril 
agitao que s comearia a ceder ao final da dcada. O que se ler a seguir ser a tentativa de descrever sumariamente a natureza destas mudanas e examinar as 
consequncias delas advindas para a vida dos fluminenses. Ateno especial ser dada ao impacto do novo regime, que se pretendia ancorado na opinio pblica, na 
formao de uma comunidade poltica na antiga capital do Imprio.
A anlise concentrar-se- na fase inicial de consolidao do novo regime, estendendo-se at o final do governo Rodrigues Alves, quando j estavam nitidamente definidos 
os vitoriosos e os vencidos e estabelecidos os rumos e a natureza da poltica republicana tanto para o pas como para a capital. No que se refere a esta, estavam 
definidos no s o papel que lhe caberia como tambm as regras para represent-lo.
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Como a maior cidade e a capital econmica, poltica e cultural do pas, o Rio de Janeiro no poderia deixar de sentir, em grau mais intenso do que aualquer outra 
cidade, as mudanas que vinham fermentando durante os ltimos anos do Imprio e que culminaram na abolio da escravido e na procIamao da Repblica.  mudana 
de regime, com todas as expectativas que trazia e tambm com todas as dificuldades que implicava, como que projetou luz intensa sobre as novas realidades, tornando 
a vivncia delas tambm mais intensa e mais difundida. De uma maneira ou ,de outra, para melhor ou para pior, grande parte dos fluminenses foi pela primeira vez 
envolvida nos problemas da cidade e do pas.
Esta conscincia nova e ampliada e as consequncias que gerava, antes mesmo que mudanas quantitativas, caracterizaram o Rio da primeira dcada republicana.
Mas as alteraes quantitativas so inescapveis. A primeira delas foi de natureza demogrfica. Alterou-se a populao do capital em termos de nmero de habitantes, 
de composio tnica, de estrutura ocupacional.
A abolio lanou o restante da mo-de-obra escrava no mercado de trabalho livre e engrossou o contingente de subempregados e desempregados. Alm disso, provocou 
um xodo para a cidade proveniente da regio cafeeira do estado do Rio e um aumento na imigrao estrangeira, especialmente de portugueses. Os ndices de crescimento 
da populao podem ser vistos na tabela I.
V-se que a dcada que precedeu a Repblica apresenta o maior crescimento populacional relativo. Em termos absolutos, tem-se que a populao quase dobrou  entre 
1872 e 1890, passando de 266 mil a 522 mil. A cidade teve ainda de absorver uns 200 mil novos habitantes na ltima dcada do sculo. S no ano de 1891, entraram 
166 321 imigrantes, tendo sado para os estados
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Tabela I
Crescimento anual da populao do Rio de Janeiro, 1872-1906


* Verso modificada deste captulo foi publicada em Revista Brasileira de Histria, 5 (8-9): 117-38, set. 1984/abr. 1985.

Anos -1872-1880   - Crescimento anual (%) 3.84
Anos -1880-1890   - Crescimento anual (%) 4,54
Anos  1890-1900 - Crescimento anual (%) 3.23
Anos  1900-1906 - Crescimento anual (%) 2,91
Fonte: ANURIO ESTATSTICO DO BRAZIL (1908.1912). v. l. p. XVIII.

71 264. Este enorme influxo populacional fazia com que, em 1890, 28,7% da populao fosse nascida no exterior e 26% dela proviesse de outras regies do Brasil. Assim, 
apenas 45% da populao era nascida na cidade.
Outro resultado importante da intensa imigrao era o desequilbrio entre os sexos. Em 1890, entre os estrangeiros, os homens eram mais que o dobro das mulheres. 
Na populao total, a predominncia do sexo masculino girava em torno de 56%. O desequilbrio refletia-se no ndice de nupcialidade, que era apenas de 26% entre 
os homens brancos e caa para 12,5% entre os negros em 1890.1 Em verdade, quanto a este ponto tinha havido alguma melhoria em relao a 1872, mas permanecia muito 
alto o nmero de solteiros e, portanto, muito baixo o nmero de famlias regularizadas.
Uma terceira consequncia do rpido crescimento populacional foi o acmulo de pessoas em ocupaes mal remuneradas ou em ocupao fixa. Domsticos, jornaleiros, 
trabalhadores em ocupaes mal definidas chegavam a mais de 100 mil pessoas em 1890 e a mais de 200 mil em 1906 e viviam nas tnues fronteiras entre a legalidade 
e a ilegalidade, s vezes participando simultaneamente de ambas. Pouco antes da Repblica, o embaixador portugus anotava: "Est a cidade do Rio de Janeiro
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cheia de gatunos e malfeitores de todas as espcies. Em proposta para regulamentao do servio domstico, feita  Intendncia Municipal em 1892, Evaristo de Moraes 
observava que havia na capital "gente desocupada em grande quantidade, sendo notvel o nmero de menores abandonados".2
Esta populao poderia ser comparada s classes perigosas ou potencialmente perigosas de que se falava na primeira metade do sculo XIX. Eram ladres prostitutas, 
malandros, desertores do Exrcito, da Marinha e dos navios estrangeiros, ciganos, ambulantes, trapeiros, criados, serventes de reparties pblicas, ratoeiros, recebedores 
de bondes, engraxates, carroceiros, floristas, bicheiros, jogadores, receptadores, pivetes (a palavra j existia). E,  claro, a figura tipicamente carioca do capoeira, 
cuja fama j se espalhara por todo o pas e cujo nmero foi calculado em torno de 20 mil s vsperas da Repblica.3 Morando, agindo e trabalhando, na maior parte, 
nas ruas centrais da Cidade Velha, tais pessoas eram as que mais compareciam nas estatsticas criminais da poca, especialmente as referentes s contravenes do 
tipo desordem, vadiagem, embriaguez, jogo. Em 1890, estas contravenes eram responsveis por 60% das prises de pessoas recolhidas  Casa de Deteno.
Anote-se ainda o impacto do crescimento populacional acelerado sobre as condies de vida, com as consequentes presses sobre a administrao municipal. Agravaram-se 
muito os problemas de habitao, tanto em termos de quantidade quanto de qualidade.  A absoluta falta de casas, especialmente para os pobres, foi salientada em 
1892 pela Sociedade Unio dos Proprietrios e Arrendatrios de Prdios, que a atribua  imigrao. A Sociedade solicitava  Inspetoria de Higiene que fosse mais 
cautelosa ao mandar fechar habitaes,
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pelas consequncias que a medida poderia acarretar.4 Os velhos problemas de abastecimento de gua, de saneamento e de higiene viram-se agravados de maneira dramtica 
no incio da Repblica com o mais violento surto de epidemias da histria da cidade. O ano de 1891 foi particularmente trgico, pois nele coincidiram epidemias de 
varola e febre amarela, que vieram juntar-se s tradicionais matadoras, a malria e a tuberculose. Nesse ano, a taxa de mortalidade atingiu seu mais alto nvel, 
matando 52 pessoas em" cada mil habitantes. At 1896, a mortalidade permaneceu acima de 35 por mil, com a a nica exceo de 1893. A cidade tornara-se, sobretudo 
no vero, um lugar perigoso para viver, tanto para nacionais quanto para estrangeiros. Nos meses de maior calor, o corpo diplomtico fugia em bloco para Petrpolis 
a fim de escapar s epidemias, nem sempre com xito. O governo ingls concedia a seus diplomatas um adicional de insalubridade pelo risco que corriam representando 
Sua Majestade.
No terminavam a as atribulaes por que passava a capital. Pelo lado econmico e financeiro, os tempos tambm foram de grandes agitaes. Novamente a origem de 
tudo remontava  abolio da escravido. No  necessrio repetir em pormenores uma histria j bem sabida. Basta lembrar que, devido  necessidade de aplacar os 
cafeicultores, especialmente do estado do Rio, e de atender a uma demanda real de moeda para o pagamento de salrios, o governo imperial comeou a emitir dinheiro, 
no que foi seguido com entusiasmo pelo governo provisrio, este preocupado tambm em conquistar simpatias para o novo regime. Concedido o direito de emitir a vrios 
bancos, a praa do Rio de Janeiro foi inundada de dinheiro sem nenhum lastro, seguindo-se a conhecida febre especulativa, bem descrita no romance
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de Taunay, O Encilhamento. Segundo um jornal da poca, "todos jogaram, o negociante, o mdico, o jurisconsulto, o funcionrio pblico, o corretor, o zango; com 
pouco peclio prprio, com muito peclio-alheio, com as diferenas do gio, e quase todos com a cauo dos prprios instrumentos do jogo".5 Falta acrescentar  lista 
de especuladores os fazendeiros do estado do Rio de Janeiro, que afluram  capital para jogar na especulao o dinheiro dos emprstimos. Os anos de 1890 e 1891 
foram de loucura, segundo a expresso de um observador estrangeiro, o qual acrescenta ter havido corretores que obtinham lucros dirios de 50 a 100 contos e que 
uma oscilao do cmbio fazia e desfazia milionrios.6 Por dois anos, o novo regime pareceu uma autntica repblica de banqueiros, onde a lei era enriquecer a todo 
custo com dinheiro de especulao.
As consequncias no se fizeram esperar. Desde logo, houve enorme encarecimento dos produtos importados devido ao aumento da demanda e ao consumo conspcuo dos novos 
ricos. A seguir, a inflao generalizada e a duplicao dos preos j em 1892. Ao mesmo tempo, comeou a queda do cmbio, encarecendo mais ainda os produtos de importao, 
que na poca abrangiam quase tudo. Em 1892, j era necessrio o dobro de mil ris para comprar uma libra esterlina; em 1897, o triplo. Por cima, o governo aumentou 
os impostos de importao e passou a cobr-los em ouro, o que contribuiu ainda mais para o agravamento do custo de vida. At o embaixador ingls sofreu as consequncias 
quando um funcionrio da embaixada pediu aumento de salrio, demonstrando com listas de preos que seus 70$000 mensais no eram mais suficientes para sobreviver. 
O embaixador encaminhou favoravelmente o pedido ao Foreign Office, dizendo que os salrios no tinham acompanhado o aumento dos
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preos, e terminou seu ofcio com uma tirada de orador popular: "[...] at quando podemos esperar que o povo brasileiro aceite carregar tal peso?". Com efeito, segundo 
alguns clculos, no primeiro quinqunio republicano houve aumento de 100% nos salrios para um aumento de mais de 300% nos preos.7

Artur Azevedo reflete a situao em O Tribofe, escrito em 1892:

Das algibeiras some-se o cobre,
Como levado por um tufo:
Carne de vaca no come o pobre,
Qualquer dia no come po.
Fsforos, velas, couve, quiabos,
Vinho, aguardente, milho, feijo,
Frutas, conservas, cenouras, nabos...
Tudo se vende pr'um dinheiro!8

O aumento no custo de vida era agravado pela imigrao, que ampliava a oferta de mo-de-obra e acirrava a luta pelos escassos empregos disponveis. Tal situao 
constituiu o combustvel para o movimento jacobino, que principiou no governo Floriano e perdurou at o fim da presidncia de Prudente de Morais (1898). O jacobinismo 
elegeu como principal alvo de suas iras os portugueses, considerados usurpadores de empregos e exploradores dos brasileiros atravs do controle que exerciam sobre 
grande parte do comrcio e das casas de aluguel.9 Pelo meio da dcada, a queda dos preos do caf contribuiu para agravar a crise e o pas entrou em fase de deflao 
e recesso econmica, de que s comeou a sair ao final do governo Campos Sales, no incio do novo sculo.  
J foram mencionados alguns fatos polticos. Foi a poltica outro aspecto, e talvez o mais saliente, das transformaes e abalos sofridos pela capital federal. A 
proclamao
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da Repblica trouxe grandes expectativas de renovao poltica, de maior participao no poder por parte no s de contra-elites mas tambm de camadas antes excludas 
do jogo poltico. O fato de ter sido o novo regime proclamado por movimento que se desenrolara totalmente na capital, para surpresa de quase todas as provncias, 
veio contribuir ainda mais para as expectativas da populao. Por quase uma dcada, o Rio seria a arena em que os destinos nacionais se decidiriam.
Depois da independncia, era o momento de maior glria, de maior visibilidade parada capital, transformada em loco dasatenes de todo o pas. Acontecimentos, por 
banais que fossem, assumiam importncia desmedida em funo da ressonncia produzida pela situao privilegiada em que se achava a cidade. Uma tentativa de assassinato, 
um empastelamento de jornal, uma greve, uma revolta de quartel ou de navio, que abalassem a capital, reverberavam pelo pas inteiro.
Pela expectativa despertada, pelas lutas a que deram incio e mesmo por razes diretamente vinculadas  poltica, os primeiros anos da Repblica foram de repetidas 
agitaes e de quase permanente excitao para os fluminenses. Os militares tinham provado o poder que desdeo incio da Regncia lhes fugira das mos. Da em diante 
julgaram-se donos e salvadores da Repblica, com o direito de intervir assim que lhes parecesse conveniente. Rebelavam-se quartis, regimentos, fortalezas, navios, 
a Escola Militar, a esquadra nacional em peso. Generais brigavam entre si, ou com almirantes, o Exrcito brigava com a Armada, a polcia brigava com o Exrcito. 
Por seis meses, a esquadra rebelada bloqueou o porto e bombardeou partes da cidade, causando pnico, deslocamentos macios de populao para os subrbios, ameaas 
de saques. Os operrios, ou parte deles, acreditaram
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nas promessas do novo regime, tentaram organizar-se em partidos, promoveram greves, seja por motivos polticos, seja em defesa de seu poder aquisitivo erodido pela 
inflao.10 Ferrovirios, martimos, estivadores, cocheiros e condutores de bondes fizeram sua entrada no cenrio poltico, promovendo as primeiras paralisaes 
da capital, que dependia do funcionamento da rede ferroviria e do porto, pois da provinha todo o seu abastecimento. Pequenos proprietrios, empregados, funcionrios 
pblicos tambm se mobilizaram pela primeira vez no bojo da xenofobia florianista, organizando clubes jacobinos e batalhes patriticos. Os jacobinos mantiveram 
um clima generalizado de tenso poltica, especialmente durante a campanha de Canudo no governo de Prudente de Morais. Quebravam jornais, promoviam arruaas, vaiavam 
congressistas, espancavam e matavam portugueses, perseguiam monarquistas, assassinavam inimigos. Em 1897 tentaram matar o presidente da Repblica, depois de terem 
feito o mesmo com o ltimo presidente do conselho de ministros da Monarquia. Polticos republicanos e monarquistas assinavam, manifestos, envolviam-se em conspiraes, 
planejavam golpes.
Talvez o nico setor da populao a ter sua atuao comprimida pela Repblica tenha sido o dos capoeiras. Logo no incio do governo provisrio foram perseguidos 
pelo chefe de polcia, presos e deportados em grande nmero para Fernando de Noronha. Sampaio Ferraz vingava-se deste modo das hostilidades sofridas pelos propagandistas 
da Repblica, entre os quais figurara, por parte dos capoeiras incorporados  Guarda Negra. No conseguiu destru-los, mas domesticou-os criando condies para sua 
reincorporao ao novo sistema em termos mais discretos. Tambm no houve tolerncia alguma para com os anarquistas estrangeiros que pela primeira
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vez aportaram s praias fluminenses. Para eles, a Repblica mostrou logo sua face violenta, expulsando-os sem maiores delongas. Durante o governo de Floriano Peixoto 
foram expulsos 76 estrangeiros. Desses, 36 por crimes polticos, 19 expressamente sob acusao de anarquismo. As deportaes faziam-se por simples decreto presidencial, 
precedendo solicitao do chefe de polcia.
O primeiro decreto data de 14 de agosto de 1893.11
Por ltimo, e preciso mencionar tambm a movimentao que se deu no mundo das idias e das mentalidades. A Repblica no produziu correntes ideolgicas proprias 
ou novas vises estticas. Mas, por um momento, houve um abrir de janelas, por onde circularam mais livremente idias que antes se continham no recatado mundo imperial. 
Criou-se um ambiente que Evaristo de Moraes chamou com felicidade de porre ideolgico, e que poderamos tambm chamar, sob a inspirao de Srgio Porto, de maxixe 
do republicano doido. Nesse porre, ou nesse maxixe, misturavam-se, sem muita preocupao lgica ou substantiva, vrias vertentes do pensamento europeu. Algumas delas 
j tinham sido incorporadas durante o Imprio, como o liberalismo e o positivismo; outras foram impulsionadas, como o socialismo; outras ainda foram somente ento 
importadas, como o anarquismo. Entre os republicanos histricos, havia os que se ligavam  corrente liberal spenceriana e federalista,  moda de Alberto Sales e 
dos paulistas em geral, e os que se inspiravam antes na tradio da Revoluo Francesa, que favorecia uma viso mais rousseauniana do pacto social, mais popular 
e centralista, ao estilo de Silva Jardim, Lopes Trovo, Joaquim Serra. E havia ainda os positivistas, que exultaram com o advento do novo regime, julgando ter chegado 
a hora, a que se consideravam destinados, de exercerem a tutela intelectual
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sobre a nao. Mas mesmo entre eles houve divises  entre a ortodoxia da Igreja Positivista e as variantes civil e militar, que da doutrina retiravam apenas os 
aspectos que mais interessavam  ao poltica.
Descendo um pouco na escala social, intelectuais de classe mdia e artesos qualificados, como os grficos, viram sua possibilidade de intervir na poltica atravs 
de propostas de natureza ocialista. Lanaram jornais de propaganda e tentaram formar organizaes que pudessem traduzir em ao concreta seus princpios. Acreditavam 
na possibilidade de democratizar a Repblica indo alm das propostas liberal e positivista que predominavam entre os histricos. Finalmente, um pouco mais tarde, 
j no bojo do desencanto com a pouca ou nenhuma sensibilidade do novo regime para reformas democratizantes, surgiram as propostas anarquistas, trazendo alternativas 
radicais para a organizao poltica do pas.  frente dos novos propagandistas estariam intelectuais cie classe mdia e lderes operrios, estrangeiros e brasileiros. 
O captulo seguinte desenvolver melhor este tpico.
Mais importante que a circulao de idias talvez tenha sido a nova atitude  dos intelectuais em relao  poltica. Da invaso da Cmara Municipal a 15 de novembro 
de  1889, antes mesmo de proclamada a Repblica, participaram vrios intelectuais. Alguns, por certo, antigos militantes do movimento abolicionista, como Jos do 
Patrocnio, mas outros pela primeira vez movidos  ao poltica concreta, como Olavo Bilac, Lus Murat, Pardal Mallet. Um ms depois, intelectuais do Rio enviaram 
um manifesto de entusistico apoio ao governo provisrio, em que se referiam  aliana entre os homens de letra e o povo. A ptria, dizia  o manifesto, abrira as 
asas rumo ao progresso, "a literatura vai  desprender tambm
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o vo para acompanh-la de perto".12 O entusiasmo durou at o governo Floriano, quando se de um cisma entre os intelectuais, e alguns dos antigos entusiastas da 
Repblica tiveram de fugir da capital para evitar a priso. Como exemplo de perseverana e de f, j agora obcecada, nos ideais de um republicanismo jacobino, restaria 
apenas Raul Pompia. Seu suicdio em dezembro de 1895, alguns meses aps a morte de Floriano, foi o trgico smbolo do fracasso de uma alternativa poltica, assim 
como a fuga de Bilac, Guimares Passos e outros indicava que no seria to fcil estabelecer os parmetros de uma convivncia pacfica entre a Repblica da poltica 
e a Repblica das letras. A convivncia se daria mais tarde em termos algo distintos dos imaginados inicialmente.
Mais difcil de avaliar  o impacto da proclamao do novo regime a nvel das mentalidades. Entre as elites, houve sem dvida  sensao geral de libertao, que 
atingiu no s o mundo das idias mas tambm dos sentimentos e das atitudes. No h estudos sobre este ponto, mas no seria exagerado dizer que a sada da figura 
austera e patriarcal do velho imperador, que imprimia forte marca em toda a elite poltica e mesmo em setores mais amplos da populao, significou a emancipao 
dos que seriam simbolicamente seus filhos. A mudana parece ter sido importante sobretudo no que se refere a padres de moral e de honestidade. A comear por esta 
ltima, vimos que o encilhamento trouxe uma febre de enriquecimento a todo custo, escandalizando velhos monarquistas, como o visconde de Taunay, que via no fenmeno 
uma degradao da alma nacional. Como diriam os jornais da poca, "a Repblica  a riqueza!".13 Poderamos dizer que se deu uma vitria do esprito do capitalismo 
desacompanhado da tica protestante. Desabrochou
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o esprito aquisitivo solto de qualquer peia de valores ticos, ou mesmo de clculo racional que garantisse a sustentao do lucro a mdio prazo. Era um capitalismo 
predatrio, fruto tpico do esprito bandeirante na concepo que lhe deu Viana Moog. O que antes era feito com discrio, ou mesmo s escondidas, para fugir  vigilncia 
dos olhos imperiais, agora podia ser gritado das janelas ou dos coches, era quase motivo de orgulho pessoal e de prestgio pblico. Os heris do dia eram os grandes 
especuladores da bolsa.
A quebra de valores antigos foi tambm acelerada no campi da moral e dos costumes. Certamente, o Rio  h muito deixara de ser exemplo de vida morigerada, se   que 
alguma vez o foi. Os altos ndices de populao marginal e de imigrao, o desiquilbrio entre os sexos, a baixa nupcialidade, j alta taxa de nascimentos ilegtimos 
so testemunhos seguros de costumes mais soltos. Aponta na mesma direo o romance de Manuel Antnio de Almeida, Memrias de um Sargento de Milcias, escrito em 
1853. Mas, novamente, parece-me que o que antes era semiclandestino, sussurrado, adquiriu com a Repblica, se excetuarmos o governo de Floriano, foros de legitimao 
pblica. O pecado popularizou-se, personificou-se. Na revista do ano de Artur Azevedo, O Rio em 1877, domina a temtica poltica e os personagens so todos simblicos, 
como o Boato, a Poltica, o Z Povinho etc. J em O Tribofe, revista apresentada no incio de 1892, o engano, a seduo, a explorao, a mutreta, o tribofe, enfim, 
aparecem encarnados em pessoas muito reais e possuem at mesmo certo charme. Entre jogadores, cocotes, bons vivants, fraudadores de corridas, proprietrios exploradores, 
perde-se a virtude da famlia interiorana. Primeiro, some a empregada, seduzida por um personagem que se diz lanador de mulheres, ou seja,
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formador de prostitutas; a seguir, vai o prprio fazendeiro nos braos de uma cocote; finalmente, desaparece o filho em agitaes estudantis. Todos pegam o "micrbio 
da pndega". Se do ar da cidade medieval se dizia que tornava livre social e politicamente, do ar do Rio pode-se dizer que libertava moralmente. Ou, como diz em 
O Tribofe Quinota, a filha do fazendeiro, referindo-se ao pai: "Respirou o ar desta terra, e perdeu a cabea"; e completa: "Aqui h muita liberdade e pouco escrpulo... 
faz-se ostentao do vcio e das grandezas [. . . ] No se respeita ningum".14 No por acaso, A Cidade do Rio, jornal de Patrocnio, representava-se como uma mulher 
nua, e assim aparecia em desenhos dialogando com Deodoro, para a suprema irritao do austero soldado.
Tal liberao se deu a despeito da ao moralista de certas autoridades republicanas. O chefe de polcia de Deodoro perseguiu os capoeiras, e todo o govereno de 
Floriano teve uma cara repressora. O jogo, as apostas foram reprimidos, e tentou-se acabar com o entrudo. Porm a jogatina da bolsa, favorecida pelo governo provisrio, 
tinha dado o tom. Apesar da ao das autoridades, quando havia tal ao, abriram-se cassinos, casas de corrida, frontes, beldromos, que vieram juntar-se ao tradicional 
jogo do bicho, ou dos bichos, como se dizia na poca, e s casas clandestinas de jogo. A confiana na sorte, no enriquecimento sem esforo em contraposio ao ganho 
da vida pelo trabalho honesto parece ter sido incentivada pelo surgimento do novo regime.  o que revela o testemunho insuspeito de Raul Pompia: "Desaprendeu-se 
a arte honesta de fazer a vida com o natural e firme concurso do tempo, do trabalho. Era preciso melhorar, mas de pronto: ao jogo pois!", publicado no Jorna/ do 
Commercio, a 4 de janeiro de 1892. E pedia, para a
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salvao da Repblica, o fim da "epidemia de jogatina".
Mas h um ponto que  preciso salientar. O fato de a Repblica ter favorecido o grande jogo da bolsa e perseguido capoeiras e o pequeno jogo dos bicheiros sugere 
uma recepo diferente do novo regime por parte do que poderia ser chamado de proletariado da capital. A euforia inicial, a sensao de que se abriam caminhos novos 
de participao parecem no ter atingido este setor da populao. Eu diria mesmo que a Monarquia caiu quando atingia seu ponto mais alto de popularidade entre esta 
gente, em parte como consequncia da abolio da escravido. A abolio deu ensejo a imensos festejos populares que duraram uma semana e se repetiram no ano seguinte, 
cinco meses antes da proclamao da Repblica. A simpatia popular se dirigia no s  princesa Isabel, mas tambm a Pedro II, como ficou evidenciado por ocasio 
da comemorao do aniversrio do velho imperador, a 2 de dezembro de 1888. Segundo o testemunho do republicano Raul Pompia, o Pao Imperial foi invadido por "turba 
imensa de populares, homens de cor a maior parte". A polcia teve de intervir para convencer alguns dos manifestantes de que pelo menos vestissem camisa para se 
apresentarem ao imperador. No meio da multido, salientava-se a imponente figura do prncipe Ob, um negro que se dizia rei africano. Prncipe Ob adornara de penas 
sua farda de alferes honorrio.15 A cena foi sem dvida motivo de riso e chacota, e prncipe Ob acabou sendo preso pela polcia. Mas revelava profundo simbolismo: 
um rei negro, um rei das ruas e becos da cidade, vai paramentado, combinando a farda do mundo oficial com as penas de suas origens africanas, e acolitado pela multido 
dos miserveis saudar o imperador de olhos azuis.
A reao negativa da populao negra  Repblica
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manifestou-se antes mesmo da proclamao, atravs da Guarda Negra organizada por Jos do Patrocnio. Vrios incidentes verificaram-se entre os propagandistas e a 
Guarda. O mais srio de todos se deu com a interrupo, que resultou em mortos e feridos, de uma conferncia de Silva Jardim, em dezembro de 1888, na Sociedade Francesa 
de Ginstica. Dizer que se tratava apenas de capoeiras baderneiros manipulados pela polcia, como o fizeram os republicanos e at mesmo Rui Barbosa, no basta. Permanece 
o fato de que os republicanos no conseguiram a adeso do setor pobre da populao, sobretudo dos negros. O prprio Silva Jardim, ao acompanhar o conde d'Eu em sua 
viagem ao norte do pas em 1889, experimentaria mais uma vez, em Salvador, a ira da populao negra. Por ele e pela Repblica manifestaram-se apenas os estudantes 
da Faculdade de Medicina local. A simpatia dos negros pela Monarquia reflete-se na conhecida ojeriza que Lima Barreto, o mais popular romancista do Rio, alimentava 
pela Repblica. Neto de escravos, filho de um protegido do visconde de Ouro Preto, o romancista assistira, emocionado, aos sete anos, s comemoraes da abolio 
e s festas promovidas por ocasio do regresso do imperador de sua viagem  Europa, tambm em 1888. Em contraste, vira no ano seguinte seu pai, operrio da Tipografia 
Nacional, ser demitido pela poltica republicana. Irritava-o, particularmente, a postura do baro do Rio Branco, a quem acusava de renegar a parcela negra da populao 
brasileira.16
Em termos concretos, a preveno republicana contra pobres e negros manifestou-se na perseguio movida por Sampaio Ferraz contra os capoeiras, na luta contra os 
bicheiros, na destruio, pelo prefeito florianista Barata Ribeiro, do mais famoso cortio do Rio, a Cabea de
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Porco, em 1892. No por acaso. Barata Ribeiro tambm comparecera  conferncia dissolvida de Silva Jardim. No seria, a meu ver, exagerado supor que a reao popular 
a certas medidas da administrao republicana, mesmo que teoricamente benficas, como a vacina obrigatria, tenha sido em parte alicerada na antipatia pelo novo 
regime. Mais ou menos  poca da Revolta da Vacina, por exemplo, Joo do Rio verificou, ao visitar a Casa de Deteno, que "Com rarssimas excees, que talvez no 
existam, todos os presos so radicalmente monarquistas. Passadores de moedas falsas, incendirios, assassinos, gatunos, capoeiras, mulheres abjetas, so ferventes 
apstolos da restaurao".17 Eram monarquistas e liam romances de cavalaria. Esta extraordinria revelao confirma o abismo existente entre os pobres e a Repblica 
e abre fecundas pistas de investigao sobre um mundo de valores e idias radicalmente distinto do mundo das elites e do mundo dos setores intermedirios.
Apontadas rapidamente as transformaes sofridas pela capital, cabe agora perguntar pelas consequncias da advindas para a populao da cidade e seu governo e para 
a relao entre ambos. O problema central a ser resolvido pelo novo regime era a organizao de outro pacto de poder, que pudesse substituir o arranjo imperial com 
grau suficiente de estabilidade. Durante quase dez anos de Repblica, as agitaes se sucediam na capital, havia guerra civil nos estados do Sul, percebiam-se riscos 
de fragmentao do pas,   economia estava ameaada pela crise do mercado do caf e pelas dificuldades de administrar a dvida externa. Para os que controlavam 
o setor mais poderoso da economia (exportao) e para os que se preocupavam em manter o pas unido, tornava-se urgente acabar com a instabilidade poltica.
A natureza da tarefa que se impunha pode ser descrita
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como a necessidade de eliminar, ou pelo menos neutralizar, a influncia da capital na poltica nacional. Isto significava pelo menos duas coisas: tirar os militares 
do governo e reduzir o nvel de participao popular. Os dois fenmenos eram relacionados, pois o grosso do Exrcito e da Marinha estava localizado no Rio de Janeiro, 
e muitos militares de ambas as corporaes envolviam-se frequentemente nas agitaes polticas, at mesmo em greves operrias. Nas greves, tumultos, revoltas, tentativas 
de golpes, havia sempre militares ao lado de elementos civis. A aliana foi mais ntida durante o perodo jacobino, mas at mesmo em 1904 houve ainda o desenvolvimento 
paralelo, com intersees, de uma revolta popular e uma revolta militar. Militares e setores populares no representavam interesses compatveis com os do grande 
comrcio e da grande agricultura. Porm, por outro lado, no tinham condies de impor um governo que extrapolasse os limites do Distrito Federal.
A maneira indireta de neutralizar a capital e as foras que nela se agitavam era fortalecer os estados, pacificando e cooptando suas oligarquias. Era reunir as oligarquias 
em torno de um arranjo que garantisse seu domnio local e sua participao no poder nacional de acordo com o cacife poltico de cada uma. Como  sabido, esta foi 
a obra de Campos Sales, que, alm do mais, precisava desesperadamente de paz interna para negociar a dvida externa com os banqueiros ingleses. O acordo foi consagrado 
em 1900, durante o reconhecimento de poderes da nova legislatura. Por ele, presumia-se a legitimidade dos diplomas dos deputados eleitos pelas polticas dominantes 
nos estados, conseguindo-se assim o apoio dessas polticas para a ao do governo federal. Se os partidos no funcionavam como instrumentos de governo, se se dividiam 
em faces, se ficavam presos a
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caudilhos, a soluo, para Campos Sales, era formar ento um grande partido de governo com sustentao nas oligarquias estaduais. O prprio presidente resumiu claramente 
seu objetivo: " de l [dos estados] que se governa a Repblica, por cima das multides que tumultuam, agitadas, nas ruas da capital da Unio". E prosseguindo: "A 
poltica dos estados [... ]  a poltica nacional" (grifo de Campos Sales).18
O resumo  perfeito: governar o pas por cima do tumulto das multides agitadas da capital. O Rio podia ser caixa de ressonncia, mas no tinha fora poltica prpria 
porque uma populao urbana mobilizada polticamente, socialmente indisciplinada, dividida por conflitos internos no podia dar sustentao a um governo que tivesse 
de representar as foras dominantes do Brasil agrrio. A percepo do perigo representado por uma cidade deliberante, com um mnimo que fosse de vontade prpria, 
fez-se sentir logo no incio da Repblica. O decreto do governo provisrio que dissolveu a antiga Cmara dos Vereadores e criou um Conselho de Intendncia dava a 
este, em coerncia com a filosofia descentralizante do novo regime, certa autonomia de ao. Os intendentes acreditaram em seu novo papel e logo decretaram um Cdigo 
de Posturas, que desagradou profundamente aos proprietrios e arrendatrios de prdios de aluguel. A Sociedade que representava estes proprietrios recorreu de imediato 
no ao Conselho, mas ao governo federal, e este, voltando atrs em seus propsitos iniciais, suspendeu a execuo do Cdigo e baixou outro decreto, reduzindo a autonomia 
do Conselho e submetendo suas deliberaes  apreciao do ministro do Interior. Demonstrando alguma dignidade, os intendentes demitiram-se em protesto. A teoria 
rapidamente se revelara outra na prtica. A experincia de autonomia
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durou apenas dois meses e meio. Apesar da curta durao e do carter limitado que tivera, fora suficiente para que o tradicional rgo republicano O Paiz, dirigido 
por Quintino Bocaiuva, a ela se referisse como sinal do perigo de surgir no Rio uma pequena comuna, uma conveno municipal, desptica e tirnica como a conveno 
francesa (grifo meu).19 A desproporo gritante entre a dimenso real do fato e a que lhe pretendeu dar o jornal, conjurando fantasmas da Paris revolucionria de 
1789 e 1871,  um indicador precioso da preocupao dos republicanos com o perigo da mobilizao popular na capital.     
A situao do governo municipal no mudou muito com a decretao da lei orgnica do Distrito Federal, em 1892, j em regime constitucional. A lei previa a eleio 
dos intendente pelo voto popular, mas o prefeito, cargo ento criado, seria nomeado pelo presidente da Republica com aprovao do Senado Federal. As coisas assim 
permaneceram at o final da Primeira Repblica. Na verdade, o Rio republicano foi governado o tempo todo por interventores, que mais no eram os prefeitos nomeados.
O governo municipal ficou limitado  ao administrativa e, mesmo assim, dependendo do apoio poltico e financeiro do governo federal para iniciativas de maior vulto. 
O Conselho de Intendentes, mesmo eleito, tinha poucas condies de se opor ao prefeito nomeado. No governo de Rodrigues Alves, Pereira Passos governou a cidade por 
seis meses com a Cmara suspensa, ditatorialmente, como o fizera na poca florianista Barata Ribeiro, com o Conselho funcionando. O complemento inevitvel da despolitizao 
do governo municipal foi o falseamento do processo eleitoral e da representatividade poltica. O nmero de eleitores foi mantido sempre em
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nveis baixssimos, e o processo eleitoral foi totalmente falseado pela intimidao, pela violncia e pela fraude, como ser demonstrado no captulo 3.
Dissociava-se o governo municipal da representao dos cidados. O fato era agravado pela frequente nomeao de prefeitos e chefes de polcia totalmente alheios 
 vida da cidade, muitas vezes trazidos dos estados pelos presidentes da Repblica. Abria-se ento, do lado do governo, o caminho para o autoritarismo, que na melhor 
das hipteses poderia ser um autoritarismo ilustrado, baseado na competncia, real ou presumida, de tcnicos. No por acaso, muitos dos chefes do governo municipal 
no perodo em foco foram mdicos ou engenheiros. Dos seis primeiros, quatro foram mdicos, um engenheiro militar e apenas um tinha a formao tradicional da elite 
poltica brasileira, a jurdica. O exemplo mais bvio  naturalmente o do engenheiro Pereira Passos. Muitos destes tcnicos eram republicanos de primeira gua, como 
Barata Ribeiro. Mas, chegados ao poder, do esprito de repblica guardavam no mximo alguma preocupao com o bem pblico, desde que o pblico, o povo, no participasse 
do processo de deciso. O positivismo, ou certa leitura positivista da Repblica, que enfatizava, de um lado, a idia  do progresso pela cincia e, de outro, o conceito 
de ditadura republicana, contribua poderosamente para o reforo da postura tecnocrtica e autoritria.
O primeiro exemplo de tal mentalidade foi o Cdigo de Posturas Municipais de 1890. Dois meses aps a posse, os sete intendentes j tinham revisto um esboo de Cdigo 
legado pela Monarquia e o colocado em vigor. O novo cdigo regulava em pormenores vrias atividades, especialmente as referentes a casas de aluguel e de pasto
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No h dvida de que grande parte das medidas era bem-intencionada e buscava beneficiar a populao em termos de maior conforto e maior higiene, ao mesmo tempo que 
criava dificuldades aos proprietrios. Mas as medidas eram inteiramente irrealistas para a poca. Muitas delas, como a exigncia de caiar as paredes duas vezes por 
ano, azulejar cozinhas e banheiros, arejar quartos com aparelhos de ventilao, limitar o nmero de hspedes, envolviam melhoramentos at hoje inexistentes em muitas 
residncias. Alm disso, o Cdigo deixava transparecer a preocupao republicana com o controle da populao marginal da cidade. Se executado, poderia ter provocado 
uma primeira verso da Revolta da Vacina. Para justificar a afirmativa, basta dizer que inclua a proibio de que hotis, hospedarias e estalagens recebessem pessoas 
suspeitas, brios, vagabundos, capoeiras, desordeiros em geral. Exigia-se ainda o registro de todos os hspedes, com anotao de nomes, empregos e outras caractersticas. 
As listas deviam ser entregues  polcia no dia seguinte at as nove horas da manh. As penalidades pelo descumprimento dos dispositivos iam desde multas at priso 
por 30 dias.20 Podese imaginar o impacto dessas medidas, especialmente no velho centro. O Rio possua, em 1888, em 1888, 1331 estalagens e 18 866 quartos de aluguel, 
em que moravam 46 680 pessoas, incluindo todo o vasto contingente do mundo da desordem. De uma hora para outra, todos teriam registro na polcia, ou ficariam sem 
onde morar, caso os proprietrios cumprissem rigorosamente a lei. Como se v, era uma lei que ou no se aplicava, ou se aplicava pela violncia. No caso, ela foi 
suspensa. Em 1904, a lei da vacinao obrigatria teve exatamente o mesmo esprito de despotismo ilustrado, apesar de votada pelo Congresso. Desta vez, a interferncia 
do poder pblico foi levada
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para dentro da casa dos cidados, seu ltimo e sagrado reduto de privacidade. Na percepo da populao pobre, a lei ameaava a prpria honra do lar ao permitir 
que estranhos vissem e tocassem os braos e as coxas de  suas mulheres e filhas. A populao reagiu pela violncia e forou a interrupo da ao dos agentes do 
governo, como se ver no captulo 4.
A expectativa inicial, despertada pela Republica, de maior participao, foi sendo assim sistematicamente frustrada. Desapontaram-se os intelectuais com as perseguies 
do governo Floriano; desapontaram-se os operrios, sobretudo sua liderana socialista, com as dificuldades de se organizarem em partidos e de participarem do processo 
eleitoral; os jacobinos foram eliminados. Todos esses grupos tiveram de aprender novas formas de insero no sistema, mais fceis para alguns, mais difceis para 
outros. Os intelectuais desistiram da poltica militante e se concentraram na literatura, aceitando postos decorativos na burocracia, especialmente no Itamaraty 
de Rio Branco. Os operrios cindiram-se em duas vertentes principais, a dos anarquistas, que rejeitava radicalmente o sistema que os rejeitava, e a dos que procuravam 
integrar-se atravs dos mecanismos de cooptao do Estado. Os jacobinos desapareceram de cena. Quanto ao grosso da populao, quase nenhum meio lhe restava de fazer 
ouvir sua voz, exceto o veculo limitado da impresa.21
No que se refere  representao municipal, ela ficava solta, sem ter de prestar contas a um eleitorado autntico. A consequncia foi que se abriu por este modo 
o campo para os arranjos particularistas, para as barganhas pessoais, para o tribofe, para a corrupo. E 
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ento fechou-se o crculo: a preocupao em limitar a participao, em controlar o mundo da desordem acabou por levar  absoro perversa desse mundo na poltica. 
Ao lado de funcionrios pblicos, passaram a envolver-se nas eleies e na poltica municipais, por iniciativa dos polticos, os bandos de criminosos e contraventores 
do estilo de Totonho e Lucrcio Barba de Bode, descritos por Lima Barreto, os donos das casas de prostituio e de jogo. Eram estes malandros, no sentido que tinha 
a palavra na poca, os empresrios da poltica, os fazedores de eleies, os promotores de manifestaes, at mesmo a nvel da poltica federal. A ordem aliava-se 
 desordem, com a excluso da massa dos cidados que ficava sem espao poltico. O marginal virava cidado e o cidado era marginalizado.22
No entanto, havia no Rio de Janeiro um vasto mundo de participao popular. S que este mundo passava ao largo do mundo oficial da poltica. A cidade no era uma 
comunidade no sentido poltico, no havia o sentimento de pertencer a uma entidade coletiva. A participao que existia era de natureza antes religiosa e social 
e era fragmentada. Podia ser encontrada nas grandes festas populares, como as da Penha e da Glria, e no entrudo; concretizava-se em pequenas comunidades tnicas, 
locais ou mesmo habitacionais; um pouco mais tarde apareceria nas associaes operrias anarquistas. Era a colnia portuguesa, a inglesa; eram as colnias compostas 
por imigrantes dos vrios estados; era a Pequena frica da Sade, formada por negros da Bahia, onde, sob a matriarcal proteo de Tia Ciata, se gestava o samba carioca 
e o moderno carnaval. Eram as estalagens cuja populao podia chegar a mais de mil pessoas. O cortio de Botafogo, descrito por Alusio Azevedo, possua no final 
mais de 400 casas e constitua
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uma pequena repblica com vida prpria, leis prprias, detentora da inabalvel lealdade de seus cidados, apesar do autoritarismo do proprietrio. Alusio, alis, 
fala expressamente na "repblica do cortio". Ali se trabalhava, se divertia, se festejava, se fornicava e, principalmente, se falava da vida alheia e se brigava. 
Porm,  menor ameaa vinda de fora, todos esqueciam as brigas internas e cerravam fileiras contra o inimigo externo. Este inimigo era outro cortio e, principalmente, 
a polcia. Frente  polcia, dono e moradores se uniam, pois estava em jogo a soberania e a honra da pequena repblica. Cortio em que entrava polcia era cortio 
desmoralizado.23  profundamente irnico e significativo que a repblica popular do cortio se julgava violada, derrotada, quando l entrava o representante da repblica 
oficial. No romance, o cortio consegue evitar a entrada da polcia, mas na vida real, dois anos aps a publicao do livro, o cortio Cabea de Porco seria destrudo 
em autntica operao militar por ordem do republicano histrico Barata Ribeiro. O governo da Repblica destrua as repblicas sem integr-las numa repblica maior 
que abrangesse todos os cidados da cidade.
Domesticada politicamente, reduzido seu peso poltico pela consolidao do sistema oligrquico de dominao,  cidade pde ser dado o papel de carto-postal da Repblica. 
Entrou-se de cheio no esprito francs da belle poque, que teve seu auge na primeira dcada do sculo. O entusiasmo pelas coisas americanas limitara-se s frmulas 
polticas. O brilho republicano expressou-se em frmulas europeias, especialmente parisienses. Mais que nunca, o mundo literrio voltou-se para Paris, os poetas 
sonhavam viver em Paris e, sobretudo, morrer em Paris. Com poucas excees, como o mulato Lima Barreto e o caboclo Euclides da Cunha, os literatos se dedicaram a
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produzir para o sorriso da elite carioca, com as antenas estticas voltadas para a Europa.24
Quando as finanas da Repblica foram recuperadas pela poltica deflacionista de Campos Sales, sobraram recursos para as obras h muito planejadas de saneamento 
e embelezamento da cidade. Tudo foi feito com a eficincia e rapidez permitidas pelo estilo autoritrio e tecnocrtico inaugurado pela Repblica. O engenheiro-prefeito 
pediu a suspenso do funcionamento da Cmara dos Vereadores por seis meses para poder agir livremente e decretar a legislao necessria para o rpido encaminhamento 
das reformas. Um mdico sanitarista foi encarregado das medidas de higiene pblica. Tendo Paris como modelo, o centro da cidade foi depressa modificado, a avenida 
Beira-Mar foi aberta, jardins foram criados e reformados, os bondes ganharam trao eltrica, sem esquecer a construo do novo porto. Ao visitar a cidade pouco 
depois, uma poetisa francesa, entusiasmada, escreveria um livro de poemas com o ttulo La Ville Merveilleuse. Vindo de uma francesa, era a glria, e compensava o 
epteto depreciativo de rastaqeras que em Paris era dado aos brasileiros.
As reformas tiveram como um dos efeitos a reduo da promiscuidade social em que vivia a populao da cidade, especialmente no centro. A populao da cidade, especialmente 
no centro. A populao que se comprimia nas reas afetadas pelo bota-abaixo de Pereira Passos teve ou de apertar-se mais no que ficou intocado, ou de subir morros 
adjacentes, ou de deslocar-se para a Cidade Nova e para os subrbios da Central. Abriu-se espao para o mundo elegante que anteriormente se limitava aos bairros 
chiques, como Botafogo, e se espremia na rua do Ouvidor. O footing passou a ser feito nos 33 metros de largura da avenida Central, quando no se preferia um passeio 
de carro pela avenida Beira-Mar. No Rio
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reformado circulava o mundo belle-poque fascinado com a Europa, envergonhado do Brasil, em particular do Brasil pobre e do Brasil negro. Era o mundo do baro do 
Rio Branco, ministro das Relaes Exteriores do presidente que promoveu as reformas. O mesmo baro que na juventude tinha sido capoeira e que agora se esforava 
em oferecer  viso do estrangeiro um Brasil branco, europeizado, civilizado.
Mas, se o novo Rio criado pela Repblica aumentava a segmentao social e o distanciamento espacial entre setores da populao, as repblicas do Rio, vindas do Imprio, 
continuaram a viver, a renovar-se, a forjar novas realidades sociais e culturais mais ricas e mais brasileiras que os versos parnasianos e simbolistas. Em certos 
momentos, elas podiam manifestar-se politicamente e de modo violento, como nas barricadas de Porto Artur. Todavia, na maioria das vezes elas cresciam em movimentos 
lentos e subterrneos. Assim, a festa portuguesa da Penha foi aos poucos sendo tomada por negros e por toda a populao dos subrbios, fazendo-se ouvir o samba ao 
lado dos fados e das modinhas. Na Pequena frica da Sade, a cultura dos negros muulmanos vindos da Bahia, sua msica e sua religio fertilizaram-se no novo ambiente, 
criando os ranchos carnavalescos e inventando o samba moderno.25 Um pouco depois, o futebol, esporte de elite, foi tambm apropriado pelos marginalizados e se transformou 
em esporte de massa.
Assim, o mundo subterrneo da cultura popular engoliu aos poucos o mundo sobreterrneo da cultura, das elites. Das repblicas renegadas pela Repblica foram surgindo 
os elementos que constituiriam uma primeira identidade coletiva da cidade, materializada nas grandes celebraes do carnaval e do futebol.
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CAPTULO II
REPBLICA E CIDADANIAS*
J ficou registrado que o fim do Imprio e o incio da Repblica foi uma poca caracterizada por grande movimentao de idias, em geral importadas da Europa. Na 
maioria das vezes, eram idias mal absorvidas ou absorvidas de modo parcial e seletivo, resultando em grande confuso ideolgica. Liberalismo, positivismo, socialismo, 
anarquismo misturavam-se e combinavam-se das maneiras mais esdrxulas na boca e na pena das pessoas mais inesperadas. Contudo, seria enganoso descartar as idias 
da poca como simples desorientao. Tudo era, sem dvida, um pouco louco. Mas havia lgica na loucura, como poderemos verificar no exame do problema da cidadania.
Vimos tambm que o perodo foi marcado, especialmente no Rio de Janeiro, pelo rpido avano de valores burgueses. Velhos monarquistas, como Taunay, expressaram seu 
escndalo frente  febre de enriquecimento, ao domnio absoluto de valores materiais,  nsia de acumular riquezas a qualquer preo, que tinham dominado a capital 
da Repblica. Mesmo republicanos ardorosos, como Raul Pompia, no deixaram de estranhar o novo
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esprito que dominava as pessoas. Segundo Pompia, longe iam os dias do romantismo abolicionista e do dantonismo da propaganda. "O que h agora  po, po, queijo, 
queijo. Dinheiro  dinheiro." Todos se ocupam de negcios e at a poltica  dominada pelas finanas: "A Repblica discute-se consubstanciada no Banco da Repblica".1
Mas foi mudana no campo da mentalidade coletiva. No que se refere aos princpios ordenadores da ordem social e poltica, o liberalismo j havia sido implantado 
pelo regime imperial em quase toda a sua extenso. A Lei de Terras de 1850 liberara a propriedade rural na medida em que regulara seu registro e promovera sua venda 
como mecanismo de levantamento de recursos para a importao de mo-de-obra. A Lei de Sociedades Annimas de 1882 liberara o capital, eliminando restrioes  incorporao 
de impresas. A abolio da escravido liberara o trabaIho.

* Verso ligeiramente modificada deste captulo foi publicada em Dados  Revista de Cincias Sociais, 28 (2): 143-61, 1985.

A liberdade de manifestao de pensamento, de reunio, de profisso, a garantia da propriedade, tudo isso era parte da Constituio de 1824. No que se refere aos 
direitos civis, pouco foi acrescentado pela Constituio de 1891. O mesmo se pode dizer dos direitos polticos. As inovaes republicanas referentes  franquia eleitoral 
resumiram-se em eliminar a exigncia de renda, mantendo a de alfabetizao.
O esprito das mudanas eleitorais republicanas era o mesmo de 1881, quando foi introduzida a eleio direta. At esta ltima data, o processo indireto permitia 
razovel nvel de participao no processo eleitoral, em torno de 10% da populao total. A eleio direta reduziu este nmero para menos de 1%. Com a Repblica 
houve aumento pouco significativo para 2% da populao (eleio presidencial de 1894).2 Percebera-se que, no caso
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brasileiro, a exigncia de alfabetizao, introduzida em 1881, era barreira suficiente para impedir a expanso do eleitorado. O Congresso Liberal de maio de 1889 
j o dissera abertamente ao aceitar como indicador de renda legal o saber ler e escrever. O liberal Rui Barbosa, um dos redatores do projeto da Constituio de 1891, 
fora um dos principais propugnadores da reforma de 1881.
Por trs desta concepo restritiva da participao estava o postulado de uma distino ntida entre sociedade civil e sociedade poltica. O ponto j fora exposto 
com clareza por Pimenta Bueno em sua anlise da Constituio de 1824. Pimenta Bueno buscou na Constituio francesa de 1791 a distino, alis includa na prpria 
Constituio brasileira, entre cidados ativos e cidados inativos ou cidados simples. Os primeiros possuem, alm dos direitos civis, os direitos polticos. Os 
ltimos s possuem os direitos civis da cidadania. S os primeiros so cidados plenos, possuidores do jus civitatis do direito romano. O direito poltico, nesta 
concepo, no  um direito natural:  concedido pela sociedade queles que ela juIga merecedores dele. O voto, antes de ser direito,  uma funo social,  um dever. 
Era esta, alis, a posio de John Stuart Mill, talvez o autor que maior influncia teve sobre os proponentes da reforma de 1881. Como se sabe, Mill era tambm contra 
o voto do analfabeto. Exigia como condio para o exerccio do voto at mesmo a capacidade de fazer as operaes bsicas da aritmtica.3
Sendo funo social antes que direito, o voto era concedido queles a quem a sociedade julgava poder confiar sua preservao. No Imprio como na Repblica, foram 
excludos os pobres (seja pela renda, seja pela exigncia da alfabetizao), os mendigos, as mulheres, os menores de idade, as praas de pr, os membros de ordens
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religiosas. Ficava fora da sociedade poltica a grande maioria da populao. A excluso dos analfabetos pela Constituio republicana era particularmente discriminatria, 
pois ao mesmo tempo se retirava a obrigao do governo de fornecer instruo primria, que constava do texto imperial. Exigia-se para a cidadania poltica uma qualidade 
que s o direito social da educao poderia fornecer e, simultaneamente, desconhecia-se este direito. Era uma ordem liberal, mas profundamente antidemocrtica e 
resistente a esforos de democratizao.
A Constituio de 1891 tambm retirou um dispositivo da anterior que se referia  obrigao do Estado de promover os socorros pblicos, em outra indicao de enrijecimento 
da ortodoxia liberal em detrimento dos direitos sociais. O Cdigo Criminal de 1890 teve a mesma inspirao. Tentou proibir as greves e coligaes operrias, em descompasso 
com as correes que j se faziam na Europa  interpretao rgida do princpio da liberdade de contrato de trabalho. Foi a ameaa de greve por parte de alguns setores 
do operariado do Rio que forou o governo a reformar logo os artigos que continham a disposio antioperria (205 e 206).
A Repblica, ou os vitoriosos da Repblica, fizeram muito pouco em termos de expanso de direitos civis e polticos. O que foi feito j era demanda do liberalismo 
imperial. Pode-se dizer que houve at retrocesso no que se refere a direitos sociais. Algumas mudanas, como a eliminao do Poder Moderador, do Senado vitalcio 
e do Conselho de Estado e a introduo do federalismo, tinham sem dvida inspirao democratizante na medida em que buscavam desconcentrar o exerccio do poder. 
Mas, no vindo acompanhadas por expanso significativa da cidadania poltica, resultaram em entregar o governo mais diretamente nas mos dos setores dominantes, 
tanto
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rurais quanto urbanos. O Imprio tornara-se um empecilho ao dinamismo desses setores, sobretudo os de So Paulo. O Estado republicano passou a no impedir a atuao 
das foras sociais, ou, antes, a favorecer as mais fortes, no melhor estilo spenceriano. Fora, alis, Spencer um dos inspiradores de Alberto Sales, o mais respeitado 
idelogo da Repblica.4
Mas a propaganda republicana prometera mais do que isso. O entusiasmo e as expectativas despertadas em certas camadas da populao pelo advento do novo regime provinham 
de promessas democratizantes feitas nos comcios, nas conferncias pblicas,        na imprensa radical. Quem melhor caracterizou este lado da campanha foi Silva 
Jardim, ao lado de seu antigo mestre Lus Gama e de Lopes Trovo. Silva Jardim e Lopes Trovo, particularmente, eram grandes agitadores populares. Trovo fora um 
dos principais instigadores da Revolta do Vintm de 1880, que trouxe de volta o povo do Rio ao primeiro plano da poltica aps ausncia de muitos anos. Silva Jardim 
foi protagonista de vrias demonstraes republicanas, algumas terminadas em tiroteio, como a de dezembro de 1888. Qual a inspirao de Silva Jardim? Era basicamente 
a retrica da Revoluo Francesa.5 Contra os chefes evolucionistas do Partido Republicano, queria a transformao feita revolucionariamente nas ruas com apoio e 
participao do povo. Porm nunca exps sistematicamente suas idias sobre como seria a participao popular no novo regime. Falava apenas na necessidade inicial 
de uma ditadura republicana, que lhe poderia ter sido inspirada tanto por Robespierre quanto pelo positivismo, a ser depois legitimada por sufrgio universal.6
O radicalismo de Silva Jardim incomodava o grosso do partido e levou-o ao rompimento com a direo partidria. Foi-lhe at ocultada a data da revolta e ele dela
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participou por acaso. Mas o fez dentro de sua especialidade: Benjamin Constant, temeroso de que falhasse o golpe, pedira a Annbal Falco, amigo de Silva Jardim, 
que agitasse o povo. Nisso apareceu Silva Jardim, que de bom grado cumpriu a tarefa, liderando o coro da Marselhesa pelas ruas. Todavia, logo aps a proclamao, 
foi sistematicamente boicotado. Nas eleies de 1890 para a Constituinte, no conseguiu eleger-se no Rio de Janeiro, principal palco de sua atuao. Desiludido, 
como outros radicais, com a Repblica, que no era a de seus sonhos, foi para a Europa, onde morreu em 1891, caindo no Vesvio.
Mais pela simbologia da ao do que pelas idias, Silva Jardim introduzira uma concepo de cidadania que se aproximava do modelo rousseauniano: a viso do povo 
como entidade abstrata e homognea, falando com uma s voz, defendendo os mesmos interesses comuns. Apesar de ser tambm contratual, esta concepo difere do contratualismo 
lockeano, pois sua inspirao platnica salienta antes os aspectos comunitrios de integrao de todos na vontade geral da soberania. O todo  mais do que a soma 
dos indivduos que o formam, podendo por isso ditar o que seja a verdadeira vontade destes. A idia de ditadura republicana adequava-se bem a esta concepo. Segundo 
ela, o ditador era a encarnao da vontade coletiva e o instrumento de sua ao, sem que fosse necessria eleio formal, bastando a sano implcita, como expressamente 
admitia o manifesto do Partido Republicano de Pernambuco de 1888, com a concordncia de Silva Jardim.7 Outros temas dos republicanos radicais que reforavam a idia 
comunitria eram os da ptria e fraternidade, ambos tambm inspirados na Revoluo Francesa. O tema de ptria, em especial,  freqente em Silva Jardim, destoando 
do discurso dos republicanos conservadores que insistiam antes na federao. Estes
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ltimos, ao falarem de ptria, referiam-se a suas provncias, como foi o caso de Alberto Sales, que pregou abertamente o separatismo paulista em livro a que deu 
o sugestivo ttulo A Ptria Paulista, escrito em 1887. Silva Jardim achava um erro a separao, apesar de compartilhar com os positivistas a idia de que a tendncia 
de todas as sociedades era formar pequenas ptrias.8
As razes da adoo desta viso integradora, comunitria, orgnica das relaes dos cidados com a sociedade poltica poderiam ter sido de natureza apenas ttica. 
O movimento republicano era constitudo de uma frente ampla de interesses, que abrangia escravocratas e abolicionistas, militares e civis, fazendeiros, estudantes, 
profissionais liberais, pequenos comerciantes. A idia de povo, de ptria tinha o mrito de unir a todos, evitando embaraos. Mas o importante aqui e apontar sua 
existncia e o fato de ter sido til na instrumentalizao da atuao poltica de certos setores que lutavam por uma ampliao da cidadania. Veremos como tal viso 
se relacionava com outras, particularmente com o positivismo.
Alm dos propagandistas civis, conservadores e radicais, outro grupo que se salientou na propaganda do novo regime foi o dos militares. Desde a metade do sculo, 
segundo o estudo de Schultz, havia entre os oficiais do Exrcito insatisfao quanto ao que consideravam limitaes de seus direitos de cidadania. Mas foi certamente 
na ltima dcada da Monarquia que a insatisfao se tomou mais ruidosa e se expressou atravs da idia do soldado-cidado. Havia neste movimento vrias inspiraes, 
algumas de natureza ideolgica, outras organizacionais, outras polticas, que no  necessrio explorar aqui.9 Basta dizer que a inspirao ideolgica mais forte 
foi o positivismo transmitido aos jovens oficiais por Benjamin Constant. A viso profundamente antimilitarista de Comte
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levava os militares a se sentirem pouco  vontade dentro dos uniformes e a procurar eliminar ao mximo a distncia  que os separava do mundo civil atravs da reivindicao 
da condio de plenos cidados, cidados ativos na terminologia de Pimenta Bueno. Na prtica, as reivindicaes centravam-se no direito de reunio e de livre manifestao 
da opinio poltica. Houve mesmo um esforo eleitoral no sentido de levar ao Congresso candidatos militares. No fundo, o que se queria era maior peso nas decises 
polticas para a corporao militar.
A relao entre cidado e soldado foi e continua sendo complicada. Na luta contra o absolutismo, um ponto importante era tirar da nobreza o monoplio das armas, 
era dar ao cidado o direito de armar-se para a defesa de seus interesses. A Constituio americana incorporou em seu texto este direito como garantia do cidado 
contra o Estado. A Frana revolucionria, alm de abrir o Exrcito, isto , o corpo de oficiais,  burguesia, criou tambm a Guarda Nacional, o que equivalia a entregar 
as armas  aos cidados, a criar o cidado-soldado. A Guarda Nacional brasileira de 1831 inspirou-se no modelo francs e em parte cumpriu a misso de colocar nas 
mos dos cidados de posses a tarefa de manter a ordem. A milcia cidad, como era chamada, constitua sem dvida um instrumento liberal e, pelo menos em sua concepo 
original democratizante.10 O problema do Exrcito no final do Imprio era o oposto: tratava-se de criar no o cidado soldado-cidado. Eram os beneficirios do monoplio 
de portar armas, componentes da burocracia estatal, que desejavam para si a plenitude dos direitos de cidadania. Para isso no s no renunciavam  condio de integrantes 
do Estado, como se utilizavam da fora que esta condio lhes dava. Lutavam de dentro para fora, no eram parte de um movimento da sociedade.
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Poder-se-ia dizer que buscavam maior participao atravs do pertencimento ao Estado, isto , no se tratava tanto de cidadania mas do que poderamos chamar de estadania.11
A contradio implcita nesta posio levou ao desenvolvimento de uma ideologia segundo a qual o Exrcito se identificava com o povo. Foi talvez o republicano Raul 
Pompia o primeiro a propor esta formulao por ocasio de um dentre os muitos atritos entre o governo e o Exrcito nos ltimos anos da Monarquia. Raul Pompia descartava 
a possibilidade de militarismo no Brasil, porque, dizia, "O  Exrcito brasileiro  muito povo para querer ser contra o povo e sobre o povo. E continuava: "O Exrcito 
 plebeu e  pobre, o Exrcito  a democracia armada".12 Dentro do Exrcito, um dos melhores representantes dessa posio foi Lauro Sodr, republicano fantico, 
florianista e permanente conspirador. Para ele, os militares sempre se haviam colocado ao lado das causas populares e democrticas, pois eram cidados fardados: 
"No h no nosso passado nem na nossa histria uma pgina em que se registrem vitrias da liberdade contra a prepotncia, na qual no figure ao lado do povo, levantado 
para a defesa de seus direitos) o Exrcito que  o prprio povo, que  a agremiao de cidados unidos pelos laos da disciplina".13 A proclamao da Repblica por 
militares e a instalao dos governos militares no abalariam as convices de Raul Pompia. Pelo contrrio, passou a ver no Exrcito a nica classe organizada do 
pas. O fato de ter sido o Exrcito que fizera a Repblica no era uma desonra para o povo mas uma honra para o Exrcito, que era o povo com armas. Sua ao seria 
mesmo prefervel diante da apatia do povo paisano.14
Tratava-se naturalmente de uma ideologia do oficialato republicano e dos civis que o apoiavam. Verso mais
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radical desta ideologia existia entre as praas de pr. O jornal O Soldado, por exemplo, publicado no Rio em 1881, defendia o direito da classe militar de se representar 
perante a nao e de "tomar parte na administrao do Estado". Mas o apelo era dirigido aos soldados e vinculava-se  reforma eleitoral de 1881, que teria privado 
as praas do direito do voto. O jornal protestou dizendo que os soldados e o povo foram as "duas vtimas da usurpao e da prepotncia, e nicos espoliados de todos 
os direitos,  que s tm deveres". Reclamando da m aceitao do jornal pelo comandante do Batalho Naval, o redator respondeu que "O soldado no  um servo da 
gleba,  um cidado, tem deveres a cumprir e direitos a gozar". Em carta ao imperador publicada pelo jornal, um ex-voluntrio da Guerra do Paraguai queixava-se com 
amargura e violncia: em troca dos sacrifcios como voluntrio, perdera at a cidadania com a nova lei eleitoral.15 A aliana, ou mesmo identidade, entre soldado 
e povo, mais particularmente entre soldado e operrio, era defendida em termos mais radicais pelo jornal Revoluo. Segundo este jornal, o soldado era o obreiro 
da guerra, o obreiro o soldado da paz. E conclamava: "Ns, soldados e obreiros, artistas e operrios, devemos nos confundir na praa pblica bradando a uma voz: 
Revoluo!".16
Esta verso radical, quase sans-cullotte, propondo uma aliana real e no simblica entre o soldado concreto, e no a corporao, e o povo operrio, e no o povo 
em abstrato, era minoritria. Mesmo assim, retrica revolucionria  parte, os porta-vozes desta posio eram pessoas de algum modo vinculadas ao Estado. O jornal 
O Soldado, embora dirigido s praas, era redigido por um alferes honorrio do Exrcito, e os operrios a que se refere Revoluo eram sem dvida os operrios do 
Estado. Vimos que o redator fora demitido do servio pblico
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e parte de sua exaltao revolucionria devia-se certamente a este fato.
Os operrios do Estado merecem referncia especial. Constituam parte importante do operariado do Rio no final do Imprio e incio da Repblica, e foram outro setor 
da populao que viu a Repblica como uma oportunidade de redefinir seu papel poltico. Tratava-se principalmente dos operrios dos arsenais do Exrcito e da Marinha, 
dos ferrovirios da Estrada de Ferro D. Pedro II, depois Central do Brasil, dos grficos da Imprensa Nacional, dos operrios da Casa da Moeda e de alguns setores 
dos porturios. Vrios dos jornais radicais no fim do Imprio tinham ligao com estes grupos. Alm de Revoluo, havia a Gazeta dos Operrios (1875), que defendia 
os operrios dos arsenais; a Unio do Povo (1877), que se dizia rgo do funcionrio pblico, do artista e do operrio; O Nihilista (1883), jornal dos operrios, 
do Exrcito e da Armada; O Artista (1883), defensor dos operrios da Tipografia Nacional, da Casa da Moeda e dos arsenais.
Logo aps a proclamao, houve tentativas de organiz-los politicamente, seja atravs de elementos de fora, seja de dentro da classe. A primeira tentativa deveu-se 
aos positivistas. Ainda em 1889, Teixeira Mendes reuniu-se com 400 operrios da Unio e discutiu um documento que entregou a seguir a Benjamin Constant, ento ministro 
da Guerra. As bases ideolgicas do documento, como era de esperar, sustentavam-se na noo positivista da necessidade de incorporar o proletariado  sociedade. As 
medidas prticas propostas caracterizavam uma legislao trabalhista muito avanada para a poca. Inclua jornada de sete horas, descanso semanal, frias de 15 dias, 
licena remunerada para tratamento de sade, aposentadoria,
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penso para a viva, estabilidade aos sete anos de servio etc.17
Pouco depois, no incio de 1890, houve vrias tentativas de criar um Partido Operrio, j a abrangendo tambm operrios do setor privado. Estabeleceu-se uma disputa 
entre lderes operrios, como Frana e Silva, que lutava por um partido controlado pelos prprios operrios, e o tenente Jos Augusto Vinhaes, da Marinha, que organizou 
um partido sob sua liderana. Vinhaes tinha suas bases principais entre os ferrovirios, com incurses tambm nos arsenais e entre os porturios, onde outro oficial 
da Marinha, Jos Carlos de Carvalho, tambm era influente. Na irnica expresso de Frana e Silva, Vinhaes colocava-se como o So Gabriel do governo, intermedirio 
entre Deodoro e os operrios.18 Vinhaes teve mais xito que Frana e Silva em conseguir o apoio operrio, elegendo-se para a Constituinte, depois transformada em 
primeira legislatura republicana. Na Cmara, justia se lhe faa, falou vrias vezes em defesa do operariado e dos pobres em geral, protestando contra a carestia, 
propondo aumentos salariais, criticando a ao da polcia nas greves, defendendo a ampliao do voto. Dizia-se mesmo socialista e mereceu dos adversrios a acusao 
de petroleiro e niilista, o equivalente ao terrorista de hoje. Por sugesto sua, o governo introduziu a primeira legislao de proteo ao trabalho do menor (1891). 
Organizou tambm um Banco de Operrios,  moda do Penny-Bank de Londres. Segundo ele, o banco possua 6 722 acionistas em fevereiro de 1891.19 Vinhaes esteve ainda 
envolvido em diversas greves de natureza poltica, comeando pela dos ferrovirios, em 1891, que ajudou a derrubar Deodoro, e terminando na dos estivadores, ferrovirios 
e carroceiros, em 1900, planejada como parte do golpe destinado a derrubar Campos Sales. A maior conquista do Partido dos
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Operrios que criara foi sem dvida a de ter forado o governo, atravs de ameaa de greve geral, a mudar o Cdigo Penal nos artigos,que proibiam a greve e a coligao 
operrias, em dezembro de 1890. Vinhaes serviu de intermedirio entre os operrios e o governo. Seja qual for a avaliao de seu papel do ponto de vista dos interesses 
operrios, o importante  salientar que, como no caso dos militares, embora em escala menor, tambm aqui a tentativa de acesso a uma cidadania mais ampla se deu 
pelas portas ou pelos porteiros do Estado.
No caso da ao positivista (e quase todas as lideranas republicanas que se preocupavam com o proletariado o faziam em funo da influncia comteana), as conseqncias 
para a construo da nova cidadania foram ainda mais srias. A noo positivista de cidadania no inclua os direitos polticos, assim como no aceitava os partidos 
e a prpria democracia representativa. Admitia apenas os direitos civis e sociais. Entre os ltimos, solicitava a educao primria e a proteo  famlia e ao trabalhador, 
ambas obrigao do Estado. Como vetava a ao poltica, tanto revolucionria quanto parlamentar, resultava em que os direitos sociais no poderiam ser conquistados 
pela presso dos interessados, mas deveriam ser concedidos paternalisticamente pelos governantes. Na realidade, nesta concepo no existiam sequer os cidados ativos. 
Todos eram inativos,  espera da ao iluminada do Estado, guiado pelas luzes do grande mestre de Montpellier e de seus porta-vozes.
A posio de Vinhaes tinha um sentido menos castrador, j que buscava organizar a ao operria atravs de partidos, de movimentos grevistas e da ao parlamentar. 
Mas no h que se negar que sua ao foi preventiva no sentido de retirar o movimento operrio das mos de suas prprias lideranas, o que pode ser confirmado pela
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maneira como agiu em 1890. Nesse sentido, representou o incio de uma ao cooptativa do Estado em relao  classe operria, que teria amplo curso no Rio de Janeiro 
durante a Primeira Repblica, sobretudo no que se refere aos operrios ligados direta ou indiretamente ao setor pblico. De novo, a estadania se misturava  cidadania, 
se no a sobrepujava.
Proposta diferente era a de Frana e Silva, Vicente de Souza, Evaristo de Moraes, Gustavo de Lacerda e outros, que se diziam socialistas. As idias de Frana e Silva, 
expostas no Echo Popular, so as que mais se aproximam do modelo clssico de expanso da cidadania. A Repblica, achava, viera possibilitar a extenso do direito 
de intervir nos negcios pblicos a todos os cidados. Os operrios, at ento vivendo como forasteiros no solo da ptria, vinham agora reivindicar este direito 
atravs de uma organizao partidria que se propunha defender seus interesses dentro das regras do sistema representativo. A reivindicao era reforada pela afirmao 
de nova identidade para o operrio, segundo a qual, embora marginalizado na sociedade poltica, ele constitua o principal fator de progresso do Brasil e de todas 
as naes.20 Vrias tentativas foram feitas nas duas primeiras dcadas republicanas de formar partidos socialistas operrios, tanto no Rio quanto em So Paulo e 
outros Estados, nenhuma delas com xito. No Rio, houve em 1892 um Congresso Socialista organizado por iniciativa de Frana e Silva, com a participao de 400 operrios, 
do qual resultou o Partido Operrio do Brasil. Em 1895, com a participao de Evaristo de Moraes, foi fundado um Partido Socialista Operrio. Em 1899 surgiu um Centro 
Socialista, e em 1902 foi criado por Gustavo de Lacerda e Vicente de Souza o Partido Socialista Coletivista. Finalmente, em 1908, estivadores e cocheiros fundaram 
o Partido Operrio Socialista,
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em que de novo se verificou a presena de Evaristo de Moraes. As propostas de todas estas organizaes eram as do socialismo democrtico, isto , lutar por maior 
participao e conseguir reformas, especialmente sociais, atravs do mecanismo representativo. Nenhuma delas teve longa vida, muitas no chegaram a completar um 
ano.21
A rigidez do sistema republicano, sua resistncia em, permitir a ampliao da cidadania, mesmo dentro da lgica liberal, fez com que o encanto inicial com a Repblica 
rapidamente se esvasse e desse origem  decepo e ao desnimo. O desencanto fica transparente no Manifesto do Centro Socialista aos Operrios e Proletrios, lanado 
em 9 de janeiro de 1899 no Rio de Janeiro. A se afirma que, se o Imprio vivera sob o monoplio dos donos de escravos, a Repblica "vai vivendo  custa dos mais 
repugnantes sindicatos polticos e industriais, geradores de uma perigosa oligarquia plutocrtica to perniciosa como a oligarquia aristocrtica". Em conseqncia, 
prossegue o Manifesto, o Brasil se acha na mesma condio da Europa, onde os vcios do capitalismo s deixam ao operrio a opo entre o socialismo reformador e 
o anarquismo revolucionrio. Na verdade, os socialistas brasileiros viram-se logo entre estes dois fogos: de um lado, os que defendiam a cooperao direta com o 
governo, a estadania; de outro, e cada vez mais, os anarquistas, que rejeitavam totalmente o sistema poltico. A partir do incio do sculo, a corrente anarquista 
ganhou crescente influncia. Ela trazia um conceito radicalmente diferente de cidadania. Por ter influenciado um setor da populao que exatamente buscava insero 
no novo sistema, merece exame mais detido.
O primeiro jornal anarquista do Rio parece ter sido O Despertar, de Jos Sarmento, publicado em 1898. Em linguagem cheia de espanholismos, denunciadora da
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origem do articulista, o jornal revela individualismo e espontaneismo extremados, rejeitando at mesmo a organizao da propaganda. Defende como nica arma operria 
a greve, visando a greve geral que abolir o Estado. A seguir, vieram O Protesto (1899), O Golpe (1900), a revista Asgarda (1902). O Trabalhador, A Greve (1903), 
a revista Kultur (1904), O Libertrio (1904), de Neno Vasco, portugus e talvez o mais culto dos anarquistas na poca.  exceo do ltimo, todos estes jornais e 
revistas foram editados por Elysio de Carvalho e Mota Assuno, incansveis doutrinadores anarquistas.22 A partir de 1903, com a criao da Federao de Associaes 
de Classe e, especialmente, aps o Congresso Operrio de 1906 e a subseqente criao da Federao Operria do Rio de Janeiro, aumentou a penetrao do anarquismo 
entre os operrios. Surgiram vrias publicaes anarquistas vinculadas a organizaes de classe. Alguns exemplos so Accordem (1905), da Sociedade de Carpinteiros 
e Artes Correlatas; Novo Rumo (1906), de Alfredo Vasques; O Baluarte (1907), da Associao dos Chapeleiros, cujo secretrio era Jos Sarmento; O Marmorista (1907), 
e principalmente A Voz do Trabalhador (1908), rgo da Confederao Operria Brasileira, para ficar s no Rio de Janeiro.
Embora todos se dissessem anarquistas ou libertrios, havia algumas nuanas importantes entre eles. Elysio de Carvalho distinguia j em 1904 duas correntes principais: 
os anarquistas comunistas e os anarquistas individualistas. O primeiro grupo, de longe o mais numeroso, segundo Elysio, seguia Kropotkine, Rclus, Malatesta, Hamon, 
e contava entre seus membros Neno Vasco, Benjamin Mota, Fbio Luz e, estranhamente, Evaristo de Moraes. Eram pela revoluo social, pela abolio da propriedade 
privada e do Estado, mas admitiam o sindicalismo como arma de luta. O segundo grupo seguia a linha
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de Max Stirner, de um exacerbado individualismo. Tambm pregava a abolio do Estado, porm era contra toda forma de organizao que no fosse espontnea e queria 
a manuteno da propriedade privada aps a revoluo.23
A primeira corrente continuou a predominar nos anos seguintes. Apesar das diferenas, no que se refere  posio em relao  autoridade e ao Estado, no havia grande 
divergncia entre os libertrios. Todos repudiavam qualquer tipo de autoridade, especialmente a estatal. Da tambm uma averso profunda  luta poltica atravs 
de partidos e eleies. Neste, ponto eram inimigos irreconciliveis dos socialistas. Os velhos lderes socialistas do incio da Repblica, como Frana e Silva, Vicente 
de Souza e mesmo o jovem Evaristo de Moraes, tornaram-se objeto de ferrenhas crticas. J em 1898, por exemplo, Benjamin Mota polemizava com Frana e Silva, denunciando 
o carter utpico e autoritrio da luta partidria, e afirmava: "[...] no terreno da luta eleitoral socialistas autoritrios e socialistas libertrios so inimigos 
irreconciliveis".24                                  
Em 1906, por ocasio do Congresso Operrio Regional Brasileiro, deu-se o enfrentamento entre anarquistas e socialistas. A tendncia, da maioria ficou clara quando 
Pinto Machado, comentando moo de apoio aos operrios russos, reafirmou sua posio de socialista poltico porque, segundo ele, no Brasil no havia a misria que 
caracterizava a Rssia. Houve enorme reao da platia, acompanhada de vaias, e a mesa teve de encerrar a sesso. As resolues do Congresso consagraram os princpios 
do anarquismo sindicalista ao estilo da CGT francesa. Pregavam a rejeio da luta poltica partidria; a organizao de sociedades de resistncia (sindicatos); o 
uso da luta econmica atravs de greves, boicotagem, sabotagem, manifestaes pblicas; a formao de federaes
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de sindicatos e de uma confederao, todas com amplo grau de autonomia. Fazendo o discurso de encerramento, Benjamin Mota enfatizou exatamente as resolues referentes 
 no-participao na poltica. O operrio deveria "abandonar de todo e para sempre a luta parlamentar e poltica", o voto era uma burla e, ao recus-lo, o operrio 
poderia tambm recusar o tributo do sangue (servio militar) e outros tributos. A ao operria deveria ser exclusivamente econmica, contra os patres, sem a intermediao 
do Estado, que, alis, no passava de servo fiel deles.25      
A luta descia por vezes a acusaes pessoais graves. Novo Rumo envolveu-se em briga com a Gazeta Operria de Mariano Garcia, que acusara os anarquistas de receber 
verbas da polcia e explorar os operrios. Novo Rumo respondeu acusando a Gazeta de ser claque do deputado Alcindo Guanabara, de sustentar o jornal com o dinheiro 
dos patres etc. O ataque estendeu-se aos socialistas eleitorais em geral, acusados de nada terem feito para instruir e doutrinar os operrios, s contribuindo para 
intrig-los. Alm de Mariano Garcia, foram includos na crtica outros socialistas, como Vicente de Souza e Evaristo de Moraes.26
Em 1910 houve tentativa de envolver o operariado na campanha presidencial. A Federao Operria, anarco-sindicalista, recusou envolver-se. Como presidente da Repblica, 
Hermes patrocinou o Congresso Operrio de 1912, que props a criao de um partido da classe. A Confederao Operria reagiu atravs de violento manifesto, em que 
chamava a proposta de aborto, de afronta atirada ao trabalhador. A poltica, dizia o manifesto, era um cancro que destrua a vida do povo, uma rameira e cortes 
que o embrutecia. E conclua com um apelo: "Varrei a poltica do seio das vossas associaes de classe para evitar rivalidades,
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guerras entre irmos e dar trguas  burguesia exploradora!".27
Outro aspecto relevante para a discusso da cidadania que surge na viso anarquista  sua posio com relao  idia de ptria. Os conceitos de cidadania e ptria 
referem-se a maneiras distintas de insero em uma coletividade, a estilos diferentes     de lealdade. Trata-se da distino que os clssicos da sociologia colocaram 
em termos de dicotomias, mas que hoje  vista como lados da mesma moeda. Refiro-me s oposies entre comunidade e sociedade de Tnnies, entre solidariedade mecnica 
e orgnica de Durkheim, entre grupos primrios e secundrios de Cooley, ou mesmo entre o homogneo e o heterogneo de Spencer, s para citar as mais conhecidas. 
De modo geral, todas estas dicotomias fazem predominar em um plo os elementos afetivos, familiares, comunitrios, cooperativos, espontneos; no outro, os aspectos 
racionais, instrumentais, artificiais, individualistas, conflitivos. A idia de ptria coloca-se nitidamente no primeiro plo, enquanto a de cidadania, em sua verso 
liberal, fica no segundo. Ptria  o prprio nome o diz   famlia,  sentimento,  integrao,  comunidade. Cidadania  clculo,  pacto,  construo,  defesa 
de interesses.28
Historicamente, cidadania e ptria, ou comunidade, surgiram juntas. O prprio nascimento do cidado teve muito a ver com o aspecto comunitrio. A cidade medieval, 
na descrio de Pirenne, ao mesmo tempo que instaurava por contrato a liberdade, os direitos civis, criava a participao, a solidariedade  era uma comuna. A nvel 
mais amplo, a generalizao da cidadania pela Revoluo Francesa deu-se ao mesmo tempo que se difundia o sentimento de nao e de patriotismo. Mesmo na Inglaterra, 
terra do contratualismo liberal, havia o substrato integrativo do orgulho de ser livre, considerado um patrimnio
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ingls. No contratualismo rousseauniano, como vimos, os dois aspectos, o instrumental e o afetivo, no se separavam, o que levava Rousseau a afirmar que nenhum Estado 
poderia ser muito grande, pois isto inviabilizaria a participao comunitria. O modelo que tinha em vista era certamente a Genebra calvinista, onde ptria e cidade 
se confundiam.29
A nfase excessiva em um dos plos pode inviabilizar o outro. O foco exclusivo em nao e ptria pode ser instrumento para coibir a manifestao do coflito, a defesa 
dos interesses divergentes e, portanto, o desenvolvimento dos direitos polticos e da sociedade poltica. Por outro lado, a pura confrontao de interesses, o racionalismo 
contratual liberal sem o cimento de uma lealdade mais ampla tambm pode levar  desintegrao social e  inviabilizao do prprio pacto. As doses em que se misturam 
os dois componentes podem variar de povo, mas para a construo de cidadania plena e estvel e necessrio que ambos estejam presentes.
Este equilbrio no  encontrado entre os anarquistas, que negavam totalmente a idia de ptria. Alm de estar embutida na prpria concepo doutrinria do anarquismo, 
esta negao se viu reforada no Brasil pela reao do governo  presena de ativistas estrangeiros entre os operrios. Logo que detectou tal presena, o governo 
procurou agir no sentido de expulsar os militantes, imitando, alis, o que outros governos, europeus e americanos, j faziam. Embora a primeira lei de expulso s 
tenha sido aprovada em janeiro de 1907 (Lei Adolfo Gordo), vimos que desde 1893 h notcias de ativistas estrangeiros sendo presos no Rio e expulsos do pas. Tal 
atitude provocou revolta entre os militantes operrios. Em 1897, folheto redigido em italiano e portugus convocava os operrios para comcio contra o absurdo e 
criminoso cime
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de nacionalidade. A Lei Adolfo Gordo provocou reaes maiores. A Federao Operria de So Paulo lanou um manifesto em que deixava clara sua posio com relao 
ao conceito de ptria: A nossa ptria  o mundo, os nossos compatriotas so hoje os operrios em geral e os estrangeiros so para ns todos os capitalistas".30
A reao antiptria ficou ainda mais ntida nas campanhas contra a guerra e contra o servio militar obrigatro. Como ministro da Guerra, o marechal Hermes props 
em 1907 uma lei de sorteio militar. A Federao Operria do Rio distribuiu manifesto violento contra a proposta, afirmando que s o povo pagava o tributo do sangue. 
Sobre ptria dizia o manifesto: "A ptria  de quem rouba e explora, a ptria  o privilgio e o monoplio, a guerra uma monstruosidade filha do interesse e da rapina". 
E terminava: "Nada de ptria, trabalhadores, nada de militarismo".31 O Baluarte voltou vrias vezes ao  tema. Terra Livre implicou at com a comemorao da Batalha 
do Riachuelo, que dizia ter sido um crime feito em nome da mentira patritica. 10 auge da campanha antimilitarista foi em 1908, aps a aprovao da lei do sorteio. 
Criou-se no Rio, na sede da Federao Operria, uma Liga Antimilitarista Brasileira, que editou o jornal No Matars. O manifesto da Liga era um virulento libelo 
contra o militar em geral e contra o servio militar em particular. Depois de dizer que o servio no quartel corrompia o cidado e destrua a famlia, terminava 
conclamando todos a no se submeterem, a se negarem a qualquer tipo de recenseamento, inclusive o eleitoral (poderia ser utilizado para o sorteio), que emigrassem, 
se naturalizassem cidados de outros pases e, se afinal recrutados, que desertassem em massa. A ptria, segundo a Liga, era do interesse exclusivo da classe capitalista 
dominante.32 Nesse mesmo ano, a Confederao Operria Brasileira, atravs
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de seu rgo, A Voz do Trabalhador, fez intensa campanha antimilitarista com o apoio do positivismo ortodoxo de Teixeira Mendes. Uma passeata e um comcio foram 
realizados em dezembro de 1908 no largo de So Francisco, tradicional ponto de manifestaes populares, com a presena de cinco mil pessoas, de acordo com A Voz 
do Trabalhador33
Ao passo que o anarquismo rejeitava a idia de ptria ou a redefinia de maneira radical, os positivistas a enfatizavam. Em documento enviado ao governo provisrio 
em 19 de dezembro de 1889, o Apostolado protestou contra a lei da grande naturalizao e exps sua concepo de ptria e cidadania, fazendo longa retrospectiva da 
evoluo histrica dos dois conceitos. Para o positivismo,  segundo o Apostolado, ptria se baseia na famlia (pai), o amor da ptria  o prolongamento do amor materno 
(Comte queria que se falasse em mtria...). Por outro lado, a cidade no era mais do que o prolongamento da famlia, da que patriotismo e civismo eram a mesma coisa. 
Em Roma, cidade-ptria, ter-se-ia materializado pela primeira vez o cidado completo.34
Esta concepo reduz o relacionamento social ao plo comunitrio. No cabe a a idia de conflito legtimo e de contrato. Ptria e cidade so coletividades de integrao 
e de convivncia afetiva. No h direitos, apenas deveres dos membros para com a coletividade, que  um valor superior. Da tambm que a grande naturalizao era 
um absurdo, segundo o Apostolado, porque o sentimento de ptria no se impe pela lei, desenvolve-se atravs de longo processo histrico de convivncia: "A ptria 
no se leva na sola dos sapatos", repetia com Danton.35
Os republicanos radicais talvez tivessem sido os nicos a propor uma idia de ptria compatvel com a cidadania
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liberal e democrtica, descontados os traos rousseaunianos que a tingiam. Mas, ao evoluir para o nativismo exacerbado do movimento jacobino e para o autoritarismo 
florianista, a proposta radical perdeu viabilidade poltica, sobretudo no Rio e em So Paulo, os centros do poder poltico e econmico do pas, devido  presena 
macia de estrangeiros entre os setores populares. O nacionalismo xenfobo seria apropriado pela elite exatamente para combater a militncia operria, dando razo 
aos anarquistas quando diziam que ptria era s para os exploradores.
Resumindo, temos que no incio da Repblica nasceram ou se desenvolveram vrias concepes de cidadania, nem sempre compatveis entre si. Se a mudana de regime 
poltico despertava em vrios setores da populao a expectativa de expanso dos direitos polticos, de redefinio de seu papel na sociedade poltica, razes ideolgicas 
e as prprias condies sociais do pas fizeram com que as expectativas se orientassem em direes distintas e afinal se frustrassem. O setor vitorioso da elite 
civil republicana ateve-se estritamente ao conceito liberal de cidadania, ou mesmo ficou aqum dele, criando todos os obstculos  democratizao. At mesmo a criao 
de um partido operrio de 1890 encontrou resistncias entre republicanos, que a viam como ameaa  ordem. O positivismo era pela ampliao dos direitos sociais, 
mas negava os meios de ao poltica para conquist-los, tanto os revolucionrios quanto os representativos. O anarquismo negava legitimidade  ordem poltica, a 
qualquer ordem poltica no admitindo, portanto an idia de cidadania, a no ser no sentido amplo de fraternidade universal. Restavam os socialistas democrticos, 
os nicos a propor a ampliao dos direitos polticos e sociais dentro das premissas liberais.
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A situao era de impasse. De um lado, o liberalismo foi utilizado pelos vitoriosos como instrumento de consolidao do poder, desvinculado da preocupao de ampliao 
das bases deste poder. De outro, demandas de ampliao foram formuladas, na maior parte, seja dentro da perspectiva integradora do positivismo, seja dentro da fuga 
romntica do anarquismo e do radicalismo republicano de estilo rousseauniano. Balanava-se entre a negao da participao, a participao autoritria e a alienao. 
No havia frmula vivel de combinar os aspectos integrativos com os aspectos contratuais da cidadania.
A reao, pragmtica antes que ideolgica, a esta situao por parte dos que se viam excludos do sistema foi o que chamamos de estadania, ou seja, a participao, 
no atravs da organizao dos interesses, mas a partir da mquina governamental, ou em contato direto com ela. Foi o caso especfico dos militares e do funcionalismo 
em geral e de importantes setores da classe operria. Esta era na verdade uma estratgia generalizada. O exame dos arquivos de polticos da poca com responsabilidades 
executivas revela que a grande maioria dos documentos diz respeito a solicitaes de benefcios. O arquivo de Rui Barbosa  exemplar: durante seu perodo como ministro 
da Fazenda, talvez mais da metade da correspondncia que recebia se referia a pedidos de favores e empregos. Os pedidos vinham de todos os lados e muitos eram transmitidos 
por seus prprios colegas de ministrio, como Benjamin Constant, Campos Sales, Francisco Glicrio. No faltavam mesmo pedidos de Floriano e Deodoro e at de Dona 
Mariana, mulher de Deodoro. O nico diretor de repartio que se rebelou contra esta prtica, insistindo em colocar o mrito acima do empenho, foi tido como insano 
pelo secretrio de gabinete de Rui Barbosa.36
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CAPITULO III
CIDADOS INATIVOS:
A ABSTENO ELEITORAL

A efervescncia ideolgica dos anos iniciais da Repblica, as conflitantes propostas de cidadania indicavam tanto a insatisfao com o passado como a incerteza quanto 
aos rumos do futuro. Parte das divergncias poderia ser atribuda a conflitos reais entre os vrios grupos sociais que naquele momento comeavam a mobilizar-se. 
Mas a diversidade poderia ser tambm atribuda  insegurana dos formuladores das novas propostas quanto  reao do pblico a que se dirigiam ou, em alguns casos, 
quanto  prpria identidade desse pblico. Assim, o exame das propostas de cidadania deve ter como contraponto o estudo dos candidatos a cidados e das prticas 
concretas de participao poltica.
Boa fonte de informao sobre as prticas da cidadania pode ser encontrada nos testemunhos de observadores contemporneos, brasileiros e estrangeiros. Alguns desses 
testemunhos so reveladores. Vale expandir a citao j feita de Louis Couty, o bilogo francs que durante muitos anos residiu no Rio de Janeiro: "A situao funcional 
desta populao [do Brasil] pode resumir-se em uma palavra: o Brasil no tem povo" (grifo meu). Segundo Couty, que escreveu este texto em 1881, entre os ndios e 
escravos, de um lado, calculados por ele em uns dois
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milhes e meio, e os 500 mil proprietrios de escravos, do outro, vegetavam seis milhes de pessoas. Entre estas, no via aquelas "massas fortemente organizadas 
de produtores livres agrcolas ou industriais que, em nossos povos civilizados, constituem a base de toda a riqueza", e que tambm constituem as massas de eleitores 
"capazes de impor ao governo uma direo definida.1 Seu  pessimismo preconceituoso ia ao ponto de achar que no seria possvel formar tal massa de cidados com 
elementos nativos. Seria  necessrio buscar cidados  na Europa atravs do incentivo  imigrao.
Alguns anos mais tarde, depois de assistir aos acontecimentos que cercaram a proclamao da Repblica, o representante francs, Blondel, observou que o povo do Rio, 
"antes surpreso que estusiasmado, no pode compreender o que se passa". Dois dias mais tarde, o ex-embaixador Amelot, escrevendo de Paris, tentaria explicar ao ministro 
dos Assuntos Estrangeiros as razes da total ausncia de reao popular ao "coup de caserne: "No Rio no h nem povo, nem operrios, nem artfices, [apenas] alguns 
grupos de pessoas de cor, fceis pretorianos cujas aclamaes se compram a baixo preo"2 Outra no era a impresso de Adam, o representante ingls. Comentando boatos 
sobre possvel movimento em favor da restaurao monrquica em maio de 1891, afirmava que qualquer mudana iria depender da interveno militar, pois  o grosso 
da, populao no se interessa por poltica". Os militares, continuava, podero impor qualquer governo que o povo o aceitar "com submisso como aceitou a Repblica 
em novembro de 18893
No h dvida de que tais observaes traduzem preconceitos de eurpoeus em relao  populao do pas, inclusive preconceitos raciais Mas elas tm interesse por 
estarem implicitamente comparando a situao brasileira
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com a da Europa. O que na realidade diziam os representantes era que qualquer semelhana entre os sistemas polticos do Brasil e da Europa era enganadora/superficial, 
mera coincidncia. Tratava-se de realidades totalmente distintas. Afirmavam, mais especificamente, que,  diferena da Europa, no Brasil no havia participao do 
povo nos negcios pblicos, nem mesmo do povo entendido como burguesia  maneira de Couty. No Brasil no havia povo poltico . No havia cidados, nem mesmo na capital 
do pas. A poltica era, na melhor das hipteses, assunto dos estados-maiores das classes dominantes. Na pior, produto das rivalidades de chefes militares, entrando 
o povo apenas fortuitamente como massa de manobra.
Estas observaes no esto, no entanto, distantes da frase de Aristides Lobo, segundo a qual o povo teria assistido "bestializado"  proclamao da Repblica, sem 
entender o que se passava.  quase exatamente a mesma opinio do embaixador francs, que no era simptico ao movimento. A opinio de Aristides Lobo foi repetida 
dois anos aps a proclamao por outro intelectual profundamente engajado na propaganda e depois no esforo de consolidao do novo regime. Em crnica de 14 de setembro 
de 1891 no Jornal do Commercio, Raul Pompa reclamou da apatia cvica do povo do Rio de Janeiro. Em todos os pases, disse ele, a capital  o corao do organismo 
nacional, o centro de vitalidade cvica. No era assim na capital do Brasil. Quem observa o Brasil diria que ele est morto, pois "o esprito pblico do Rio de Janeiro 
 um ausente. Foi preciso que a Repblica introduzisse as paradas de tropas para salvar o decoro cvico nas festas nacionais. Uma semana mais tarde, Raul Pompia 
continuou se queixando da indiferena fluminense  pelos negcios da municipalidade, indiferena s quebra da quando se sentiam atingidos diretamente na algibeira. 
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E dizia com amargura: "Desenganem-se os idealistas: o povo fluminense no existe. [...] Diro que o povo fluminense fez a agitao abolicionista e a agitao republicana 
[...]. O povo no fez nada disso. Um grupo de homens denodados, bastante ativo  certo, para parecer a multido, fez o movimento abolicionista e o movimento republicano 
do Rio de Janeiro. Em volta desses campees devotados acercavam-se curiosos; e foi s".4
A apatia poltica do povo era particularmente dolorosa e frustrante para o homens como Aristides Lobo e Raul Pompia. O primeiro vinha dos tempos hericos da propaganda. 
O segundo, abolicionista e republicano desde os bancos acadmicos, fizera parte do grupo de intelectuais que saudara com entusiasmo o novo regime. Acreditando na 
superioridade da Repblica sobre o antigo sistema por ser o regime da soberania popular, era-lhe especialmente embaraoso admitir que o povo no parecia interessado 
no ttulo de cidado que se lhe oferecia e pelo qual passou a ser tratado. Pela mesma razo, seu testemunho  insuspeito, pois tinham todo o interesse em fazer ressaltar 
o apoio, se possvel o entusiasmo popular, pela Repblica.
Apesar da insuspeio  preciso examinar com cautela tais testemunhos e no tom-los desde logo como exatas descries da realidade. J vimos em captulo anterior 
que eram vrias as concepes de cidadania vigentes  poca. Cabe perguntar agora tambm se a percebida inexistncia de povo no era consequncia antes do tipo de 
povo ou de cidado que se buscava. Tanto os observadores estrangeiros quanto os intelectuais republicanos estavam sem dvida buscando o cidado ao estilo europeu, 
fosse ele o bem-comportado burgus vitoriano, o jacobino de 1789, o eleitor bem informado ou o militante organizado das barricadas. Se inexistia este povo,
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quem era povo no Rio? Ou que povo era o povo do Rio? Era ele de fato totalmente alheio  poltica, desinteressado de participar at mesmo dos assuntos municipais? 
Era de fato um bestializado?
A afirmao da inexistncia de povo poltico, de apatia total da populao era claramente exagerada. A histria da cidade desde a independncia indicava intensa 
participao popular nos acontecimentos polticos, sobretudo durante o Primeiro Reinado e a Regncia. Mesmo durante o perodo mais tranquilo do Segundo Reinado, 
houve momentos de agitao popular, como durante a crise que levou ao rompimento com a Inglaterra e em especial durante a Revolta do Vintm, em 1880. Nesta ltima, 
uma multido de mais de cinco mil pessoas reuniu-se no centro da cidade, arrancou trilhos de bondes e pedras do calamento das ruas, construiu barricadas, lutou 
contra a polcia. Trs mortos e mais de vinte feridos resultaram do conflito. Mais perto da Repblica, a campanha abolicionista tambm teve momentos de intenso envolvimento 
popular em comcios, demonstraes perante a Cmara, desfiles comemorativos.
Se na proclamao da Repblica a  participao popular foi realmente arranjada de ltima hora e de efeito apenas cosmtico, logo aps as agitaes se tornaram  cada 
vez mais frequentes e variadas, incluindo greves operrias, passeatas, quebra-quebras. O auge da agitao deu-se entre a Revolta da Armada em 1893 e o atentado contra 
Prudente de Morais em 1897. Neste perodo cessam as observaes de brasileiros e estrangeiros sobre a passividade popular.  a poca, do jacobino florianista, que 
trazia em constante alvoroo as representaes estrangeiras, particularmente a portuguesa, e irritava profundamente, quando no atemorizava, as correntes conservadoras 
e mesmo liberais do republicanismo.
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Nessa poca, as impresses que os representantes estrangeiros transmitem a seus governos podem ser resumidas no que Raikes escreveu a Salisbury em 6 de julho de 
1897. Comentando a opinio do ministro das Relaes Exteriores de Prudente de Morais, Dionsio Cerqueira, que no acreditava mais em distrbios no Rio, observa: 
"Na verdade, no Rio de Janeiro desordens so provocadas de modo to inesperado e por razes to fteis que acho sua excelncia otimista demais".5
Como principal vtima dos ataques jacobinos, o representante portugus tendia a reagir mais intensamente s agitaes. Desde o final de 1892, quando surgem batalhes 
e clubes patriticos, Pao d'Arcos no cessa de invectiv-los. Para ele, o Club Tiradentes, dirigido por Sampaio Ferraz, que fora o primeiro chefe de polcia da 
Repblica, era composto de voluntrios "da pior espcie, que, quais novos marselheses, se preparam com o seu Barbaroux para alguma repetio d'um 10 d "Agosto!". 
Segundo ele, Sampaio, ao despachar os capoeiras para Fernando de Noronha, teria deixado no Rio os capangas e vadios de sua confiana para formar seu batalho de 
sicrios.6 Durante a Revolta da Armada, Pao d'Arcos s via nos batalhes e nos clubes republicanos a participao da canalha das ruas, no passando estas organizaes 
de quadrilhas.7 Era geral entre os representantes estrangeiros neste perodo o receio de anarquia generalizada na cidade, seguida de assaltos e saques. Foi mesmo 
preparado um plano para, em tal eventualidade, ser efetuada uma interveno militar destinada a retirar da cidade os estrangeiros e recolh-los a bordo dos navios 
de guerra surtos no porto.8
Com o governo de Campos Sales, houve um ligeiro recuo nas agitaes, mas no seu total desaparecimento. Em 1900 houve nova conspirao para derrubar o governo
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envolvendo monarquistas e lideranas republicanas insatisfeitas. O ponto culminante da expresso popular veio,  no entanto, em 1904 com a revolta contra a vacina 
obrigatria, que ser analisada no prximo captulo. Durante uma semana partes da cidade foram tomadas por grupos populares, o trfego parou, bondes foram queimados, 
postes de luz destrudos, barricadas levantadas. De novo, o representante ingls se referia aos revoltosos como "mob", "towest elements of the populace.
De uma afirmao inicial de apatia, de inexistncia de povo, passa-se ento para outra, que afirma a presena de elementos da populao politicamente ativos, mas 
que no se enquadram no conceito de povo que os observadores tinham em vista. No eram cidados. Era a mob ou dregs (escria) para o representante ingls a 
foule para o francs; a  canalha, a  escuma social" para o portugus, quando no eram simplesmente bandos de negros e mestios. Na melhor das hipteses, eram 
jacobinos, palavra que mesmo para o representante francs tinha conotaes negativas, pois lhe parecia quase um insulto o uso da expresso para identificar um tipo 
de gente que no achava estar  altura dos exemplos originais que haviam agitado as ruas de Paris um sculo antes. A essa multido atribuam as caractersticas que 
lhe daria Gustave Le Bon de ser guiada pela paixo e no pela razo, de ser explosiva, inconstante, facilmente excitvel por demagogos. No caso brasileiro, era movida 
especialmente pelo dio ao estrangeiro, por um nativismo exacerbado.9               
Raul Pompia tambm teve suas dificuldades para interpretar os acontecimentos. Desde a queda de Deodoro, em novembro de 1891, a agitao poltica aumentou, envolvendo 
vrios segmentos da populao. Em dezembro       
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morria Pedro II, fato aproveitado pelos monarquistas para grandes, manifestaes. Correram rumores de movimento restaurador, houve motins em navios e revoltas de 
fortalezas. Cresceu tambm a oposio a Floriano Peixoto, ocorrendo at uma tentativa de golpe em abril de 1892. Com isto, no se podia, mais negar a presena de 
povo. Mas o povo nem sempre aparecia do lado que o florianista e republicano entusiasta que era Raul Pompia julgava correto. A sada que ele encontrou para o impasse 
foi negar a posio anterior que postulava a ausncia de povo atribuindo-a  cegueira palerma dos que descriam do carter nacional. O problema no era a ausncia 
de povo: era povo demais. Mais especificamente, era haver mais de um povo: "Aqui h povo; h mais que povo: h povo. Entre os povos, havia o bom e o mau povo: o 
bom era o brasileiro republicano, nacionalista, florianista; o mau, o estrangeiro, particularmente o portugus, antinacional, monarquista ou, na melhor das hipteses, 
politicamente aptico: "Os povos, portanto, no comparecem s manifestaes em que o povo se manifeste por Floriano; e assim a multido que comparece proporcionalmente 
 que existe na cidade parece pequena".10     
Mas mesmo a parcela de povo autntico lhe parecia pouco confivel, e ele acabou por caracteriz-la de modo semelhante ao dos diplomatas estrangeiros! As desordens 
de praa pblica no Rio, segundo ele, tinham a mesma inconstncia do clima fluminense: "Nascem da surpresa, do disparate, ningum sabe como nem por qu; mas tambm, 
com o mesmo estouvamento e inopinado, desaparecem e  francesa vo-se embora". Vm e vo sem deixar trao, como se nem de verdade fossem, como se no passassem de 
hidras de papelo. 11  Em 1895, pouco antes de morrer, j desaparecido Floriano, voltou  posio
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inicial, novamente descrente da possibilidade de encontrar povo no Rio de Janeiro. Passou, ento, a opor a capital  nao; o Brasil estaria na provncia, o Rio 
de Janeiro seria a antinao, o centro do cosmopolitismo portugus, inimigo da Repblica e do Brasil: "Todas as dificuldades da Repblica reduzem-se a isso  o estado 
permanente de revolta da capital contra a nao".12
Definitivamente, nem para os estrangeiros (que tinham em vista os modelos de seus pases), nem para os republicanos radicais (que talvez acalentassem modelos ainda 
mais idealizados), a populao do Rio passava no teste de cidadania. E, no entanto, assim como o Imprio copiara o modelo europeu das monarquias parlamentares, a 
Repblica se aplicara mais ainda em importar a parafernlia institucional da repblica democrtica norte-americana. Havia uma constituio que garantia os direitos 
civis  polticos dos cidados, havia eleies, havia um parlamento, havia tentativas de formar partidos polticos. A mesa estava posta, por que no apareciam os 
convivas? Onde estavam eles? 

POVO DOS CENSOS
Comecemos por dar uma idia geral da composio da populao fluminense no incio e no fim do perodo que nos ocupa (tabela II). Os dados do censo de 1890 so reconhecidamente 
precrios. Mas no h como no utiliz-los, dada a inexistncia de melhores.
As classificaes adotadas pelos dois censos variam. A primeira diferena  que o censo de 1906 no separa banqueiros, capitalistas e proprietrios, como o faz o 
de 1890. A segunda  que em 1906 no h categoria especial de artistas. Finalmente, em 1906 h categorias novas, como jornaleiros, profisses desconhecidas e mal 
definidas, classes improdutivas e os que vivem de rendas.
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Tabela II
Populao economicamente ativa, Rio de Janeiro, 1890,1906
Classe alta  Banqueiros 1890  44  1906  0 
Classe alta  Capitalistas 1890  517  1906  0 
Classe alta  Proprietrios 1890  2267  1906  0 
Classe alta  Total  1890  2828  1,1 %

Setores intermedirios  Profissionais liberais  1890   3395  1906  12050
Setores intermedirios  Funcionrios pblicos  1890  18226   1906  28901
Setores intermedirios  Profisso tcnica  1890  2885   1906  0
Setores intermedirios  Comrcio  1890  48048   1906  62775
Setores intermedirios  Total  1890  72 554  27,4 % - 1906  103746  24,4 %

Operariado  Artistas  1890  5859  1906  0
Operariado  Extrao  1890  703  1906  893
Operariado  Manufatura  1890  48661  1906  77450
Operariado  transporte  1890  10733  1906  22807
Operariado  Total  1890  65956  25,0 % - 1906  101150  23,8 %

Proletariado  servios domstico  1890  74785  1906  117904
Proletariado  jornaleiro  1890   0   1906  29933
Proletariado  Outros*  1890  48100  1906  72087
Proletariado  Total  1890  122885  46,5 %  1906  219924  51,8 %

Total Geral  1890  264233  100%  1906  424820  100% 
Fontes: CENSOS DE 1890 E DE 1906. Excludos inativos e empregados na agropecuria (1890); os sem profisso, empregados na agropecuria, classes improdutivas e os 
que vivem de renda (1906).
* Inclui os sem profisso declarada (1890) e os de profisso desconhecida e mal definida (1906).
Pg. 75

Como no nos interessa aqui um grande desdobramento das categorias, tais diferenas no prejudicam a anlise.
Igualmente, para tornar o quadro mais adequado a nossos propsitos, eliminamos a populao empregada na agropecuria (muito pequena) e os inativos e sem profisso. 
O fato de as categorias da tabela II no apresentarem grandes variaes percentuais entre os dois censos parece indicar que a diviso adotada no distorceu os dados. 
Em termos de classificao por setores,categoria mais problemtica  certamente a do comrcio.Ela foi colocada no setor intermedirio, mas sem dvida pequena parte 
poderia ir para a classe alta (grandes atacadistas) e parte razovel para o operariado (balconistas). Na impossibilidade de fazer tal distino, decidimos pela classificao 
intermediria.
O ponto que mais nos interessa aqui, no entanto, diz respeito  pirmide ocupacional, que era extremamente ampla na base e muito afunilada no vrtice. No alto havia 
um pequeno grupo de banqueiros, capitalistas e proprietrios. Seguia-se um precrio setor mdio, composto basicamente de funcionrios pblicos, comercirios e profissionais 
liberais.. De tamanho semelhante ao anterior era o setor do operariado, que inclua principalmente artistas, operrios do Estado e trabalhadores das novas indstrias 
txteis, alm dos empregados em transportes. Finalmente, vinha o que dava ao Rio marca especial em relao a outras grandes cidades da poca: o enorme contingente 
de trabalhadores domsticos, de jornaleiros, de pessoas sem profisso conhecida ou de profisses mal definidas. Este lumpen representava em torno de 50% da populao 
economicamente ativa, com pouca variao entre 1890 e 1906.
Para se ter alguma referncia comparativa, reproduzimos a tabela III, que compara a estrutura ocupacional
Pg. 76
do Rio em 1906 com a de outras sete grandes cidades da Amrica Latina, da Amrica do Norte e da Europa Excluindo-se o setor primrio, v-se que as grandes diferenas 
entre as cidades latino-americanas em geral, e o Rio em particular, e as outras cidades estavam em dois pontos: o pequeno peso das profisses e o grande peso do 
servio domestico nas primeiras. O Rio ainda se distinguia por ter um setor industrial muito pequeno.
Comparando-se o Rio com a Buenos Aires de 1887,vemos que mesmo em duas grandes cidades de pases de economia exportadora, as diferenas na estrutura ocupacional 
eram grandes. Fazendo para Buenos Aires a mesma separao por setores da tabela II, teremos na classe alta 0,7%, nos setores intermedirios 25,6%, no operariado 
40,8% e no proletariado 32,9%. A grande diferena  de quase 20 pontos percentuais  estava na maior presena do operariado em Buenos Aires e no grande proletariado 
do Rio. No primeiro caso, a economia j absorvera muito mais mo-de-obra no mercado formal de trabalho, ao passo que no segundo muito mais gente permanecia  margem 
ou nos interstcios desse mercado.13
A massa dos 50% do que chamamos de proletariado era constantemehte alimentada pela imigrao, que atingiu grandes propores nos anos iniciais da Repblica,proveniente 
tanto do resto do pas quanto do exterior,especialmente de Portugal. Interioranos de um lado e "galegos" de outro vinham engrossar a multido dos jornaleiros, domsticos, 
ambulantes, todo um leque de ocupaes variadas engrossavam tambm o nmero dos assaltantes, pivetes, jogadores, malandros e vagabundos em geral. Era um Rio subterrneo, 
menos visvel, mas que se vinculava umbilicalmente ao Rio oficial, sobreterrneo. Joo do Rio descreveu melhor que ningum este
pg. 77



Tabela III
Estrutura ocupacional de vrias cidades (em porcentagens)
                                                               
Cidade Buenos Aires  Data 1914 - Explorao do solo e subsolo 1,4; Indstria 42.2; Transporte        7,0; Comrcio 14.9; Fora  pblica         0,6; Administrao 
8.2; Profisses 8,5; Rendas 2,1;Servios domsticos15,1;   Total 100,0.

Cidade Mxico  Data 1900 - Explorao do solo e subsolo 18,7; Indstria 33,1; Transporte1,5; Comrcio 13,9; Fora  pblica         3,5; Administrao 7.0; Profisses 
4,2; Rendas 1,5;Servios domsticos16.6;   Total 100,0.

Cidade Washington  Data 1910 - Explorao do solo e subsolo 0,8; Indstria 24,6; Transporte        7.9; Comrcio 26.9; Fora  pblica         1,9; Administrao 
2.8; Profisses 23,3; Rendas ;Servios domsticos 11,8;   Total 100.0.

Cidade Nova Iorque  Data 1910 - Explorao do solo e subsolo 0,5; Indstria 40,6; Transporte        7,9; Comrcio 25,8; Fora  pblica         0,9; Administrao 
1,0; Profisses 16,8; Rendas ;Servios domsticos 6,5;   Total 100,0.

Cidade Rio - Data        1906 - Explorao do solo e subsolo 6,6; Indstria 29,7; Transporte        5,9; Comrcio 16.1; Fora  pblica  4,2; Administrao 3,1; Profisses 
3,2; Rendas 0.9; Servios domsticos 30.3;   Total 100.0.

Cidade Lisboa  Data 1911 - Explorao do solo e subsolo 2,9; Indstria 37,1; Transporte8,2; Comrcio 18,9; Fora  pblica 6,3; Administrao 3,0; Profisses 4,2; 
Rendas 5.9; Servios domsticos 13,5;   Total 100,0.

Cidade Londres  Data 1912 - Explorao do solo e subsolo 0,4; Indstria 35,7; Transporte13,0; Comrcio 22,5; Fora  pblica         0,9; Administrao 3,5; Profisses 
14,5; Rendas ;Servios domsticos 9.5;   Total 100.0.

Cidade Paris  Data 1911 - Explorao do solo e subsolo 0,2; Indstria 45,3; Transporte        5.9; Comrcio 24,6; Fora  pblica 1,5; Administrao 3.6; Profisses 
7,6; Rendas ; Servios domsticos 11,3;   Total 100.0.

Fonte: RECENSEAMENTO DE 1920. v. II, p. CXXI, CXXXI.
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lado da cidade, sobretudo em sua coletnea de crnicas A Alma Encantadora das Ruas. Apesar de estranho ao mundo subterrneo, sua curiosidade e s vezes mesmo certa 
simpatia contriburam para que nos desse um testemunho inestimvel.
As acusaes de Raul Pompia e as campanhas jacobinas contra os portugueses chamam a ateno para outro aspecto da composio demogrfica da populao do Rio que 
 preciso examinar.) Trata-se da presena de estrangeiros. De acordo com o censo de 1890, 30% da populao da cidade era composta de estrangeiros. Destes estrangeiros, 
70%, ou seja, 106461, eram portugueses. A presena portuguesa era particularmente forte em alguns setores da populao. Em 1890 eles compunham 40% dos artesos, 
51% dos empregados no comrcio e 53% dos empregados em transportes. Certas profisses eram quase monoplio portugus. O embaixador de Portugal avaliou em 90% a participao 
de portugueses entre carroceiros e cocheiros.14
A presena estrangeira era ainda muito forte entre  classe proprietria. Estrangeiros eram, em 1890, cerca de 30% dos proprietrios, banqueiros e capitalistas. 
Estes dados, tirados do censo, esto provavelmente subestimados. Segundo Assis Brasil, o estrangeiro (leia-se o portugus) era "proprietrio de quase toda esta cidade, 
principalmente da parte dela que serve de abrigo s classes mdia e proletria".I5 Ainda segundo este autor, os aluguis eram controlados monopolisticamente e exigiam-se 
dos inquilinos cartas de fiana, s sendo aceitas as de comerciantes portugueses que, para fornec-las, pediam depsito de dois meses de aluguel e compromisso de 
comprar em sua casa. Assis Brasil era um florianista e seu depoimento pode ser por isso considerado suspeito. Mas o antilusitanismo possua uma venervel tradio
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no Rio de Janeiro, remontando  poca da independncia e da Regncia. A queixa mais antiga visava o controle do comrcio, tanto no que se referia  propriedade das 
casas quanto ao favorecimento de portugueses na oferta de empregos. O que o surto de antilusitanismo do incio da Repblica acrescentou foi a queixa contra o controle 
de prdios de aluguel, especialmente das habitaes coletivas, includos a os cortios.
Outra fonte, agora insuspeita, confirma a enorme participao portuguesa no controle da riqueza da cidade. Em relatrio escrito em 1893, um funcionrio da legao 
portuguesa calculava que seus patrcios controlavam cerca de 70% do capital financeiro, comercial e imobilirio do Rio.16  possvel que o funcionrio tambm quisesse 
exagerar, por razes opostas s dos jacobinos, a influncia portuguesa. Mas sua experincia e conhecimento da cidade do certa credibilidade a seus clculos.
No h como fugir  importncia que tinha para a vida poltica da cidade a macia presena estrangeira. Raul Pompia no estava to equivocado ao falar em povos 
distintos. Ele errava era em acusar de apatia esses povos. As primeiras greves operrias que agitaram a Repblica tiveram participao conspcua de carroceiros, 
que, como vimos, eram em grande maioria portugueses, mais precisamente galegos. A participao dessa categoria. em movimentos grevistas, muitos com conotao poltica, 
continuou pelo menos at 1904. Em 1900, um portugus, Borlido, proprietrio de grande parte das carroas da cidade, envolveu-se no planejado golpe para derrubar 
Campos Sales, arquitetado pelos tenentes Vinhaes e Costa Mendes, com o apoio dos monarquistas. Os representantes de Portugal estavam constantemente censurando
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seus patrcios por se envolverem na poltica do pas. 17
O novo regime procurou desde o incio resolver o problema. A lei da grande naturalizao de 1890 declarava cidados brasileiros todos os estrangeiro que em seis 
meses no manifestassem expresso desejo de manter sua cidadania original. No h dados precisos sobre os efeitos da lei. Pelos relatrios diplomticos dos representantes 
ingls, francs e portugus, percebe-se que houve reao geral contra a lei. As pequenas colnias, como a inglesa, a francesa, a alem, tinham melhores condies, 
de resistir  naturalizao, tanto por seu tamanho quanto pela forca poltica de seus governos.  Portugal, ao contrrio, tinha enorme colnia e pouco poder. Seus 
embaixadores queixavam-se constantemente da lei, dos engodos e do arbtrio empregados pelas autoridades para conseguir a naturalizao. Entre os engodos mais comuns 
estava o de oferecer algumas vantagens da cidadania brasileira, como um cargo de inspetor de quarteiro, ou o direito de voto. Uma vez tendo aceito o cargo, ou tendo 
votado, a opo pela cidadania estava indiretamente feita. O meio arbitrrio mais empregado era o recrutamento forado para o servio militar.18
O censo de 1890 fornece alguns dados sobre a opo pela nacionalidade brasileira (tabela IV).
Os dados devem ser tomados com cautela, como tudo que se refere ao censo de 1890. Mas  sintomtico que somente 20% dos estrangeiros tinham  poca optado pela cidadania 
brasileira. Mesmo os portugueses, com a mesma lngua, a mesma religio, a mesma cultura, no se entusiasmavam pelas possveis vantagens, de ser brasileiro. O ndice 
mais alto de naturalizao est na categoria "outros", que  formada quase exclusivamente por africanos. A realidade  que os estrangeiros tinham seus
pg. 81

Tabela IV
Opo pela nacionalidade brasileira, 1890 (pases selecionados)
                
Naturalidade Alemes - Nmero de optantes 530; % s/ total da colnia         30
Naturalidade Ingleses - Nmero de optantes 169; % s/ total da colnia 9
Naturalidade Espanhis - Nmero de optantes 1296; % s/ total da colnia 12
Naturalidade Italianos - Nmero de optantes 1676; % s/ total da colnia 9
Naturalidade Franceses - Nmero de optantes 806; % s/ total da colnia 20
Naturalidade Norte-americanos - Nmero de optantes 28; % s/ total da colnia 11
Naturalidade Portugueses - Nmero de optantes 19675; % s/ total da colnia 18
Total: 24180        
        
Outros 6903; % s/ total da colnia 51
Total geral 31 083; % s/ total da colnia 20
Fonte: CENSO DE 1890. p. 236-7.

interesses melhor defendidos do que os nacionais, que os custos da cidadania brasileira eram maiores que suas vantagens. As representaes estrangeiras estavam sempre 
prontas a defender seus nacionais, salientando-se quanto a este ponto os diplomatas ingleses. J se tinham ido os tempos da extraterritorialidade, mas o peso ingls 
na economia do pas e em sua dvida externa dava ao representante desse pas enorme influncia. A presso da legao inglesa sobre o governo brasileiro se exercia 
mesmo quando no julgava pertinentes as demandas de seus cidados.19 A Itlia era tambm particularmente agressiva na defesa de seus nacionais. Como  sabido, o 
governo italiano chegou a suspender a emigrao para o Brasil. Juntamente com a Frana, ela promoveu intensa campanha entre seus cnsules para conseguir o maior
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nmero possvel de declaraes de manuteno de nacionalidade. Segundo funcionrio da embaixada portuguesa, o embaixador italiano lhe dissera em 1893 que j obtivera 
800000 declaraes.20
Portugal no estava em to boas condies de proteger eficazmente seus nacionais. O uso da fora no lhe podia valer. A nica vez que tentou faz-lo durante a Revolta 
da Armada, o ato lhe custou o rompimento das relaes diplomticas, mais prejudicial a ele que ao Brasil. Por outro lado, a corrupo dos agentes diplomticos portugueses 
reduzia sua eficcia e sua credibilidade. A embaixada acusava em 1893 um baixo nmero de opes pela cidadania portuguesa. Aparentemente, no caso dos portugueses, 
a maioria se tornou brasileira antes por ineficincia da representao do que pelos atrativos da nova situao. De fato, segundo funcionrio da embaixada, o maior 
receio dos portugueses com relao  cidadania brasileira era a obrigao de servir na Guarda Nacional e nas foras de terra e mar. Estava a, de outro lado, um 
dos interesses do governo em promover a naturalizao: aumentar o estoque de contribuintes do imposto do sangue. Ilegalmente, muitos portugueses j eram forados 
a servir na Marinha e no Exrcito.
Pelo lado social e demogrfico, portanto, no eram favorveis as perspectivas para a cidadania poltica no Rio de Janeiro no incio da Repblica. De um lado, grande 
parcela da populao se colocava tora do mundo organizado do trabalho, numa situao em que era difcil a percepo dos mecanismos que regiam a sociedade e a poltica. 
De outro, a grande presena estrangeira, particularmente portuguesa, tambm reduzia o envolvimento organizado na vida poltica da cidade. A participao de portugueses 
em greves de carroceiros e cocheiros, ou nos distrbios, tinha carter espordico e desestruturado,
Pg. 83
quando no causava divises, como no caso de associaes operrias do porto.21 Para os que no tinham optado pela cidadania brasileira, a participao adquiria mesmo 
um carter de irresponsabilidade, na medida em que sempre se podia apelar, em caso de priso, para a proteo do consulado. Acrescente-se ainda o nvel de alfabetizao 
que, embora fosse o mais alto do pas, em torno de 50% da populao total, exclua grande nmero de pessoas do direito de voto e das condies de se beneficiar da 
instruo como instrumento de ao poltica. Numa poca em que o nico meio de comunicao de massa era o jornal, o analfabetismo constitua grande desvantagem poltica.

O POVO POLTICO
Teriam os crticos razo quanto  apatia poltica dos fluminenses? A resposta deve ser buscada inicialmente na participao atravs dos canais oficiais. Embora a 
Repblica tivesse eliminado o voto censitrio, manteve, por outro lado, todas as outras restries, inclusive a excluso dos analfabetos e das mulheres. Sendo, no 
entanto, a populao do Rio a mais urbanizada do pas e razoavelmente alfabetizada, era de se esperar que fosse a mais independente de chefetes polticos e a mais 
preparada para o exerccio da cidadania. Comecemos por examinar o que seria o eleitorado potencial da cidade tendo em vista as limitaes legais. Os dados esto 
na tabela V.
Do ltimo nmero obtido  preciso excluir ainda os estrangeiros. J vimos que no h dados confiveis a nvel nacional sobre o nmero de pessoas que fizeram a opo 
pelo Brasil. No que se refere ao Rio, Jos Augusto
Pg. 84
Tabela V
Eleitorado potencial do Rio de Janeiro, 1890

Populao fixa total  515559
Excluindo menores de 21 anos, ficam  299827
Excluindo as mulheres, ficam  174565
Excluindo os analfabetos, ficam  118704
Excluindo as praas de pr e frades, ficam  109421
Fonte: CENSO DE 1890.22

Vinhaes afirmou na Cmara, em 1891, que o nmero dos que tinham optado por manter a cidadania estaria em tomo de 10 a 12 mil.23 Teramos assim por volta de 100 mil 
pessoas aptas a votar, ou seja, mais ou menos 20% da populao total.
A excluso de 80% da populao do direito poltico do voto j  um indicador do pouco que significou o novo regime em termos de ampliao da participao. O quadro 
agrava-se se examinarmos o uso que a populao fazia da franquia existente, isto , o nmero de fluminenses que se alistavam e realmente votavam nas eleies republicanas. 
Para a eleio da Constituinte em 1890, foram alistados 28585 eleitores, ou seja, 28% do eleitorado potencial, 9,5% da populao adulta, 5,5% da populao total. 
Nas primeiras eleies diretas para presidente, em 1894, votaram apenas 7 857 pessoas, ou seja, 7% do eleitorado potencial, 1,3% da populao.24 Em 1896 os alistados 
tinham subido para 42252, mas nas eleies deste ano para o Congresso votaram 13 127 eleitores, o que correspondia a 31% dos alistados, 13% do eleitorado potencial, 
2,5% da populao total.
As coisas no mudaram muito com o passar do tempo. Nas eleies presidenciais de 1910, 21 anos aps
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a proclamao da Repblica, havia no Distrito Federal 25 246 eleitores, isto , 2,7% da populao calculada para este ano. Apenas 8 687 compareceram s urnas, isto 
, 34% dos eleitores e 0,9% da populao total. Computando somente os votos apurados  a qumica eleitoral da poca conseguia anular muitos votos , verificamos 
que representavam 18% dos eleitores e 0,5% da populao total.25 Pode-se dizer que Repblica conseguiu quase literalmente eliminar o eleitor e, portanto, o direito 
de participao poltica atravs do voto. Uma comparao com Nova Iorque deixa claro o contraste. L, em 1888, 88% da populao adulta masculina votou para presidente. 
O nmero equivalente para o Rio em 1896 foi 7,5%. Em todos os Estados Unidos, 18% da populao votou para presidente em 1888.26 O mais escandaloso  que a participao 
eleitoral na capital em 1910 era a metade da mdia geral do pas. Nenhum estado da federao apresentava participao to baixa.27
Pelo critrio da participao eleitoral, pode-se dizer que de fato no havia povo pottco no Rio de Janeiro. O pequeno eleitorado existente era em boa parte composto 
de funcionrios pblicos, sujeitos a presses da parte do governo. Assim  que, por exemplo, na parquia de So Cristvo, um bairro operrio, 38% dos alistados 
em 1890 eram funcionrios pblicos.28
Se a excluso legal do processo eleitoral  fcil de entender, a auto-excluso      exige maior esforo de interpretao. Aparentemente, grande parte dos adultos 
escoIhia no ser cidado ativo, para usar a expresso jurdica da constituio imperial. Uma das razes para este comportamento era sem dvida a fraude eleitoral, 
que a Repblica nada fez para eliminar. O prprio Silva Jardim, o mais radical dos propagandistas, o agitador das multides do Rio, o defensor da proclamao da 
Repblica
Pg. 86
atravs da ao revolucionria do povo, props na Comisso de Regulamentao e Recenseamento Eleitoral, em 1890, que se criassem "agentes eleitorais", pagos pelo 
governo para alistar os cidados pois, segundo ele, o povo votava em quem o alistava. A lei deveria ser usada de modo certo para garantir a vitria republicana.29 
O Regulamento Alvim, que regeu as primeiras eleies da Repblica, suprimiu os fiscais da legislao anterior, deixando a mesa escrutinadora  merc dos mesrios, 
delegados das intendncias municipais. Escrevendo no final da dcada, um adversrio do novo regime observou que na maioria dos estados no havia eleies: "Vm ao 
Congresso os designados da polcia e dos mandes locais". E prosseguia: "No vota a dcima parte do eleitorado. Quando nas atas se atesta concorrncia numerosa, 
ficai certos que o excesso de voto  forgicado a bico-de-pena".30 Um pouco mais tarde. Lima Barreto diria que na Repblica dos Bruzundangas "de h muito os polticos 
prticos tinham conseguido quase totalmente eliminar do aparelho eleitoral este elemento perturbador  o voto". Era a prpria descrio da repblica dos fluminenses. 
31
No caso do Rio de Janeiro, havia tambm outra boa razo para que os cidados no se aventurassem a exercer seus direitos. Alm de ser intil, votar era muito perigoso. 
Desde o Imprio, as eleies na capital eram marcadas pela presena dos capoeiras, contratados pelos candidatos para garantir os resultados. A Repblica combateu 
os capoeiras, mas o uso de capangas para influenciar o processo eleitoral s fez crescer. Fiel cronista da cidade, Lima Barreto observa em Os Bruzundangas que s 
vsperas de eleio ela parecia pronta para uma batalha. Conhecidos assassinos desfilavam em carros pelas ruas ao lado dos candidatos. Em Numa e a Ninfa,
Pg. 87
referindo-se certamente a fato verdico, menciona determinado coronel da Guarda Nacional que inclua entre os preparativos para as eleies a contratao de um mdico 
para atendimento aos possveis feridos, que seriam, sem dvida, vtimas de seus prprios capangas. As eleies eram decididas por bandos que atuavam em determinados 
pontos da cidade e alugavam seus servios aos polticos.32
Assim, alm de ser mnima a participao eleitoral, o processo era totalmente deturpado. Ironicamente, eram em geral elementos provenientes da populao pobre que 
se prestavam  tarefa de ganhar as eleies a todo o custo.  outra vez Lima Barreto que nos d, atravs do personagem Lucrcio Barba de Bode, descrio viva desse 
tipo de empresrio poltico. Lucrcio era mulato e fora carpinteiro, um arteso honesto. Ao entrar em contato com polticos, abandonou a profisso e tornou-se agenciador 
de manifestaes polticas produzidas com participantes pagos, organizador de claques e vaias nas galerias da Cmara, garantidor de vitrias eleitorais, libertador 
de presos. A proteo poltica colocava-o acima da lei recomeou a usar armas, a habituar-se a rolos eleitorais, a auxiliar a soltura dos conhecidos pedindo e levando 
cartas deste ou daquele poltico para as autoridades. Perdeu o medo das leis, sentiu a injustia do trabalho, a niililidade do bom comportamento".33 O personagem 
literrio de Lucrcio era certamente baseado em tipos reais. Jos Vieira descreve em A Cadeia Velha a figura de Pinto de Andrade, que bem poderia ter sido a inspirao 
para a criao de Lucrcio. Pinto de Andrade, participante da conspirao militar de 1904, paralela  Revolta da Vacina, era um agitador tpico, organizador de manifestaes 
dentro e fora do recinto da Cmara.34
Pg. 88
O exerccio da cidadania poltica tornava-se assim caricatura. O cidado republicano era o marginal mancomunado com os polticos; os verdadeiros cidados mantinham-se 
afastados da participao no governo da cidade e do pas. Os representantes do povo no representavam ningum, os representados no existiam, o ato de votar era 
uma operao de capangagem. Editorial da revista Careta, de 1915, intitulado "A Fico da Soberania Popular", bem reflete tal situao. O autor desconhecido observa 
que, em populao de um milho, deputados se elegiam com um ou dois mil votos. Destes pouqussimos votos, a maioria era falsa. Votavam defuntos e ausentes e as atas 
eram forjadas. Ningum mais se escandalizava, pois todos sabiam que "o exerccio da soberania popular  uma fantasia, e ningum a toma a srio. O Congresso assim 
formado no merece a confiana do povo que por isso se desinteressa da sua escolha e composio".35
Como seria de esperar, a ausncia de participao eleitoral encontrava sua contrapartida na ausncia de partidos polticos. O incio da Repblica foi marcado pelo 
esforo de criao de partidos, particularmente na rea operria. Vrios partidos operrios foram organizados. Mas nenhum deles teve vida longa. Nem mesmo os partidos 
socialistas, de escopo mais amplo, liderados por intelectuais de classe mdia, tiveram qualquer xito. Aos partidos de classe alta no coube melhor sorte. O partido 
republicano do Rio de Janeiro fora afligido desde sua fundao, em 1870, por divises internas. A vida de oposio ainda lhe permitira certa aparncia de unidade. 
Porm, a vitria em 1889 ps a nu as divergncias e o partido desapareceu. Tentativas de organizar novos partidos, como o Partido Republicano Conservador, ou o Partido 
Republicano Federal, no deram em nada. A Repblica, ao contrrio do Imprio, no via com bons olhos
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os partidos, a no ser que fossem partidos nicos, como o PRM, o PRP, o PRR. Todavia, a populao do Rio era excessivamente independente e socialmente fragmentada 
para sujeitar-se  disciplina de partidos nicos. Restava ento um sistema poltico vazio, sem partidos, sem eleitores. Organizaes polticas no-partidrias, como 
os batalhes patriticos do perodo florianista, eram logo desmobilizados, uma vez passada a necessidade imediata que as gerara. Mesmo os clubes jacobinos tiveram 
durao curta e alcance restrito.36
Em termos do sistema poltico formal, Couty e Raul Pompia tinham razo: o Rio no tinha povo. O povo do Rio, quando participava politicamente, o fazia fora dos 
canais oficiais, atravs de greves polticas, de arruaas, quebra-quebras. Ou mesmo atravs de movimentos de natureza quase revolucionria, como a Revolta da Vacina. 
Mas na maior parte do tempo dedicava suas r energias participativas e sua capacidade de organizao a outras atividades. Do governo queria principalmente que o deixasse 
em paz.
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CAPTULO IV
CIDADOS ATIVOS:
A REVOLTA DA VACINA

Oitenta por cento da populao do Rio de Janeiro no tinha direito  participao poltica pelos mecanismos eleitorais; 20 por cento tinha tal direito, mas no se 
preocupava em exerc-lo. Por outro, sugerimos em vrias ocasies que com freqncia havia manifestaes populares de carter poltico. Os cidados inativos pelo 
critrio constitucional revelavam-se ento no s profundamente atentos a aspectos do exerccio do poder que lhes afetavam a vida cotidiana como tambm dispostos 
a ir at as ltimas      conseqncias para defender o que consideravam seus direitos.
Neste captulo tentaremos capturar um pouco do que seria a concepo dos direitos e deveres nas relaes entre os indivduos e o Estado embutida na mais espetacular 
ao popular da poca, a Revolta da Vacina.1 No s por suas dimenses como por sua complexidade, a revolta pode revelar aspectos da mente popular de difcil captao 
na rotina do cotidiano. Vai interessar-nos de modo particular esclarecer a composio da populao insurgente e as motivaes justificadoras da revolta, dois temas 
que tm preocupado tambm a literatura recente sobre revoltas populares na Europa.2
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A Revolta da Vacina deu-se em contexto econmico e poltico cujo exame j foi feito. Igualmente, j foram estudadas com razovel profundidade as reformas empreendidas 
pelo governo de Rodrigues Alves. Bastar algumas indicaes.3
Rodrigues Alves assumiu o governo vendo seu antecessor sair do Riosob imensa vaia popular que ecoava ao longo das estaes suburbanas da Central. O governo de Campos 
Sales tinha sido de recesso econmica produzida por uma poltica de combate  inflao que se caracterizava pela reduo do meio circulante, pela conteno drstica 
dos gastos do governo e pelo aumento de impostos, especialmente atravs da tarifa-ouro sobre os produtos de importao. O ministro da Fazenda, Joaquim Murtinho, 
um darwinista social, conseguira no final elevar o cmbio e produzir supervits oramentrios. Porm, fizera-o  custa da insatisfao geral que ia dos cafeicultores 
aos operrios, passando pelos banqueiros e industriais. Na crtica, talvez exagerada, de um industrial do Rio, Murtinho conseguira elevar o cmbio, mas deixara o 
pas na misria. Os preos internos tinham baixado significativamente, todavia os benefcios dessa mudana para a populao em geral eram contrabalanados pela queda 
na oferta de empregos e pelo aumento de impostos.4
Rodrigues Alves, sem alterar de modo significativo a poltica financeira, enveredou por um programa intensivo de obras pblicas, financiado por recursos externos, 
que conseguiu dar incio  recuperao econmica. J a partir do ano em que assumiu, 1902, tinham comeado a crescer a importao de matrias-primas e bens de capital, 
o consumo de cimento e ao e, a partir de 1903, a formao bruta de capital fixo. Foi tambm ajudado
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desde o comeo por ligeiro aumento dos preos do caf, em baixa desde 1896.5
Desmentindo o apelido de Soneca, o presidente atacou logo as obras de saneamento e de reforma urbana da cidade, como prometera no discurso de posse. Para isso, conseguiu 
poderes quase ditatoriais para o engenheiro Pereira Passos, nomeado    prefeito, e para o mdico Oswaldo Cruz, nomeado diretor do Servio de Sade Pblica. As obras 
do porto foram contratadas em 1903 com uma firma inglesa e tiveram incio em maro de 1904, compreendendo em sua primeira parte o trecho de 600 metros que ia do 
Mangue at o trapiche da Gamboa. Cerca de dois mil trabalhadores foram contratados para o trabalho. As obras complementares da avenida Central, da avenida do Cais 
(Rodrigues Alves) e do canal do Mangue ficaram a cargo do prprio governo federal, sob a direo de uma comisso construtora cujo engenheiro-chefe era Paulo de Frontin. 
As desapropriaes para a construo da nova avenida comearam em dezembro de 1903, as demolies em fevereiro de 1904, quando tambm foram iniciadas as obras do 
canal do Mangue. Paralelamente, a prefeitura se encarregava das obras de alargamento de algumas ruas do centro.
Em novembro de 1904, data da revolta, o trabalho de demolio das casas para abrir a avenida Central, executado por cerca de 1800 operrios, terminara e 16 dos novos 
edifcios estavam sendo construdos. O eixo central "da avenida fora inaugurado em 7 de setembro, em meio a grandes festas, j com servio de bondes e iluminao 
eltrica. A derrubada de cerca de 640 prdios rasgara, atravs da parte mais habitada da cidade, um corredor que ia da Prainha ao Passeio Pblico. Era como abrir 
o ventre da velha cidade. Parte dos escombros ainda cobria os lados da avenida (veja caderno de foto).
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Na mesma data, estavam sendo alargadas as ruas do Acre (ex-Prainha), So Bento, Visconde de Inhama. Assemblia e Sete de Setembro. A rua do Sacramento j fora prolongada 
at a avenida Marechal Floriano Peixoto, recebendo a parte nova o nome de avenida Passos.6
Pelo lado da sade pblica, Oswaldo Cruz enfrentou, em primeiro lugar, a febre amarela, adotando mtodos j aplicados em Cuba. Atacou a doena por dois lados, pela 
extino dos mosquitos e pelo isolamento dos doentes em hospitais. Logo a seguir, voltou-se para a peste bubnica, cujo combate exigia a exterminao de ratos e 
pulgas e a limpeza e desinfeco de ruas e casas. O trabalho comeou em abril de 1903. Brigadas sanitrias, compostas de um chefe, cinco guardas mata-mosquitos e 
operrios da limpeza pblica, percorriam ruas e visitavam casas, desinfetando, limpando, exigindo reformas, interditando prdios, removendo doentes. Os alvos preferidos 
das visitas eram, naturalmente, as reas mais pobres e de maior densidade demogrfica. Casas de cmodos e cortios, onde se comprimiam em cubculos e casinhas dezenas 
de pessoas, constituam objeto de ateno especial. Um delegado de sade relatava em 1904 sua atuao no distrito da Sade: "Em todas [as ruas] foram feitas rigorosas 
visitas, exigindo-se toda a sorte de melhoramentos necessrios. Nas habitaes coletivas, ento, procurei sempre, por meio de rigorosas intimaes, extinguir muitas 
que funcionavam irregularmente, quer por falta de condies higinicas, quer por no possurem licena da Prefeitura".7 Cerca de 2 500 mata-mosquitos espalharam-se 
pela cidade. Para prevenir resistncias dos moradores, as brigadas faziam-se acompanhar de soldados da polcia. Pode-se ter idia da dimenso do esforo atravs 
da seguinte estatstica: s no segundo semestre de 1904 foram visitadas 153 ruas; foram feitas,
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no primeiro semestre, 110 224 visitas domiciliares, 12 971 intimaes, 626 interditos.8
Tal atividade evidentemente provocou rebulio na cidade e perturbou a vida de milhares de pessoas, em especial os proprietrios das casas desapropriadas para demolio, 
os proprietrios de casas de cmodos e cortios anti-higinicos, obrigados a reform-los ou demoli-los, e os inquilinos forados a receber os empregados da sade 
pblica, a sair das casas para desinfeces, ou mesmo a abandonar a habitao quando condenada  demolio, Alm disso. Pereira Passos, na nsia de fazer da cidade 
suja, pobre e catica rplica tropical da Paris reformada por Haussmann, baixara vrias posturas que tambm interferiam no cotidiano dos cariocas, particularmente 
no dos ambulantes e mendigos. Proibiu ces vadios e vacas leiteiras nas ruas; mandou recolher a asilos os mendigos; proibiu a cultura de hortas e capinzais, a criao 
de sunos, a venda ambulante de bilhetes de loteria. Mandou tambm que no se cuspisse nas ruas e dentro dos veculos, que no se urinasse fora dos mictrios, que 
no se soltassem pipas.9 Muitas dessas posturas eram simples reedies de medidas anteriores que, ao bom estilo brasileiro, no tinham pegado. No se sabe ao certo 
quantas das novas pegaram. Mas, desta vez, a populao j se dera conta de que pelo menos o esforo de aplicao da lei seria muito maior.

A REVOLTA
Neste ambiente, teve incio a luta pela implantao da vacina obrigatria contra a varola, a terceira epidemia no alvo de Oswaldo Cruz. A vacina de Jenner fora 
introduzida no Brasil em 1801. Em 1837, uma postura municipal tornara-a obrigatria no Rio de Janeiro para
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crianas de at trs meses de idade, sob pena de multa de 6$000, a ser paga pelos responsveis. Em 1884, o decreto estendera a obrigao a todo o Imprio para todas 
as pessoas. Em dezembro de 1889, um ms depois da proclamao da Repblica, o governo provisrio renovara a obrigatoriedade para crianas de at seis meses de idade. 
A partir da, at 1903, uma srie de decretos foi ampliando a exigncia da vacinao para os alunos de escolas pblicas, civis e militares, para os empregados dos 
correios, para os detentos e menores recolhidos a asilos pblicos. Mas, como a prpria vacina, que s vezes no pegava, essas leis no pegaram, especialmente as 
que estendiam a obrigatoriedade a todos os cidados.10
O governo julgou ento necessrio fazer outra lei que reintroduzisse a obrigatoriedade. O projeto entrou no Senado em 29 de junho e foi aprovado, com 11 votos contrrios, 
em 20 de julho. Deu entrada na Cmara em 18 de agosto, foi aprovado por larga maioria no final de outubro e tornou-se lei em 31 desse ms. No Senado, seu maior opositor 
foi o tenente-coronel Lauro Sodr. Na Cmara, salientou-se o major Barbosa Lima, dois militares positivistas e florianistas. Lauro Sodr fora governador do Par 
e candidato derrotado s eleies presidenciais de 1898. Em 1903, com a ajuda de Edmundo Bittencourt, diretor do Correio da Manh, e dos cadetes das Escolas Militares, 
elegera-se senador pelo Distrito Federal. Barbosa Lima fora governador de Pernambuco, onde fundara um Instituto Vacinognico, mandara distribuir a vacina de Jenner 
durante uma epidemia de varola e enviara um mdico para estudar microbiologia no Instituto Pasteur. Tendo perdido apoio poltico em Pernambuco, fora salvo pelo 
amigo positivista Jlio de Castilhos, que lhe dera um lugar na bancada gacha na Cmara. Junto
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com Lauro Sodr, passou a formar na frente da luta pela purificao da Repblica, contra o governo do ex-monarquista e conselheiro Rodrigues Alves e contra as oligarquias 
estaduais que dizia serem o sustentculo da Repblica prostituda.
Outro deputado positivista envolvido na campanha foi Alfredo Varela, ex-aluno da Escola Militar do Rio, positivista, tambm protegido de Jlio de Castilhos. Em maio 
de 1904, com o auxlio financeiro de monarquistas do Rio e de So Paulo, fundara o jornal O Commercio do Brazil, no qual passou a atacar com violncia o governo. 
Em agosto, em consequncia de ataques ao comandante da Brigada Policial, general Hermes da Fonseca, levou um tiro no ombro desfechado pelo filho deste. Entre 7 e 
14 de novembro (o jornal foi fechado nesta ltima data), reproduzia na primeira pgina um artigo intitulado "Direito  Resistncia", em que pregava a recusa  vacinao 
por se tratar de lei inconstitucional. Em 7 de novembro, publicou informe com o ttulo "A Bala", em que noticiava a formao por Lauro Sodr, no Centro das Classes 
Operrias, de uma organizao destinada a resistir  vacina por meios legais ou pela fora, opondo" as balas dos cidados aos sabres da polcia.11
Fora do Congresso, o combate  obrigatoriedade deu-se principalmente na imprensa, destacando-se o Correio da Manh e o Commercio do Brazil. Vinha dos positivistas 
ortodoxos do Apostolado a oposio mais intransigente e mais consistente. Desde o final do Imprio, resistiam eles s tentativas de introduzir a obrigatoriedade. 
Sua oposio baseava-se em dois pontos, um cientfico, outro filosfico. Pelo primeiro, interpretavam o pensamento de Comte como tendo sido contrrio  teoria microbiana 
das doenas. Pelo segundo, no aceitavam qualquer
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intromisso do governo, poder material, no domnio da sade pblica, reservado ao poder espiritual. Irritava-os particularmente o monoplio exercido pelos mdicos 
sobre a sade privada e pblica. Para eles, a intromisso do governo no passava de um "despotismo sanitrio", expresso que passou a ser largamente utilizada pelos 
inimigos da vacina e do governo. Em 1904, na iminncia da passagem da nova lei, recorreram a verdadeiro terrorismo ideolgico, apontando na vacina inmeros perigos 
para a sade, tais como convulses, diarrias, gangrenas, otites, difteria, sfilis, epilepsia, meningite, tuberculose.12 Outro ponto em que os ortodoxos insistiam 
era a falta de competncia do poder pblico para invadir o recesso dos lares, seja para inspeo, seja para desinfeco, seja para remoo de doentes, ou seqestro, 
como preferiam dizer. Sua campanha se fazia atravs da imprensa e de folhetos impressos pelo Apostolado e distribudos entre deputados e entre a populao.
Durante a discusso, vrias listas de assinaturas contra a obrigatoriedade foram enviadas ao Congresso. Duas pelo menos foram organizadas pelo Centro das Classes 
Operrias, com as assinaturas de Vicente de Souza, o presidente, Jansen Tavares, o primeiro-secretrio, e todos os outros membros da diretoria. Em outra lista aparecem 
78 militares, na maioria alferes-alunos da Escola Militar. Ao todo, umas 15 mil pessoas assinaram. Cerca de 10 mil o fizeram dizendo-se operrios, em listas organizadas 
por empresas ou por associaes operrias.
Um dos pontos mais controversos da lei dizia respeito a quem aplicaria a vacina, se mdicos do governo, se mdicos da escolha das pessoas. Diante da circulao de 
boatos de que haveria resistncia  aplicao da lei, de que manifestos seriam espalhados, meetings convocados,
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a que se associariam "a mocidade, o operariado, o povo", O Paiz, jornal que apoiava o governo, resolveu entrevistar o ministro da Justia e Negcios Interiores, 
J. J. Seabra, a fim de tranqilizar os nimos. Em 14 de outubro foi publicada a entrevista em que o ministro garantia que a lei seria aplicada com prudncia, sem 
vexames e atropelos. Mas o texto final da lei nada esclarecia a este respeito, pois s continha dois artigos, o primeiro estabelecendo a obrigatoriedade da vacinao, 
o segundo autorizando o governo a regulament-la e dando algumas normas gerais. Tudo ficou, portanto, dependendo do regulamento, de cujo projeto se encarregou Oswaldo 
Cruz. No dia 9 de novembro, o ministro convocou uma reunio de mdicos, juristas e polticos para examinar o projeto, distribuindo cpias. Nova reunio ficou marcada 
para o dia 13, um domingo. Por descuido ou malcia, uma cpia foi parar nas mos do jornal A Noticia, que publicou o texto no dia 10.
O projeto de regulamento mantinha a opo de vacinao por mdico particular, mas o atestado teria de ter firma reconhecida. Pelo resto, cercava de tal modo o cidado 
que dificilmente algum poderia escapar. O atestado de vacina era exigido para tudo: matrcula em escolas, emprego pblico, emprego domstico, emprego nas fbricas, 
hospedagem em hotis e casas de cmodos, viagem, casamento, voto etc. Multas eram previstas para os recaIcitrantes.
Houve reao violenta. At mesmo O Paiz ficou alarmado com dispositivos que julgou serem violncias, extravagncias e atentados  Constituio e ao bom-senso. Oswaldo 
Cruz foi tachado pelo jornal de cientista desligado das realidades do pas.13 O redator foi falar com o ministro, que procurou diminuir a importncia do documento 
dizendo que nem projeto era, mas simples
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idias de Oswaldo Cruz a serem debatidas pelos especialistas. A Noticia entrevistou vrios membros da comisso e publicou suas reaes nos dias 11 e 12. Todos se 
declararam contra o regulamento nos termos em que estava redigido. Mesmo os que apoiavam a obrigatoriedade se opuseram. O prprio relator do projeto na Cmara, dr. 
Joo Carlos Teixeira Brando, professor da Faculdade de Medicina do Rio, no concordou com o rigor de Oswaldo Cruz.14
Porm, a essa altura a revolta j estava na rua.15 Mesmo antes de ter o projeto vazado para a imprensa, fora convocada reunio no Centro das Classes Operrias a 
fim de ser fundada a Liga contra a Vacina Obrigatria. A reunio foi no dia 5 de novembro, sob a presidncia de Lauro Sodr, estando tambm  mesa Vicente de Souza 
e Jansen Tavares. Segundo o Correio da Manh, mais de duas mil pessoas encontravam-se presentes. Lauro Sodr falou contra a lei "inqua, arbitrria e deprimente", 
a que se devia resistir mesmo " bala". Mas falou especialmente contra o governo, que acusou de corrupto, de fora-da-lei, de ter transformado o regime em "repblica 
de fancaria onde predominam as oligarquias". A seguir falou Vicente de Souza. Mencionou que cerca de seis mil operrios tinham feito petio ao Congresso; que h 
dois anos fora solicitado ao prefeito que se construssem casas higinicas para os operrios para substituir os cortios e estalagens, focos de endemias. Nada fora 
feito. Pintou a situao em que ficaria a famlia proletria com a nova lei. Ao voltar do trabalho, disse, o chefe fica "sem poder afirmar que a honra de sua famlia 
esteja ilesa, por haver a penetrado desconhecido amparado pela proclamao da lei da violao do lar e da brutalizao aos corpos de suas filhas e de sua esposa". 
"A messalina", prosseguiu, "entrega-se a quem quer, mas
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a virgem, a esposa e a filha tero que desnudar braos e colos para os agentes da vacina." No apelava para a Constituio por j estar poluda e esfarrapada. Contra 
a violncia, apelava para a legtima defesa "e essa se faz com as armas na mo".16
No dia 10, por volta de seis da tarde, um grupo de rapazes, que O Paiz diz serem "em sua maioria estudantes", comeou um arremedo de meeting no largo de So Francisco, 
onde ficava a Escola Politcnica, fazendo discursos humorsticos e rimados. O grupo desceu a rua do Ouvidor, onde o orador, o estudante Jayme Cohen, falou, agora 
a srio, pregando a resistncia  vacina. Um delegado de polcia o intimou a ir at a delegacia. Houve reao popular contra a priso. O grupo, ao chegar perto da 
praa Tiradentes, deu de frente com praas da cavalaria da polcia e prorrompeu em tremenda vaia e em gritos de "Morra a polcia! Abaixo a vacina!". Houve, a seguir, 
conflito com a polcia, tentativa de arrebatar o preso, pedradas de um lado, espaldeiradas de outro. No final, 15 pessoas foram presas, das quais cinco estudantes 
e dois funcionrios pblicos. As 7:30 da noite a situao voltou  calma, permanecendo a polcia em guarda na praa Tiradentes.
No dia 11, repetiram-se no largo de So Francisco as mesmas cenas. Garotos soltaram bombas de brinquedo e, a partir da, tiveram incio correrias e perseguio da 
polcia, estendendo-se a movimentao at a praa Tiradentes e o largo do Rosrio. Foram presas 18 pessoas por uso de armas proibidas. No dia 12, um sbado, houve 
nova reunio para discutir e aprovar as bases da Liga. A reunio estava marcada para as oito da noite, na sede do Centro das Classes Operrias  rua do Esprito 
Santo (hoje Pedro I), perto da praa Tiradentes. Desde as cinco da tarde, o povo comeou a aglomerar-se no largo de
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So Francisco. Outra vez, um grupo de garotos, que o Correio da Manh julga, pelos trajes, serem da classe operria, comeou ludicamente as manifestaes. Montados 
em pedaos de madeira retirados das obras, passaram a representar os acontecimentos da vspera, simulando o espancamento da populao pela cavalaria da polcia. 
O teatro logo se converteu em realidade quando a cavalaria atacou a espadadas recebendo em troca bichas chinesas (bombas de brinquedo) e os primeiros tiros de revlver. 
Alguns combustores de iluminao foram apagados.
s oito, todos se dirigiram ao Centro. Segundo o Correio da Manh, estavam presentes umas quatro mil pessoas, "de todas as classes sociais", comerciantes, operrios, 
moos militares e estudantes. Em ambiente tumultuado por provocadores da polcia, falou Lauro Sodr dizendo que s um governo de fazendeiros poderia decretar a vacina 
obrigatria. E pediu ao povo que se retirasse em paz. Barbosa Lima falou no mesmo sentido. Vicente de Souza alertou o povo a no acreditar no ministro da Justia 
quando este dizia no endossar in totum o projeto de Oswaldo Cruz. Falou, a seguir, sobre a repblica social e aconselhou a continuao da resistncia, mas, seguindo 
Lauro Sodr e Barbosa Lima, pediu prudncia.
No final da reunio, que O Paiz diz ter fracassado, pois Lauro Sodr teve de termin-la sem tratar do objetivo para que fora convocada, a multido saiu em passeata 
at a rua do Ouvidor, onde deu vivas ao Correio da Manh, que ali tinha sua sede, e morras a jornais que apoiavam o governo (provavelmente O Paiz e o Jornal do Commercio). 
A seguir, o grupo que O Paiz chama de "desocupados e mazorqueiros" se dirigiu ao Catete, passando pela Lapa e Glria. No caminho, vaiou o carro do
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ministro da Guerra, aplaudiu o 9. Regimento de Cavalaria do Exrcito, vaiou e deu tiros contra o carro do comandante da Brigada Policial, general Piragibe. O palcio 
estava fortemente guardado. A multido deu meia-volta e regressou ao centro. Na Glria, Varela falou da janela de sua casa aconselhando o povo a dissolver-se porque 
no era chegado ainda o momento da desforra. Na Lapa, houve de novo tiros contra o carro de Piragibe, que, de revlver na mo, mandou a tropa carregar contra os 
manifestantes. Durante o dia houvera boatos de ter sido apedrejada a casa do ministro da Justia (o que no se deu). A casa foi guardada pela polcia assim como 
a de Oswaldo Cruz.
A esta altura, o Exrcito entrou de prontido. Foram mandadas praas de cavalaria e infantaria, em nmero de 128, para guardar o Catete. O ministro da Guerra mandou 
recolher  Escola de Ttica do Realengo os alunos que tinham participado da reunio do Centro. Foram recolhidos 42.
No dia 13, domingo, o conflito generalizou-se e assumiu carter mais violento. Um aviso no Correio da Manh, de 12, convocara o povo a aguardar na praa Tiradentes, 
onde ficava o Ministrio da Justia, os resultados da reunio da comisso que iria examinar o projeto do regulamento. A comisso acabou adotando projeto substitutivo, 
feito pelo dr. Teixeira Brando, baseado na lei francesa de 1903. Mas nada disto importava mais. Ainda durante a reunio, pelas duas horas da tarde, quando chegou 
o chefe de polcia, Cardoso de Castro, seu carro foi apedrejado. A polcia carregou sobre a multido. O local se tornou uma praa de guerra. Aos poucos, a luta se 
espalhou pelas ruas adjacentes, pela Sacramento e avenida Passos, pelo largo de So Francisco, ruas do Teatro, dos Andradas, da Assemblia, Sete de Setembro,
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Regente, Cames, So Jorge. Segundo o Jornal do Commercio, houve "descargas cerradas de carabinas e revlveres". Os bondes comearam a ser atacados, derrubados e 
queimados. Foram quebrados combustores de gs e cortados os fios da iluminao eltrica da avenida Central. Surgiram as barricadas, primeiro na avenida Passos, depois 
nas ruas adjacentes. Oradores subiam aos montes de pedras das construes e incitavam ao ataque. Na rua So Jorge, as prostitutas saram  rua para aderir  luta 
contra a polcia, ficando uma delas ferida no rosto. Comearam os ataques s delegacias de polcia e ao prprio quartel de cavalaria, na Frei Caneca. Verificaram-se 
tambm assaltos ao gasmetro e s companhias de bondes. Os distrbios se espalharam, atingindo a praa Onze, Tijuca, Gamboa, Sade, Prainha, Botafogo, Laranjeiras, 
Catumbi, Rio Comprido, Engenho Novo. Na rua Larga de So Joaquim (avenida Marechal Floriano Peixoto), as colunas dos lampies de gs foram quebradas e enormes chamas 
lambiam os ares. Na Senador Dantas, rvores recm-plantadas foram arrancadas.
O tiroteio penetrou a noite, a cidade j em parte s escuras em conseqncia da quebra de lampies. Ladres se aproveitavam para assaltar os transeuntes. O dono 
de um armazm da rua do Hospcio foi preso, acusado de fornecer querosene e dinheiro aos queimadores de bondes. No fim da noite, a Companhia Carris Urbanos j contava 
22 bondes destrudos. A Companhia do Gs informava que mais de 100 combustores tinham sido danificados e mais de 700 inutilizados. Entre os feridos estavam vrios 
populares e doze praas da polcia. Havia pelo menos um morto. O Exrcito  a Marinha passaram a guarnecer vrios prdios e locais estratgicos. O Correio da Manh 
insiste em que as tropas das duas corporaes
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eram sempre acolhidas com grandes aplausos pelos manifestantes, mesmo quando se apresentavam para dispers-los.
No dia 14 de novembro, segunda-feira, a cidade amanheceu com aspecto desolador, assim descrito pelo reprter do Jornal do Commercio: "As arandelas do gs, tombadas, 
atravessavam-se nas ruas; os combustores da iluminao, partidos, com os postes vergados, estavam imprestveis; os vidros fragmentados brilhavam na calada; paraleleppedos, 
revolvidos, que serviam de projetis para essas depredaes, coalhavam a via pblica; em todos os pontos destroos de bondes quebrados e incendiados, portas arrancadas, 
colches, latas, montes de pedras, mostravam os vestgios das barricadas feitas pela multido agitada".17
O Correio da Manh trazia um editorial em que acusava o ministro da Justia de "arruaceiro contumaz", "desordeiro habitual", e atribua ao presidente da Repblica, 
ou antes ao desmoralizador da Repblica, os crimes cometidos pela polcia nos dias anteriores. Apesar da chuvinha fina que caa, a agitao recomeou j de madrugada 
e durante o dia tendeu a concentrar-se em dois redutos, um no distrito do Sacramento, nas proximidades da praa Tiradentes, ruas So Jorge, Sacramento, Regente, 
Conceio, Senhor dos Passos, avenida Passos; e o outro na Sade, estendendo-se para a Gamboa e a Cidade Nova (ver caderno de fotos). De madrugada, 200 homens tentaram 
assaltar a 3a Delegacia Urbana na rua da Sade. A 2 Delegacia, ali perto, na rua Estreita de So Joaquim, foi tomada da polcia e abandonada quando chegaram tropas 
do Exrcito. Na Sade, houve tiroteios o dia inteiro entrincheirando-se os manifestantes, calculados pelo Jornal do Commercio em dois mil, em casas e trinceiras 
na praa da Harmonia. Mais tarde, foi atacado o
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Moinho Ingls, no fim da rua da Gamboa; teve portes arrombados, vidros quebrados e a casa de mquinas danificada. Numa casa apareceu a inscrio: "Hospital de Sangue". 
A noite, ainda na Sade, enormes grupos concentraram-se e se puseram a quebrar combustores, destruir linhas telefnicas, levantar barricadas. A fora policial foi 
retirada e substituda por contingente de 150 praas da Marinha.
A rua do Regente era o ncleo do primeiro reduto. Quando a cavalaria atacou, "foram arremessadas garrafas, latas, pedras, mil projteis das casas e da rua, enquanto, 
de baixo, o povo repelia a tiros de revlver, a golpes de ferros e cacete. O tiroteio foi tremendo, conseguindo a fora dispersar os amotinados", conforme relato 
do Jornal do Commercio. No cho, trs mortos. Na Prainha, a barca de Petrpolis foi atacada por um grupo de mais de duas mil pessoas, que depredou a estao sem 
molestar os passageiros. Houve tentativas de assalto a casas de armas, como a Casa Laport, na rua dos Ourives, e outras na rua da Carioca, onde "se vendiam armas 
em profuso". At no novo e longnquo bairro de Copacabana lampies foram quebrados. A 5 Delegacia de Sade,  rua Senador Pompeu, foi tomada e depredada.  noite 
foi atacada a fbrica de velas Luz Sterica, em So Cristvo. O mesmo aconteceu com os gasmetros do Mangue, Vila Isabel e Botafogo. Na avenida Central, foram viradas 
carroas das Obras Pblicas. Na Visconde de Itana, houve um tiroteio entre guardas-civis e soldados do Exrcito, comandados pelo alferes Varela, do 22. BI. Os 
soldados prenderam e feriram alguns guardas sob "estrondosa aclamao do pblico", informa o Correio da Manh. Funcionrios da City Improvements, com bandeira vermelha, 
tentaram parar carroa da assistncia policial; um deles foi ferido.
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Durante o dia, boletins do chefe de polcia pediam " populao pacfica" que se recolhesse a suas casas para que o "mximo rigor" pudesse ser usado contra os desordeiros.18 
Por entendimentos entre os ministros da Justia, da Marinha e do Exrcito, a cidade foi dividida em trs zonas de policiamento, cabendo todo o litoral  Marinha; 
ao Exrcito a parte ao norte da avenida Passos, incluindo So Cristvo e Vila Isabel;  polcia a parte ao sul da avenida Passos. Foi chamado de Niteri o 38. 
BI do Exrcito. Saram trens para buscar o 12. BI de Lorena, em So Paulo, e o 28. BI, sediado em So Joo del Rei, Minas Gerais.
Ao mesmo tempo que noticiavam os acontecimentos da revolta popular, os jornais j traziam tambm as primeiras informaes sobre o levante da Escola Militar da Praia 
Vermelha, embora ainda de maneira nebulosa. Utilizando informaes dos dias posteriores e depoimentos dos envolvidos, os fatos podem ser brevemente resumidos. Pelas 
duas da tarde, foi realizada reunio no Clube Militar, a que compareceram Lauro Sodr, o general Travassos, o major Gomes de Castro, o deputado Varela, Vicente de 
Souza e Pinto de Andrade, descrito depois pelo chefe de polcia como um "empreiteiro de arruaas e de motins" ligado aos monarquistas, alm de outros militares e 
civis. O ministro da Guerra tomou conhecimento da reunio e mandou que o presidente do clube, general Leite de Castro, a dissolvesse, o que foi feito. Ao dirigir-se, 
aps a reunio, para o centro da cidade, Vicente de Souza foi preso na rua do Passeio. A noite, uma parte do grupo que participara do encontro foi para a Escola 
Preparatria e de Ttica do Realengo e tentou sublev-la. A reao do comandante, general Hermes da Fonseca, frustrou o plano; foram presos o major Gomes de Castro 
e Pinto de Andrade, que entrara na escola gritando:
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"Prende o general! Mata o general!". A outra parte, composta por Lauro Sodr, pelo general Travassos e por Varela, levantou a Escola Militar da Praia Vermelha sem 
que tivesse havido a menor resistncia por parte do comandante, general Costallat.19
Avisado, o governo concentrou tropas do Exrcito, Marinha, Brigada e Bombeiros no Catete e mandou um contingente enfrentar a escola que se pusera em marcha s 10 
horas com 300 cadetes. Botafogo estava inteiramente s escuras, pois os lampies tinham sido apagados. As duas tropas encontraram-se na rua da Passagem e trocaram 
tiros. Parte das tropas do governo passou-se para os revoltosos, o general Travassos caiu ferido, Lauro Sodr desapareceu e os dois lados, um sem saber o que acontecia 
ao outro, fugiram. O general Piragibe dirigiu-se ao Catete para anunciar a debandada de suas tropas. Houve pnico e desnimo entre os chefes militares. Sugeriu-se 
ao presidente que se retirasse para um navio de guerra fundeado na baa e de l organizasse a resistncia. Rodrigues Alves recusou a proposta e mandou preparar a 
resistncia. Logo depois veio o alvio, ao se ter notcia de que os alunos tambm tinham recuado e regressado  escola.20 De manh, os cadetes se entregaram sem 
resistncia e foram recolhidos  priso. Da refrega resultaram trs mortos e vrios feridos do lado revoltoso. Do lado do governo, uns 32 feridos.
No dia 15, festa da Repblica, feriado nacional, a cidade continuava paralisada, a situao tensa. O desfile militar fora cancelado. O Paiz comeou seu noticirio 
dizendo que, esmagada a cabea da desordem, isto , sua parte militar, no havia mais razo para a continuao dos distrbios, "cujo fim no tem aceitvel explicao".
Mas eles continuavam, demonstrando independncia em relao  sublevao militar. Comearam pela madrugada
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e se prolongaram por todo o dia, no mesmo estilo da vspera. Salientaram-se novamente os redutos da Sade e do Sacramento. No primeiro, do alto de uma trincheira, 
frente ao morro da Mortona, tremulava uma bandeira vermelha. Nas imediaes do segundo, na rua Frei Caneca, erguia-se grande trincheira. Como novidade, cerca de 
600 operrios das fbricas de tecidos Corcovado e Carioca e da fbrica de meias So Carlos, todas no Jardim Botnico, fizeram barricadas e atacaram a 19 Delegacia 
Urbana, aos gritos de morra o governo e a polcia, caindo morto um cabo da guarda. As trs fbricas foram tambm atacadas e tiveram seus vidros quebrados. Continuaram 
os ataques s delegacias policiais, ao gasmetro, s casas de armas e mesmo a uma empresa funerria na Frei Caneca. Houve distrbios no Mier, Engenho de Dentro, 
Encantado, Catumbi, So Diogo, Vila Isabel, Andara, Matadouro, Aldeia Campista, Laranjeiras.
Chegaram, no dia 15, os batalhes de Minas e de So Paulo. Vieram tambm dois batalhes da fora pblica de So Paulo. O governo do estado do Rio ofereceu o auxlio 
de sua fora policial. Na Sade, a polcia pediu  Marinha que atacasse os rebeldes por mar, enquanto famlias comeavam a abandonar o bairro com receio do bombardeio. 
 tarde, estivadores e foguistas percorreram empresas de navegao intimando-as a suspender o servio e dando prazo at o dia seguinte.
No dia 16, foi decretado o estado de stio. As atenes foram dominadas pelo espectro de Porto Artur, nome dado ao que O Paiz chamou de "ltimo reduto do anarquismo".21 
Para este jornal, a Sade fora tomada por "grande nmero de indivduos desclassificados, facnoras de nfima condio, acobertados com a capa de martimos e de trabalhadores 
da estiva". Os boatos espalharam-se por toda a cidade, exagerando as dimenses de Porto Artur,
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a suposta cidadela inexpugnvel da rua da Harmonia. Dizia-se que os rebeldes contavam com bocas-de-fogo e dinamite para fazer voar pelos ares os atacantes. No centro 
da cidade, especialmente no reduto do Sacramento, continuaram as escaramuas entre a populao e a policia, embora em ponto menor do que nos dias anteriores. Vrios 
feridos resultaram dos atritos. Ao cair da noite, grandes barricadas surgiram na Frei Caneca. Tambm na Cidade Nova persistiam as aes. No Jardim Botnico houve 
assaltos a bondes; a 19 Delegacia foi abandonada pela polcia. A fbrica de tecidos Confiana Industrial, em Vila Isabel, foi atacada.
Antes do assalto final a Porto Artur, reprteres do Jornal do Commercio e O Paiz conseguiram visitar a fortaleza, que constava de barricadas ao longo de toda a rua 
da Harmonia, desde a praa da Harmonia at a esquina com a rua da Gamboa. Bondes virados, carroas, calamento arrancado, rvores e postes derrubados, lampies destrudos, 
cho coberto de latas, garrafas, colches, um bero de vime. Na barricada principal, do lado direito, na ponta de um bambu, uma bandeira vermelha. Do lado esquerdo, 
num pano branco, a inscrio: "Porto Artur". Duas casas de armas da rua Senador Pompeu tinham sido assaltadas e saqueadas. O reprter do Jornal do Commercio impressionou-se 
com "aquela multido sinistra, de homens descalos, em mangas de camisa, de armas ao ombro uns, de garruchas e navalha  mostra outros". Muitos comiam bacalhau, 
po e farinha e bebiam fartamente nas pequenas casas de comrcio. Um ex-soldado transmitia as ordens do chefe Manduca Pivete com toques de corneta.
Ainda antes do assalto, a ser feito por terra pelo 7. BI do Exrcito e por mar pelo couraado Deodoro, foi preso o mais temido chefe das barricadas, Horcio Jos 
da Silva, famoso desordeiro conhecido pelo nome de Prata
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Preta. Na luta final ainda matou um soldado do Exrcito e feriu dois da polcia. Preto, alto, de uns 30 anos, esse personagem euclidiano aterrorizava a polcia lutando 
nos lugares mais perigosos das trincheiras. Ao ser levado para a central de polcia, seria linchado pelos soldados, no fosse a interveno do chefe de polcia. 
Teve de ser colocado em camisa-de-fora e, mesmo assim, no cessou de insultar as praas e amea-las de represlias.22 Vrios cortes de espada marcavam seu corpo. 
Como armas usava dois revlveres, uma navalha e uma faca.
Pelas trs da tarde, uma tropa da Marinha desembarcou perto do Moinho Ingls e tomou uma primeira trincheira. Aproximou-se, ento, o Deodoro, enquanto a tropa do 
Exrcito avanava pelo morro da Mortona. Notou, a essa altura, a tropa que as trincheiras tinham sido totalmente abandonadas. Verificou-se tambm que as famosas 
dinamites no passavam de um engodo: pedaos de madeira envoltos em papel prateado, dependurados por arames em tomo das trincheiras. A famosa boca-de-fogo tambm 
no passava de um cano de iluminao pblica colocado sobre duas rodas de carroa. Segundo O Paiz, alguns presos da Sade declararam no residir no local, mas terem 
sido para l enviados por "gente de juzo". Com alguns teriam sido encontradas libras esterlinas em abundncia. A Tribuna relata que Beio de Prata, um informante 
da polcia, havia penetrado no reduto antes da queda, fazendo-se passar por revoltoso. L teria ouvido vagamente que Vicente de Souza seria o instigador e financiador 
do movimento. Haveria tambm um funcionrio do Moinho Ingls envolvido e alguns negociantes do bairro, que forneciam dinheiro e alimentos. No havia chefe nico: 
a chefia era exercida por dois ou trs dos mais valentes, entre os quais Manduca Pivete.
Alguns dos revoltosos, ainda segundo Beio de Prata,
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eram velhos conhecidos da Deteno, como Bombacha, Chico da Baiana e Valente.23
O primeiro-secretrio da Sociedade Unio Operria dos Estivadores, Belisrio Pereira de Souza, procurou O Paiz e disse que a associao nada tinha a ver com as desordens. 
Tinha interrompido as atividades por falta de garantias, como tambm o havia feito o Centro Geral dos Foguistas. Voltaria logo que houvesse garantias. Afirmou tambm 
que os desordeiros da Sade no tinham ligaes com os estivadores, muitos eram desconhecidos no local, e, ainda, que a interrupo do trabalho nada tinha a ver 
com as paralisaes dos portos de Buenos Aires e Montevidu. A noite, Belisrio procurou o chefe de polcia e pediu proteo para que os estivadores pudessem trabalhar 
no dia seguinte. O Arsenal da Marinha foi avisado a fim de providenciar a proteo. Segundo o Jornal do Commercio, Belisrio teria ainda dito que sua associao 
nada tinha a ver com o Centro das Classes Operrias e que no se prestava a exploraes.24
No dia 18, a cidade voltava quase totalmente ao normal. Houve apenas tiroteio numa pedreira do Catete, de que resultaram um civil e dois soldados mortos, alm de 
80 presos. Os delegados de polcia comearam a varrer os territrios sob sua jurisdio, prendendo os suspeitos e os que consideravam desordeiros, tivessem ou no 
relao com o levante. Segundo o Jornal do Commercio, "desordeiros, gatunos e vagabundos tm sido colhidos nas malhas da polcia"; no dia anterior (17) cerca de 
200 tinham sido remetidos para a ilha das Cobras. No dia 19, foi ainda atacada a fbrica Luz Sterica, e vrios lampies foram quebrados em So Cristvo, Bonfim 
e Ponta do Caju. Na lista de presos enviados nesse dia para a ilha das Cobras, O Paiz menciona alguns dos chefes que atuavam nas ruas Visconde de Itana, Visconde 
de Sapuca,
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Visconde de So Leopoldo e outras: Chico Maluco, Joo Galego, Manduca de Luto. No dia 20, houve grande nmero de prises na Gvea. No dia seguinte, o nmero de presos 
na ilha das Cobras j chegava a 543. Nesse dia, o ministro da Justia recebeu denncia de que teriam embarcado para o Rio "trs perigosos anarquistas" com o intuito 
de agitar a classe operria e mandou tomar providncias para impedir o desembarque. Como ato final, no dia 23, a polcia fez grande batida no morro da Favela, mobilizando 
180 soldados. Os 100 casebres do morro foram varejados, sem que fosse encontrada uma s pessoa. Para no perder a viagem, na volta a tropa revistou casas de cmodos 
e prendeu vrias pessoas. J havia, ento, na ilha mais de 700 presos.

OS REVOLTOSOS
Descrita a revolta, a primeira pergunta a ser feita  sobre a identidade dos revoltosos. Grande parte da historiografia sobre multides insurgentes  dedicada a 
esclarecer este ponto. O historiador brasileiro se v aqui em grande desvantagem em relao, por exemplo, aos estudiosos das revoltas parisienses. A grande fonte 
de informao para estes estudiosos so os arquivos policiais e, sobretudo, os arquivos judiciais. Os processos no s fornecem nomes e caractersticas sociais, 
como tambm informaes sobre as idias e valores dos revoltosos. No Brasil, em casos de revoltas populares, nunca havia processo contra o grosso dos presos. Processavam-se 
apenas os lderes, muitas vezes elementos da elite. Os restantes eram simplesmente colocados em navio e desterrados para algum ponto remoto. Nem mesmo passavam pela 
Casa de Deteno, onde teriam ficado registrados seus dados pessoais.25
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Em 1904, dentre os civis, apenas quatro foram processados  A. Varela, Vicente de Souza, Pinto de Andrade e Arthur Rodrigues. Dos outros 945 presos, uns foram soltos, 
outros deportados sem processo. No nos foi possvel recuperar nem ao menos os nomes de todos. Na ausncia de processos, restam como fontes os jornais e revistas 
da poca, depoimentos de testemunhas oculares e breves relatrios policiais. So fontes que exigem cuidado especial, pois podem traduzir antes uma imagem que se 
quer transmitir dos revoltosos do que descrio precisa deles. Mas mesmo como, imaginrio elas so elementos importantes de entendimento e podem servir-nos de ponto 
de partida.
Os jornais da poca, em especial os mais envolvidos, como o Correio da Manh e O Paiz, transmitem-nos duas verses que correspondem bem ao que tradicionalmente tm 
sido as vises liberal e conservadora das revoltas populares.26 O Correio da Manh sempre se refere  massa popular de maneira algo abstrata, como "o povo", "os 
populares". Apenas em duas ocasies especifica um pouco. Na segunda reunio do Centro das Classes Operrias, fala em todas as classes, estudantes, operrios, comerciantes, 
militares; no dia 11 menciona a atuao de garotos que pareciam da classe operria. Interessava-lhe demonstrar a identidade social e de interesses entre a populao 
em geral e os militares, a fim de legitimar a tomada de poder pelos ltimos.27
O Paiz hesita um pouco na caracterizao dos rebeldes. Antes do incio das hostilidades, empenhado em evit-las, fala na ao dos conspiradores, querendo enganar 
a parte menos culta da populao. Comeado o conflito, predominam os termos mazorqueiros, desordeiros, arruaceiros, desocupados. Logo aps o frustrado levante militar, 
refere-se a povo, populares, operrios e "pobre gente explorada,
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exceto o pessoal da Sade, que seria composto de facnoras disfarados de martimos. Os presos no final seriam, segundo o jornal, vagabundos e desordeiros. A tendncia 
geral, refletindo posio governista moderada, era ver a revolta como explorao inescrupulosa da populao ignorante por parte de polticos e militares ambiciosos 
e atribuir a ao de rua s classes perigosas.28
A verso mais radical desta viso pode ser encontrada, como era de esperar, no relatrio do chefe de polcia, Cardoso de Castro. Segundo ele, o povo do Rio era ordeiro 
e no se envolvera nos distrbios. A mazorca, liderada na rua por Vicente de Souza, fora obra de uns dois mil vagabundos recalcitrantes, presos e condenados vrias 
vezes, que fingiam de povo. Fora obra do "rebotalho ou das fezes sociais", do facnora, do ladro, do desordeiro de profisso, do brio habitual, da meretriz, do 
cften, do jogador, do vagabundo e do vadio. O povo verdadeiro, o verdadeiro operrio, tinha ficado  margem dos acontecimentos.29
Rui Barbosa, tambm sem surpresa, no fica muito longe desta verso. A reao contra a vacina era justa, dizia, mas fora deturpada, resultando em "bodas adulterinas 
da arruaa com o pronunciamento". O verdadeiro povo ter-se-ia recolhido ao interior dos lares, pois ele  resignado, submisso e fatalista. As massas incultas  que 
se teriam deixado levar  mazorca. Esta  ainda a verso de Olavo Bilac. A revolta, segundo ele, fora obra da "matula desenfreada" e dos ignorantes explorados pelos 
astutos. A diferena com Rui  que, para Bilac, os ignorantes definiam-se pela alfabetizao e, portanto, constituam a grande massa da populao, uma "turba-multa 
irresponsvel de analfabetos". Jos Vieira  um pouco mais preciso. Fala em garotos vendedores de jornais, garotos de cortio, operrios desocupados, capangas de 
polticos e
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vagabundos da Sade, todos promovidos a povo pelos conspiradores. No incio, diz ter havido tambm a participao de "vagabundos de gravata", que se aproveitavam 
da situao para atirar sua pedra e dar seu tiro de revlver.30
Finalmente, h a verso de Vicente de Souza. Preocupado em eximir-se de qualquer responsabilidade, ele afirma, em sua defesa escrita, que a reao  vacina foi iniciativa 
popular irresistvel que ningum poderia nem impelir nem deter. Admite, n entanto, que elementos violentos e belicosos da populao, os afeioados  desordem, a 
"classe temerosa", se tenham aproveitado da oportunidade para incrementar a luta e agravar a situao. No faz meno alguma  participao dos operrios em geral, 
ou dos associados do Centro das Classes Operrias em particular.31
Com exceo, portanto, dos participantes e simpatizantes, que viam o povo em geral envolvido conscientemente na revolta, os outros depoentes ou no viam entre os 
rebeldes o que consideravam povo, ou definiam o povo envolvido como ignorante e manipulado. A primeira viso, no fosse interessada, tenderia para a abstrao e 
o romantismo; a segunda trai a incapacidade de representantes do governo e de elementos da elite educada em ver legitimidade e poder de discernimento no comportamento 
poltico da massa.  primeira no interessava discriminar possveis diversidades de interesses e de grupos participantes, pois o objetivo primeiro era a ao poltica 
contra o governo. Para a segunda, era necessrio deslegitimar a ao rebelde pela desclassificao social e poltica de seus promotores. Embora ambas pouco esclaream 
sobre os revoltosos, esclarecem muito sobre a poltica e a sociedade em que eles viviam e a que reagiam.
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H outras fontes que nos podem levar um pouco mais adiante. Comecemos pelo relatrio do chefe de polcia. H nele alguma informao sobre os presos. Foram detidas 
ao todo 945 pessoas. Destas, 461, depois de terem sido identificadas como possuindo antecedentes criminais, foram deportadas. As restantes 484 foram soltas. Segundo 
o chefe de polcia, os arquivos da Casa de Deteno informavam que os 461 deportados possuam 949 nomes e haviam sido presos 1852 vezes, das quais 1535 por contraveno 
e 317 por crime (141 contra a pessoa, 176 contra a propriedade). Para o exterior foram deportados, por sentena, sete estrangeiros.32
A preciso numrica destas informaes indica, provavelmente, que so fidedignas, isto , que os deportados foram de fato pessoas com alguma passagem pela Deteno, 
contraventores na maior parte. O prprio chefe de polcia confessou, e os jornais o atestam, que no final da revolta foi feita uma limpeza na cidade para prender 
os que a polcia considerava vagabundos. Quando este agente do governo fala, por exemplo, nos dois mil vagabundos recalcitrantes, ele est sem dvida se baseando 
nas estatsticas criminais de 1904, que indicam a priso de 2 128 pessoas por vadiagem e 73 por capoeiragem. Mas essas pessoas foram presas principalmente aps a 
revolta, e no h indicao de que prova ou suspeita de participao tivessem sido o motivo da priso. Mesmo admitindose que muitas delas tivessem participado, e 
tudo faz crer que o fizeram, permanece o problema de quem eram os outros participantes, os 484 que foram soltos e os milhares que no chegaram a ser presos.
Recorramos a outra fonte: os dados sobre mortos e feridos que esto resumidos nas tabelas VI e VII.33 Um quadro diferente comea a aparecer nestas tabelas. H nelas 
representao desproporcional de operrios e estrangeiros.
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Tabela VI
Mortos e feridos civis, por nacionalidade
Nacionalidade: Brasileiros  Mortos: 16  Feridos: 48 -  Total: 64
Nacionalidade: Portugueses  Mortos: 5  Feridos: 12 -  Total: 17
Nacionalidade: Outros estrangeiros  Mortos: 2  Feridos: 7  - Total: 9
Total Geral  Mortos: 23  Feridos: 67 -  Total: 90
Fonte: Jornal do Commercio, O Paiz, Jornal do Brasil. Levantamento feito por Pedro Paulo Soares.

Tabela VIl
Mortos e feridos civis, por ocupao
Ocupao: Operrios em transporte por terra  Mortos: 4  Feridos: 9  Total: 13
Ocupao: Martimos  Mortos: 1  Feridos: 4  Total: 5
Ocupao: Outros operrios  Mortos: 7  Feridos: 11  Total: 18
Ocupao: Subtotal  Mortos: 12  Feridos: 24  Total: 36
Ocupao: No-operrios  Mortos: 2  Feridos: 10  Total: 12
Ocupao: Sem indicao  Mortos: 9  Feridos: 33  Total: 42
Total Geral  Mortos: 23  Feridos: 67  Total: 90
Fonte: Jornal do Commercio, O Paiz, Jornal do Brasil. Levantamento feito por Pedro Paulo Soares.

Os operrios so 70,6% dos feridos e 85,7% dos mortos para os quais existe informao de ocupao; os estrangeiros so 27,5% dos feridos e 31,8% dos mortos. A desproporo 
pode ser demonstrada pelos dados do censo de 1906, que do para a populao total do Rio a participao de 20% de operrios (includos a trabalhadores
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na indstria, no transporte e no comrcio) e de 26% de estrangeiros. Entre os operrios, h super-representao dos empregados no transporte terrestre  36% dos 
operrios vitimados , ao passo que representavam em 1906 apenas 8,7% do operariado como definido acima.34
A presena significativa de operrios entre s vtimas  coerente com o que foi visto na descrio da revolta.  tambm compatvel com o esforo de mobilizao do 
Centro das Classes Operrias. Exame mais detido das peties enviadas  Cmara esclarece um pouco mais este ponto. No supomos, naturalmente, que todos os que assinaram 
as listas participaram da revolta. Mas no ser exagerado supor que fossem todos simpticos ao movimento e que, no calor da refrega, alguns pelo menos tenham tomado 
parte dando sua vaia, jogando sua pedra, ajudando a virar um bonde, quebrando um combustor, ou mesmo dando seu tiro de revlver. No ambiente daquelas jornadas seria 
mesmo difcil resistir  tentao de vaiar o ministro da Justia ou de jogar pedra na polcia. Os dados das listas * esto na tabela VIII.
A tabela VIII revela amplo espectro da classe operria, salientando-se os operrios do Estado, os martimos, os do transporte urbano. Os primeiros aparecem em listas 
dos Arsenais da Marinha e, do Exrcito, da Imprensa Nacional, da Casa da Moeda e da Alfndega. Os martimos so na maioria do Novo Lloyd e da Cantareira. Entre
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os do transporte terrestre esto os da So Cristvo, da Carris Urbanos, alm de cocheiros e carroceiros avulsos.

* As listas apresentam dificuldades de interpretao. Vrias foram organizadas por fbricas ou por associaes operrias. Nestes casos, a ocupao dos signatrios 
foi inferida do tipo de fbricas ou associao a que pertenciam. O problema  que nem sempre  claro onde termina a lista de uma empresa ou associao operria e 
onde comea outra. H tambm listas avulsas que so compostas quase exclusivamente de operrios. Outras listas avulsas no indicam ocupao.




Tabela VIII
Representaes enviadas  Cmara, por ocupao dos assinantes, 1904 
Ocupao: Operrios do Estado  Nmero de assinantes: 1187
Ocupao: Operrios em fbricas de tecidos  Nmero de assinantes: 661
Ocupao: Martimos  Nmero de assinantes: 1055
Ocupao: Gasistas e bombeiros  Nmero de assinantes: 808
Ocupao: Operrios da Construo civil  Nmero de assinantes: 647
Ocupao: Transporte terrestre - Nmero de assinantes: 1058
Ocupao:  Mobilirio  Nmero de assinantes: 704
Ocupao: Outros operrios  Nmero de assinantes: 1508
Ocupao: Listas avulsas de operrios diversos  Nmero de assinantes: 2493
Total de Operrios  Nmero de assinantes: 10121
Ocupao Militares  Nmero de assinantes: 78
Ocupao: Sem indicao de ocupao  Nmero  de assinantes: 4613
Total Geral  nmero de assinantes: 14812
Fonte: ANAIS DA CAMARA DOS DEPUTADOS, 1904. v. IV, p. 374-422, 695-7; v. V. p. 13-70; v. VI, p. 86-114. 169-79.

No dia 11 de novembro, j iniciadas as manifestaes, outras associaes de classe alm do Centro das Classes Operrias hipotecaram apoio ao movimento. Foram elas 
a Associao de Classe Unio dos Estucadores, o Centro Internacional dos Pintores, a Associao de Classe Unio dos Chapeleiros, a Associao de Classe Unio dos 
Pedreiros, a Associao de Resistncia dos Marinheiros e Remadores, a Associao de Classe Unio dos Cigarreiros
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e Charuteiros, a Sociedade de Carpinteiros e Artes Correlatas e o Centro Geral dos Foguistas. Todas estas, menos a ltima, aderiram no ao protesto organizado pelo 
Centro, mas  Nota da Federao das Associaes de Classe, fundada em 1903, ligada aos setores mais agressivos do operariado.35 Indicador de que o apoio deste grupo 
no foi apenas retrico est no fato de que um dos membros da diretoria da Associao de Resistncia dos Marinheiros e Remadores, Jlio Schmidt, foi ferido na Sade 
no dia 14.
Um pouco mais de luz sobre este ponto pode ser obtido atravs do exame do comportamento operrio no ano que precedeu a revolta. Em maio houve o primeiro grande desfile 
operrio que o chefe de polcia calculou ter mobilizado 20 mil pessoas. Em agosto houve o primeiro ensaio de greve geral na histria da cidade. A greve teve incio 
em 11 de agosto na fbrica de tecidos Cruzeiro. Reivindicavam-se aumento salarial e reduo das horas de trabalho. Aos poucos o movimento espalhou-se por quase todas 
as grandes fbricas de tecidos. Praticamente todas pararam, embora algumas, como a Bangu, o tivessem feito para evitar represlias. No dia 17 de agosto j se falava 
em greve geral de todas as categorias. Aderiram canteiros, pedreiros, charuteiros, sapateiros, chapeleiros, alfaiates, pintores, catraieiros, estivadores, carregadores 
de caf. As fbricas Carioca e Luz Sterica foram atacadas. Perto da Carioca, no Jardim Botnico, houve srio tiroteio entre operrios e policiais. A vila operria 
Casas do Saneamento foi cercada e 40 operrios foram presos. Houve ainda tiroteios perto da Aliana, nas Laranjeiras. Combustores de gs foram apagados e quebrados 
em Vila Isabel, Laranjeiras e Cosme Velho. Cocheiros e canteiros atacaram carroas dos que insistiam em trabalhar. Algumas fbricas foram ameaadas com dinamite 
caso no fechassem
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as portas. A polcia perdeu o controle da situao e a guarda das fbricas foi entregue ao Exrcito. O movimento durou at 2 de setembro. Em 15 de setembro, os cocheiros 
e condutores da So Cristvo e da Carris Urbanos entraram, por sua vez, em greve.36
Durante o movimento, duas categorias que ameaavam greve chegaram a acordo com os patres atravs da mediao de Vicente de Souza. Foram elas os operrios da Societ 
Anonyme du Gaz e os do Lloyd. No caso da Societ, o presidente do Centro conversou tanto com os donos da companhia como com o ministro da Indstria, Viao e Obras 
Pblicas, Lauro Mller. Houve outros acordos, mas aparentemente no nas fbricas de tecidos.37 A diviso do movimento operrio ficou clara. De um lado, estava o 
Centro, que manteve a linha tradicional de soluo dos conflitos atravs de acordos com as autoridades. De outro, as associaes operrias de postura mais radical, 
contrrias  interferncia da poltica, que logo depois fundariam a Federao das Associaes de Classe. Uma terceira fora era a Federao de Operrios e Operrias 
em Fbricas de Tecidos, fundada durante a greve, de postura tambm mais agressiva. As trs vertentes correspondiam de modo geral aos trs principais setores do operariado: 
operrios do Estado, artesos e trabalhadores fabris.
Particularmente agudo tornou-se o conflito entre o Centro e a Federao das Associaes de Classe. A principal divergncia dos dois grupos era em torno da natureza 
do movimento operrio. O Centro tinha laos estreitos com polticos e sempre recorria  mediao poltica. Vicente de Souza candidatou-se mesmo a deputado em 1903. 
A Federao, pelo contrrio, insistia em separar as relaes industriais da poltica, rejeitava a interferncia de polticos e de elementos burgueses em geral no 
movimento.
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Sua organizao mesma se baseara no modelo anarco-sindicalista da CGT francesa. J na greve, antes de sua criao, os traos anarquistas se tinham feito sentir. 
Um boletim dirigido "Ao Povo" criticava violentamente a polcia, dizendo ser ela incapaz de resolver os assuntos econmicos entre patres e operrios. O final do 
boletim era um grito de guerra anarquista: "As vossas violncias e arbitrariedades responderemos com a dinamite e o petrleo. Vida por vida, dente por dente!".38 
Em 1905 a Federao tornou-se a Federao Operria Regional do Rio de Janeiro, sob inspirao da FORA argentina, abertamente anarquista.39
 luz dessas informaes, fica mais fcil decifrar a participao operria na revolta de 1904. No ser uma resposta definitiva, pois alguns pontos importantes permanecem 
obscuros. No fica claro, por exemplo, se houve greves durante a revolta. H apenas referncia algo confusa  parede dos estivadores. No se sabe tambm se as fbricas 
estavam paradas por causa de greves ou por impossibilidade de funcionar. Com essas ressalvas, no entanto, podemos tentar reconstituir o que teria sido a participao 
operria no movimento.
O principal esforo de mobilizao foi feito pelo Centro, que organizou as peties, a Liga contra a Vacina Obrigatria e os comcios. Foi o Centro o principal responsvel 
por levar para a rua a oposio feita na Cmara e nos jornais. A motivao bsica de seus lderes era poltica e reformista, isto , preparar as condies para o 
golpe de Estado que levaria ao poder governantes mais sensveis s demandas populares. Vicente de Souza pertencia  linha socialista que vinha de Frana e Silva, 
mas j se desencantara da possibilidade de atuao eficaz atravs de partidos polticos e aderira ao estilo golpista de implementar reformas inaugurado em 1889. 
O Partido Socialista
Pg. 123
Coletivista que fundara em 1902 no dera em nada.
Seguiam-no os operrios do Estado, martimos e setores moderados em geral. Em 1905, ao ser posto em liberdade, o Centro convidou para celebrar a ocasio os ferrovirios, 
maquinistas, foguistas, estivadores, gasistas, empregados em padarias e hotelaria. A nica associao mais agressiva que entrou na lista dos convites foi o Congresso 
Unio dos Operrios das Pedreiras.40
Os artesos e txteis tambm apoiaram o movimento.  Assinaram as peties em grande nmero e alguns com certeza tomaram parte na ao de rua.41 A lista de adeso 
referida acima era formada basicamente dos artesos que tinham aderido  greve de 1903. Os txteis tiveram inequvoca participao atravs dos ataques s fbricas 
de tecidos. Mas  certo que estes dois grupos discordavam das motivaes do primeiro. Alguns dias aps a revolta, o secretrio da Federao enviou carta  imprensa 
criticando o Centro mais uma vez e acusando-o de ser antes um clube poltico do que uma organizao de trabalhadores. No foi tambm por acaso que os ataques s 
fbricas se deram aps a derrota da conspirao militar. Havia provavelmente a inteno de dissociar os dois movimentos, de rejeitar as maquinaes polticas de 
Vicente de Souza.
Resumindo, a composio da multido variou de acordo com o desenrolar da revolta. De incio o leque era amplo, incluindo, como dizia o Correio da Manh, operrios, 
comerciantes, estudantes, militares, pivetes. Fracassado o golpe que unia militares e o Centro, a ao passou a ser comandada por operrios de grandes empresas, 
de um lado, e pelas classes perigosas do outro, estas ltimas concentradas nos redutos da Sade e do Sacramento. Apesar do estopim nico, tratava-se de revolta fragmentada,
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como era fragmentada a prpria sociedade do Rio na poca.
A origem social dos participantes  o ponto em que a revolta de 1904 mais se distancia, por exemplo, das rebelies parisienses do sculo XIX.  verdade que as ltimas 
tambm se caracterizavam pela existncia de um povo algo indiferenciado, em que se misturavam profissionais liberais, pequenos comerciantes, criados e artesos, 
alm das classes perigosas  condenados, vagabundos, pequenos delinquentes. A espinha dorsal destes movimentos, no entanto, era sempre formada por artesos, trabalhadores 
qualificados, em especial os da construo civil e da confeco. Em 1848 comearam a aparecer ferrovirios e metalrgicos. Mas, mesmo na Comuna, que j foi predominantemente 
uma insurreio operria e que foi chamada por J. Rougerie de primeira revoluo do sculo XX, dominou ainda o operrio qualificado e o de pequenas indstrias.42 
Os artesos, com suas slidas organizaes e sua nova conscincia gestada na dcada de 1830, aliados aos pequeno-burgueses, tambm organizados em clubes, e aos novos 
setores do operariado, davam o tom e a pujana dos movimentos parisienses.
No Rio de 1904, em tamanho uma cidade semelhante  Paris da metade do sculo XIX, o setor popular era em parte j mais moderno devido  presena das grandes fbricas, 
mas no tinha a tradio de organizao e luta dos artesos, impossvel de formar-se em sociedade escravista. Tinha, por outro lado, um setor operrio estatal forte 
e uma enorme populao de subempregados. Tudo isso resultava em maior fragmentao do setor popular, que se manifestava inclusive nas revoltas. Essa diferena pode 
ser uma das explicaes para o grau muito maior da violncia das revoltas parisienses, a que correspondia tambm represso mais cruenta. A ttulo de ilustrao,
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fornecemos na tabela IX uma comparao entre algumas revoltas parisienses e a revolta de 1904.
Tabela lX
Mortos e feridos em revoltas populares, Paris e Rio de Janeiro

Paris:  Feridos: 1830: 1327  1832: 490  1839 : 123  1848: * - 1871: * - Feridos: Rio de Janeiro  Feridos  1904: 110
Paris:  Mortos: 1830: 211  1832: 150  1839 : 84  1848:1500  1871: 25000 -   Mortos:  Rio de Janeiro  Mortos  1904: 30
Paris:  Total: 1830: 1538  1832: 640  1839 : 207  1848: 1500 - 1871:2500  Total: Rio de Janeiro 1904: 140
Paris:  Presos: 1830: *  1832: *  1839 : 239  1848: 15000 - 1871: 38578  Rio  de Janeiro  Presos  1904: 945
Paris:  Deportados: 1830:  1832:  1839 :  1848: 4383  1871:  5000  Rio de Janeiro  Deportados  1904: 110
 Fonte; Veja nota 42.
* Sem dados.
 Clculo aproximado de Martin R. Waldman (veja nota 42). As estimativasvariam de 4 500 a 50 000.
2 Excludos os detidos por motivos menores e soltos logo a seguir.
3 inclui baixas civis e militares.

OS MOTIVOS
Outro tema que tem intrigado e dividido os estudiosos das rebelies populares  o da motivao que teria levado os revoltosos  ao. O ponto  crucial para nossa 
anlise, pois  atravs do exame das motivaes que poderemos tambm penetrar no universo de valores de boa parte da populao do Rio, em sua viso do papel do governo 
e dos direitos do cidado.
No havendo documentos escritos que nos permitam deduzir as razes dos revoltosos, recorremos  linguagem da prpria revolta, especialmente  linguagem da ao, 
que muitas vezes  mais reveladora que a das palavras. A
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histria dos movimentos populares do Rio tambm poder fornecer elementos de explicao.
H consenso na historiografia de que se preparava um assalto ao poder por parte de militares que representavam um resduo do jacobinismo florianista. H tambm acordo 
sobre a liderana deste movimento e sobre seus principais sustentadores. O tenente-coronel Lauro Sodr era o chefe, apoiado nas Escolas Militares. Outros lderes 
tinham inequvoca tradio florianista e jacobina, como o major Barbosa Lima, Barata Ribeiro e mesmo Vicente de Souza; Varela era castilhista, vale dizer, farinha 
do mesmo saco. Lauro Sodr e Barbosa Lima deixavam claro em seus discursos qual era o seu objetivo: acabar com a repblica dos fazendeiros, com a repblica prostituda, 
restaurar-lhe a pureza que para eles se encarnara em Benjamin Constant e Floriano Peixoto. Os vivas propostos ao povo por Lauro Sodr, indicando a direo que dava 
 revolta, eram para a Repblica.
O apelo  regenerao da Repblica, no entanto, era por demais abstrato para arrastar a multido  rua. A poltica oficial passava no Rio muito longe das preocupaes 
da massa do povo. Por outro lado, para o xito da empresa era necessrio ter algum apoio popular, seja para legitimar o golpe, seja para criar condies psicolgicas 
a fim de convencer os indecisos no meio da prpria elite, civil ou militar. O modelo de tal ao fora o prprio 15 de Novembro, quando se atribuiu aos lderes civis 
republicanos a tarefa de mobilizar o povo enquanto os militares providenciavam a derrubada do governo. J antes da Repblica, na Revolta do Vintm de 1880, uma espcie 
de verso em ponto menor da Revolta da Vacina, houvera a explorao de tema popular  a reao ao novo imposto sobre passagens de bonde  por parte de lderes republicanos, 
como Lopes Trovo e Jos do Patrocnio.
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No havia na poca a possibilidade de tomada do poder, pois a base do movimento era puramente popular, sem apoio militar. Mas o balano final foi sem dvida danoso 
para a legitimidade do sistema imperial.43
Aps o 15 de Novembro, o modelo foi aplicado vrias vezes. O tenente Vinhaes desde o incio se especializou em mobilizar setores do operariado, especialmente os 
do transporte urbano, ferrovirio e martimo, em greves que muitas vezes tinham cunho poltico. O episdio que, sob este aspecto, mais se aproxima de 1904 foi a 
tentativa de golpe de maro de 1900, engenhada por Vinhaes e mais dois tenentes da Marinha, com o apoio dos monarquistas. Os monarquistas forneceram 150 contos de 
ris com os  quais os tenentes Costa Mendes e Vinhaes tentaram comprar a participao de militares e operrios. O plano inclua uma greve de ferrovirios, estivadores, 
corroceiros e cocheiros, a cargo de Vinhaes. Os grevistas deveriam concentrar-se na Prainha, de onde marchariam em triunfo para o Catete, que, a esta hora, j estaria 
nas mos dos lderes da revolta. Seriam incendiados vrios pontos da cidade para distrair a ao do governo. Pensou-se mesmo em usar capoeiras para prender o presidente 
do estado do Rio. A conspirao foi denunciada e falhou.44
No governo Rodrigues Alves j houvera uma tentativa de manipular a questo da compra do Acre como tema para campanha oposicionista. A assinatura do tratado de Petrpolis 
em novembro de 1903 causou grande oposio no Congresso, a que se juntou a imprensa atravs de Edmundo Bittencourt, diretor do Correio da Manh, Mas a acusao de 
"cesso de territrio" estava tambm por demais distante do povo para conseguir mobiliz-lo.45 A vacina, pelo contrrio, mostrou-se tema explosivo, apesar de j 
ser conhecida no Brasil h cem anos e de se terem
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vacinado no Rio mais de 150 mil pessoas entre 1846 e 1889. Isso  que deve ser explicado.
Uma das explicaes afirma que a vacina foi apenas pretexto.  A revolta de 1904 teria sido de natureza essencialmente econmica.  Suas "verdadeiras" origens estariam 
na indiferena do governo em relao aos sofrimentos da populao.46 A tese nos parece duvidosa.  verdade que o governo de Campos Sales deixara o pas em crise 
geral. Mas, como j vimos, o novo governo iniciara a retomada do crescimento. Alm da queda dos preos, que comeou em 1898, os grandes programas de obras pblicas 
e de saneamento, concentrados no Rio de Janeiro, tinham aumentado em muito a oferta de empregos. Somando-se o servio de saneamento s obras do porto, da avenida 
Central, do canal do Mangue, e mais ainda a Guarda Civil (criada em 1904), teremos a criao de pelo menos oito mil novos empregos. Sendo empregos que na maior parte 
no exigiam mo-de-obra qualificada, o grosso da populao deve ter sido beneficiado.47 No seria tambm fora de propsito supor que a reativao industrial iniciada 
em 1903 tivesse igualmente resultado em absoro de mo-de-obra. No comportamento dos revoltosos a nica indicao de possvel motivao econmica estaria nos ataques 
a fbricas. Poderiam estar a agindo os operrios que no tinham conseguido acordos na greve de 1903.
Outra explicao atribui a razo da revolta  reforma urbana. Mas a reforma no aparece como objeto da ira popular. Pereira Passos e Paulo de Frontin foram poupados, 
as representaes operrias no a mencionam, a ao da massa tambm no parece vis-la. Uma das poucas referncias  reforma que nos foi possvel localizar em jornal 
operrio no  de crtica s obras em si, mas antes reclamao contra a explorao dos que nelas trabalhavam. O Libertrio, jornal anarquista, considera as obras
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"melhoramento material de incontestvel valor", julgando ridculo o salrio e excessivo o trabalho noturno. De fato, a irritao maior do comentarista  contra o 
que chama de passividade e inconscincia dos trabalhadores que tinham feito festa para Paulo de Frontin no dia da inaugurao do eixo central: "Irra! j  no ter 
conscincia".48
Os dois redutos da revolta, Sade e Sacramento, tambm no foram reas atingidas de maneira significativa pelas reformas. Apenas pequena parte da avenida Central 
localizava-se em Sacramento e quase nada da Sade fora afetado em termos de derrubada de casas. Uma hiptese alternativa seria ter para essas reas se deslocado 
a populao expulsa pelo bota-abaixo. Mas aqui tambm os dados vo em outra direo. Entre 1890 e 1906, enquanto a populao da cidade aumentava em 55% e a de alguns 
bairros, como o de Inhama, em quase 300%, a de Sacramento reduzia-se em 20% e a de Santa Rita, onde se localizava a Sade, crescia apenas 5%. A ao de alguns comerciantes 
distribuindo dinheiro e querosene para os queimadores de bondes  o que mais se aproxima de uma reao  reforma de Pereira Passos, que ferira seus interesses no 
s atravs das desapropriaes como tambm dos aumentos de impostos e taxas. Um ano antes da revolta, uma comisso de proprietrios de imveis pedira a Rodrigues 
Alves a sada do prefeito.49
 A expIicao mais bvia , naturalmente, que o motivo da  revolta foi a obrigatoriedade da vacina. H evidncia da grande irritao popular com a atuao do governo 
na rea da sade pblica, de modo especial no que se refere  vistoria e desinfeco das casas. As charges dos jornais e revistas documentam amplamente a crtica 
a essas atividades. Nas justificativas dos abaixo-assinados enviados  Cmara por operrios mencionou-se mais de uma vez como motivo de queixas a invaso das casas, 
a
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exigncia de sada dos moradores para desinfeco, o dano causado aos utenslios domsticos. No h como negar tambm o medo desenvolvido em relao  vacina propriamente 
dita. A oposio se manifestou em discursos, abaixo-assinados, artigos, panfletos, charges, palavras de ordem. Compulsando-se a coletnea de caricaturas compilada 
pelo prprio Oswaldo Cruz, tem-se a impresso de que o combate  vacina foi a primeira campanha publicitria de xito no pas.50 De acordo com uma verso dos acontecimentos, 
a revolta teria comeado com uma vaia dirigida contra Oswaldo Cruz.51 Morras  vacina foram comuns no incio da revolta. O Correio da Manh menciona morras a Oswaldo 
Cruz no dia 13.
A oposio perpassou a sociedade de alto a baixo. Sua natureza, no entanto, mudou de acordo com as vrias camadas que nela se envolveram. No que se refere ao povo, 
a parte que nos interessa aqui de modo especial, a oposio adquiriu aos poucos carter moralista. De incio, os lderes da oposio apelavam principalmente para 
os perigos reais ou imaginrios que cercavam a vacinao. Barbosa Lima e outros faziam verdadeiro terrorismo sobre tais perigos. Mas o que talvez mais tenha atingido 
a populao foi o tom moralista emprestado  campanha, j visvel no discurso de Vicente de Souza no dia 5 de novembro. Buscou-se ento explorar a idia da invaso 
do lar e da ofensa  honra do chefe de famlia ausente ao se obrigarem suas filhas e mulher a se desnudarem perante estranhos. A expresso "messalina" usada por 
Vicente de Souza na reunio do Centro deve ter tido efeito devastador. Mais ainda, a propaganda enveredou por uma autntica escalada ertico-anatmica  brasileira. 
A vacina era aplicada nos braos com a ajuda de uma lanceta. Barbosa Lima comeou a enfatizar a possibilidade da aplicao da vacina na coxa.52 Os oradores de comcio 
e incitadores
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da revolta foram mais longe. Segundo depoimento a O Paiz, os lderes da revolta espalhavam agentes pelos centros populares com o fim de salientarem os perigos da 
vacina e dizerem que seria aplicada nas coxas das mulheres e filhas, junto  virilha. Jos Vieira, em seu O Bota-Abaixo, romance que, pelo fato de ter sido o autor 
testemunha ocular, merece ser tratado como fonte fidedigna, informa que os oradores dos comcios do largo de So Francisco repetiam frases de Barbosa Lima e do Correio 
da Manh e diziam que em breve cafajestes de esmeralda invadiriam os lares para inocular o veneno sacrlego nas ndegas das esposas e das filhas".53
Exemplo da eficcia de tais argumentos  fornecido por Barata Ribeiro no Senado. Encontrara, como mdico um velho que no admitia de modo algum que o governo pegasse 
no brao de sua filha "para macul-lo".54 A charge reproduzida no caderno de fotos mostra como chegou  populao analfabeta a verso moralista da campanha positivista. 
O impacto da campanha foi devastador. A prova est nas estatsticas que reproduzimos na tabela X.




tabela X
vacinaces e revacinaes no Rio de Janeiro
                                                       
ms: maio -  vacinaes 3 120; revacinaes 5 080;  total 8 200
Junho -  vacinaes 5710; revacinaes 12 556;  total 18 266
Julho -  vacinaes 6 387; revacinaes 16 634;  total 23 021
Agosto -  vacinaes 1 617; revacinaes 4 419;  total 6 036
Setembro  -  vacinaes 800; revacinaes 1 732;  total 2 536
Outubro -  vacinaes 410; revacinaes 728;  total 1 138
      
Total  vacinaes 18 044; revacinaes 41 149;  total 59 199
Fonte: Jornal do Commercio, 21.11.1904.
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Os dados so cristalinos. As pessoas vacinavam-se em propores crescentes. A partir da aprovao do projeto no Senado e de sua entrada na Cmara, houve queda vertical 
na vacinao e na revacinao. Em outubro o servio estava praticamente paralisado. No ser coincidncia que uma das maiores quedas se tenha dado na 5 Delegacia 
de Sade, que abrangia a Sade e Gamboa. A, em outubro, apenas 14 pessoas se vacinaram e 18 se revacinaram.55
Quer isto dizer que a oposio  obrigatoriedade constitui explicao suficiente para a revolta e que ela se baseou em resistncia obscurantista das massas contra 
a ao esclarecida do governo, como queriam os porta-vozes do ltimo? Para responder, ser necessrio examinar mais de perto a linguagem da multido. Pela descrio 
feita acima, percebe-se que, aps as escaramuas iniciais e particularmente aps o fiasco da revolta militar, os discursos e palavras de ordem contra a vacina assim 
como os ataques contra os smbolos da ao do governo na rea da sade pblica  agentes sanitrios, carroas e prdios  desapareceram completamente. Desde o incio, 
e cada vez mais, os principais alvos da ira popular, expressa seja por palavras, seja por aes, foram os servios pblicos e os representantes do governo, de modo 
especial os componentes das foras de represso. A multido agredia cocheiros, carroceiros, acendedores de lampies; destrua bondes, carroas, combustores de iluminao, 
linhas telefnicas e telegrficas; atacava estaes das companhias de transporte e gasmetros. Principalmente, ela vaiava o ministro da Justia, insultava o chefe 
de polcia, atirava contra o comandante da Brigada Policial, dava batalha incessante contra a polcia e a guarda civil, atacava quartis e postos de polcia. A reao 
 vacina servira
Pg. 133
para desencadear um protesto muito mais vasto profundo.56
Tumultos desse tipo no eram incomuns no Rio. J foi mencionada a Revolta do Vintm de 1880. Nesse ano, em 1. de janeiro, uma multido de cerca de cinco mil pessoas 
reuniu-se no tradicional largo de So Francisco, onde foi instigada pelos discursos de Lopes Trovo a resistir ao imposto de um vintm sobre bilhetes de bondes. 
Seguiu-se ento conflito com a cavalaria da polcia e os distrbios se generalizaram. Bondes foram virados, trilhos arrancados, cocheiros espancados, mulas esfaqueadas, 
paraleleppedos revirados, barricadas levantadas. A revolta durou trs dias. O nmero de mortos segundo a polcia foi de trs pessoas, outras fontes mencionam at 
30 mortos, certamente um exagero. A quebra de lampies de gs verificou-se pela primeira vez em 1882, logo aps a introduo do servio, quando existiam na cidade 
pouco mais de 540 combustores. A motivao foi um aumento no preo do gs.57 Nova quebra de bondes deu-se em 1901, agora dirigida especialmente contra a Companhia 
So Cristvo, que aumentara o preo da passagem. No dia em que o aumento deveria entrar em vigor, 15 de junho, 26 bondes da companhia foram assaltados e queimados. 
Os conflitos continuaram no dia seguinte, agora entre povo e polcia. Morreu um fiscal da So Cristvo e houve vrios feridos. Em 1902, trens da Central foram assaltados 
por motivo de mudana de horrios. No mesmo ano, foram atacados registros de gua no largo da Carioca, nas ruas da Gamboa, Camerino, Senador Pompeu e outras, devido 
 irritao da populao com a falta d'gua.
O que diferenciou a Revolta da Vacina dos movimentos que a antecederam foi a intensidade e a dimenso do protesto. Tal diferena poderia ser atribuda a possvel 
crescendo de manifestaes populares iniciado em 1903.
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Em fevereiro desse ano houve distrbios por ocasio de eleies legislativas e vice-presidenciais. No mesmo ms, uma substituio de abades no mosteiro de So Bento 
deu origem a demonstraes de natureza nativista, incentivadas por oficiais do Exrcito, que duraram doze dias.58 J foram mencionadas as manifestaes de 1. de 
maio e a grande greve de agosto. No final do ano, trs mil sapateiros pararam o trabalho por dois meses, ao mesmo tempo que os marinheiros da Marinha Mercante entravam 
"em greve contra lei de recrutamento que os prejudicava. O ano de 1903 teve ao todo 31 greves contra trs em 1902. Mas a onda de protestos no passou para o ano 
seguinte, ou no passou na mesma intensidade. Apenas trs greves se verificaram em 1904 e no houve antes da revolta nenhuma manifestao popular de maior vulto.59
Parece-nos que o motivo da dimenso e profundidade da Revolta da Vacina est exatamente no aspecto que a caracterizava  a justificao moral. Os movimentos anteriores 
foram marcadamente motivados por razes econmicas, isto , a causa imediata era sempre uma queixa material, a saber, aumento de preos, novos impostos e taxas, 
servios pblicos de m qualidade, baixos salrios. Eram comparveis s revoltas de alimentos ("food riots") e ao ludismo dos sculos XVIII e XIX na Europa. Alteraes 
no preo do po e reduo de empregos eram os fatores que precipitavam estes ltimos movimentos. Rud caracterizou-os como formas de ao direta voltadas para a 
aplicao de uma justia elementar atravs da violncia contra a propriedade.60 A Revolta da Vacina, em contraste, fundamentou-se primariamente em razes ideolgicas 
e morais.  verdade que alguma fornia de justificao moral tem sido detectada mesmo nas revoltas de base econmica.61 Mas em 1904 tal justificao estava no centro
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do protesto.  nossa tese que foi este guarda-chuva moral que tornou possvel a mobilizao popular de 1904 nas propores em que ela se deu.
A justificao baseava-se tanto em valores modernos como tradicionais. Para os membros da elite, os valores eram os princpios liberais da liberdade individual e 
de um governo no-intervencionista. A retrica liberal, originalmente difundida por positivistas e liberais ortodoxos, chegou mesmo a atingir setores da classe operria. 
Um jornal dos grficos, comentando a revolta em 1905, dizia que ela fora reao contra medida tirnica destinada a "esmagar todas as conquistas liberais das sociedades 
modernas".62 Para o povo, os valores ameaados pela interferncia do Estado eram o respeito pela virtude da mulher e da esposa, a honra do chefe de famlia, a inviolabilidade 
do lar. Acontece que os dois tipos de valores, o moderno e o tradicional, eram perfeitamente compatveis. Ambos convergiam na oposio  interferncia do governo 
alm de limites aceitveis. Deu-se a o fenmeno descrito por Rud: a fuso de uma ideologia inerente s camadas populares com uma ideologia derivada de classes 
altas, a fuso de valores populares com valores burgueses, gerando a ideologia do protesto.63 O inimigo no era a vacina em si mas o governo, em particular as foras 
de represso do governo. Ao decretar a obrigatoriedade da vacina pela maneira como o fizera, o governo violava o domnio sagrado da liberdade individual e da honra 
pessoal. A ao do governo significava tentativa de invaso de espao at ento poupado pela ao pblica. A maneira de implementar a obrigatoriedade ameaava interferir 
em quase todas as circunstncias da vida. O prprio emprego do operrio podia estar em perigo.64 Era natural que se sentissem mais ameaados os que menos recursos 
tinham para defender-se. Nas justificativas das
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representaes enviadas  Cmara esse receio  manifestado mais de uma vez. Numa delas  dito que o projeto visava principalmente "os ignorantes, isto , os fracos 
e os que no gozam de privilgios ou de favores, visava bem claramente as classes mais laboriosas da nao". Na representao do Centro afirmava-se que, se os capitalistas 
e burgueses temiam a lei, que dizer dos operrios e proletrios "vivendo na repblica poltica como ramos na monarquia: os prias do Ocidente!?".65
A referncia  Repblica  significativa. Estava sendo violado um direito que o sistema republicano deveria, por sua prpria essncia, resguardar. Ao no faz-lo, 
ao viol-lo abertamente, o governo colocava-se contra seus prprios princpios, colocava-se na ilegitimidade e na ilegalidade, tomando ento justificvel e justificado 
o recurso  fora. Aparecia a a sensao generalizada, entre parte da elite e entre o povo, de que o regime republicano, como era praticado, no abria espao para 
a manifestao da opinio pblica, no fornecia canais de participao legtima. Especialmente no que se referia ao proletariado, as promessas da Repblica no se 
tinham cumprido, o apelo positivista no sentido de incorporar o proletariado  sociedade cara em ouvidos moucos. Um dos documentos enviados  Cmara dizia que o 
operariado passara a descrer das coisas pblicas, perdera a esperana de que a Repblica fosse significar o desenvolvimento das liberdades cvicas.66
Entendida nestes termos, a reao  obrigatoriedade explica a revolta. Para citar mais uma vez o jornal Emancipao, a se querer punir os culpados pelos acontecimentos 
de 1904, dever-se-ia enforcar o governo em praa pblica. Aos "vagabundos e desordeiros", segundo o jornal, cabia a honra de ter libertado com seu sangue a populao 
da vexao monstruosa da vacina obrigatria.
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CONCLUSO
Independentemente da inteno real de seus promotores, a revolta comeou em nome da legtima defesa dos direitos civis. Despertou simpatia geral, permitindo a abertura 
de espao momentneo de livre e ampla manifestao poltica, no mais limitada  estrita luta contra a vacina. Desabrocharam, ento, vrias revoltas dentro da revolta. 
Caminhou a conspirao militar-Centro das Classes Operrias, que buscava derrubar o governo; os consumidores de servios pblicos acertaram velhas contas com as 
companhias; os produtores mal pagos fizeram o mesmo com as fbricas; a classe popular dos aventurosos e belicosos, como os chamou Vicente de Souza, retomou em dimenses 
mais hericas seu combate cotidiano com a polcia. E todos os cidados desrespeitados acertaram as contas com o governo.67
Era a revolta fragmentada de uma sociedade fragmentada. De uma sociedade em que a escravido impedira o desenvolvimento de forte tradio artesanal e facilitara 
a criao de vasto setor proletrio. A fragmentao social tinha como contrapartida poltica a alienao quase completa da populao em relao ao sistema poltico 
que no lhe abria espaos. Havia, no entanto, uma espcie de pacto informal, de entendimento implcito, sobre o que constitua legtima interferncia do governo 
na vida das pessoas. Quando parecia  populao que os limites tinham sido ultrapassados, ela reagia por conta prpria, por via de ao direta. Os limites podiam 
ser ultrapassados seja no domnio material, como nos casos de criao ou aumento de impostos, seja no domnio dos valores coletivos.
A Revolta da Vacina permanece como exemplo quase nico na histria do pas de movimento popular de
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xito baseado na defesa do direito dos cidados de no serem arbitrariamente tratados pelo governo. Mesmo que a vitria no tenha sido traduzida em mudanas polticas 
imediatas alm da interrupo da vacinao, ela certamente deixou entre os que dela participaram um sentimento profundo de orgulho e de auto-estima, passo importante 
na formao da cidadania. O reprter do jornal A Tribuna, falando a elementos do povo sobre a revolta, ouviu de um preto acapoeirado frases que bem expressavam a 
natureza da revolta e este sentimento de orgulho. Chamando o reprter de "cidado", o preto justificava a revolta: era para "no andarem dizendo que o povo  carneiro. 
De vez em quando  bom a negrada mostrar que sabe morrer como homem!". Para ele, a vacinao em si no era importante  embora no admitisse de modo algum deixar 
os homens da higiene meter o tal ferro em suas virilhas. O mais importante era "mostrar ao governo que ele no pe o p no pescoo do povo".68
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CAPITULO V
BESTIALIZADOS OU BILONTRAS?

O povo assistiu bestializado  proclamao da Repblica, segundo Aristides Lobo; no havia povo no Brasil, segundo observadores estrangeiros, inclusive os bem informados 
como Louis Couty; o povo fluminense no existia, afirmava Raul Pompia. Viso preconceituosa de membros da elite, embora progressistas? Etnocentria de franceses? 
Mais do que isto. A liderana radical do movimento operrio tambm no parava de se queixar da apatia dos trabalhadores, de sua falta de esprito de luta, de sua 
tendncia para a carnavalizao das demonstraes operrias, especialmente nas celebraes de 1. de maio. Quando se tratava do prprio carnaval, os anarquistas 
no hesitavam em usar a expresso forte de Aristides Lobo: a festa revelava, do lado dos participantes, ignorantes e imbecis, do lado dos assistentes, uma turba 
de bestializados; nos dois casos, um povo incapaz de pensar e de sentir.1
Havia, evidentemente, algo no comportamento popular que no se encaixava no modelo e na expectativa dos reformistas, tanto da elite quanto da classe operria. Modelo 
e expectativa que, apesar das- divergncias, tinham em comum a idia do cidado ativo, consciente de seus direitos e deveres, capaz de organizar-se para agir em 
defesa
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de seus interesses, seja pelo reformismo parlamentar, seja pelo radicalismo da ao econmica. Vimos que este cidado de fato no existia no Rio de Janeiro. Passado 
o entusiasmo inicial provocado pela proclamao da Repblica, mostramos que, no campo das idias, nem mesmo a elite conseguia chegar a certo acordo quanto  definio 
de qual deveria ser o relacionamento do cidado com o Estado. No campo da ao poltica, fracassaram sistematicamente as tentativas de mobilizar e organizar a populao 
dentro dos padres conhecidos nos sistemas liberais. Fracassaram os partidos operrios e de outros setores da populao; as organizaes polticas no-partidrias, 
como os clubes republicanos e batalhes patriticos, no duravam alm da existncia dos problemas que lhes tinham dado origem; ningum se preocupava em comparecer 
s urnas para votar.
Por outro lado, estes cidados inativos revelavam-se de grande iniciativa e deciso em assuntos, em ocasies, em mtodos que os reformistas julgavam equivocados. 
Assim  que pululavam na cidade organizaes e festas de natureza no-poltica. Em 1846, o americano Ewbank ficou fascinado pelo peso que a religio ocupava na vida 
das pessoas, ou antes, emenda o protestante que ele era, aquilo que aqui se chamava de religio, isto , principalmente os aspectos externos do ritual e das festas.2 
Eram famosas ainda na virada do sculo as festas da Penha e da Glria. A festa da Penha, que continua at hoje mobilizando milhares de pessoas da zona norte nos 
domingos de outubro, era sem dvida a mais importante da cidade. Milhares de romeiros, calculados em 1899 em 50 mil, depois de subir o outeiro, organizavam imensos 
piqueniques acompanhados de vinho carregado em chifres, de roscas de acar em cordis, de galinhas e leites. A festa evolua para grandes bebedeiras, uma orgia 
campestre,
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na expresso de Raul Pompia, com muita msica, misturando-se ritmos portugueses, brasileiros e africanos: o fado, o samba, a tirana, a caninha-verde. No raro, 
capoeiras navalhavam romeiros. Eram tambm tradicionais na Penha os conflitos entre foras da polcia e do Exrcito. Policiar a festa era quase uma operao de guerra. 
Em 1899, foram necessrios nove delegados, 56 praas de cavalaria e 86 de infantaria da Brigada Policial, alm de uma fora de cavalaria do Exrcito.3 As festas 
da Penha, tomadas aos poucos aos portugueses pelos negros, foram tambm um dos beros do moderno samba carioca desenvolvido em torno de Tia Ciata e seus amigos.4
A festa da Glria (15 de agosto), que tambm ainda sobrevive, embora sem a fora de antigamente, era freqentadapor um pblico algo diferente, mais diversificado 
socialmente, abrangendo tanto os pobres do centro da cidade quanto as camadas mais ricas. No romance Lucola, publicado pela primeira vez em 1862, Jos de Alencar 
assim descreve a festa: Todas as raas, desde o caucasiano sem mescla at o africano puro; todas as posies, desde as ilustraes da poltica, da fortuna ou do 
talento, at o proletrio humilde e desconhecido; todas as profisses, desde o banqueiro at o mendigo; finalmente, todos os tipos grotescos da sociedade brasileira, 
desde a arrogante nulidade at a vil lisonja, desfilaram em face de mim, roando a seda e a casimira pela baeta ou pelo algodo, misturando os perfumes delicados 
s impuras exalaes, o fumo aromtico do havana s acres baforadas do cigarro de palha". A festa caracterizava-se ainda, durante o Imprio, por ser o momento de 
encontro da famlia real com o povo. No dizer de Raul Pompia, era "ocasio de rendez-vous dos Prncipes com a arraia mida".5 Tipicamente, o encontro de governantes 
com o povo dava-se fora dos domnios da poltica.
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No  preciso tambm insistir na importncia das festas do entrudo e do carnaval, bastante estudadas. Eram festas que j  poca dominavam a cidade por inteiro. 
De tal modo a deixar o ingls Charles Dent perplexo. Ao presenciar o carnaval de 1884, sua impresso foi a de que "todo o mundo parecia ter perdido a cabea".6 O 
carnaval deu tambm origem a algumas das associaes cariocas de maior longevidade, como os Tenentes do Diabo e os Fenianos. Mesmo associaes operrias mobilizavam-se 
para a pndega, para irritao e desespero das lideranas anarquistas.
O esprito associativo manifestava-se principalmente nas sociedades religiosas e de auxlio mtuo. O nmero e a dimenso dessas sociedades so surpreendentes. Segundo 
levantamento encomendado pela prefeitura, havia na cidade, em janeiro de 1912, 438 associaes de auxlio mtuo, cobrindo uma populao de 282 937 associados. Isto 
representava, aproximadamente, 50% da populao de mais de 21 anos, um nmero impressionante.7 Ponto importante nessas associaes era a base em que eram organizadas. 
V-se na tabela XI que a grande maioria era baseada em grupos comunitrios de pertencimento. As associaes religiosas eram fundadas em irmandades e parquias; as 
estrangeiras em grupos tnicos; as estaduais em local de origem; quase a metade das organizaes operrias era baseada em fbricas ou empresas; as dos empregados 
pblicos e operrios do Estado na maior parte definiam-se por fbrica. Ministrio, setor de trabalho ou repartio. Mesmo entre as associaes que classificamos 
de "outras" e que na maioria no se limitavam a um setor da populao, havia as que tinham por base bairros da cidade.
Assim, se  verdade, como observa M. Conniff e como o mostra a tabela XI, que houve ao longo do tempo mudana
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TABELA XI
Associaes de auxlio mtuo existentes em 1912, por data de fundao, natureza e nmero de associados (porcentagens).

Data de fundao*
Natureza:
Religiosa  At 1879: 46,4; 53,0  1880/1889: 12,2; 6,3  1890/1899: 13,3; 19,8  1900/1909: 11,1; 6,8 TOTAL: 19,9; 29,0.
De estrangeiros  At 1879: 17,6; 36,0  1880/1889: 14,6; 6,9  1890/1899: 2,2; 3,3  1900/1909: 1,0; 0,2  TOTAL: 7,5; 18,0.
De estados  At 1879: 1,8; 0,4  1880/1889: 4,9; 1,2  1890/1899: 8,9; 3,0  1900/1909: 3,0; 1,0 TOTAL: 4,1; 0,9.
De operrios  At 1879: 14,3; 1,7  1880/1889: 9,8; 7,9  1890/1899: 15,6; 16,1  1900/1909: 23,2; 20,4 TOTAL: 17,4; 9,5.
De operrios do Estado e funcionrios pblicos  At 1879:  1880/1889: 14,6; 24,5  1890/1899: 24,5; 22,3  1900/1909: 32,3; 36,2 TOTAL: 20,3; 16,6.
De empregados do comrcio  At 1879:  1880/1889: 2,4; 29,4  1890/1899:  1900/1909: 3,0; 5,7 TOTAL: 1,7; 6,3.
De empregadores  At 1879: 1,8; 0,6  1880/1889: 2,4; 2,6  1890/1899: 2,2; 2,5  1900/1909: 4,1; 1,1 TOTAL: 2,9; 1,3.
Outras  At 1879: 17,9; 8,3  1880/1889: 39,0; 21,2  1890/1899: 33,3; 32,0  1900/1909: 22,3; 28,6 TOTAL: 26,2; 18,4.

Total  At 1879: 100,0  1880/1889: 100,0  1890/1899: 100,0  1900/1909: 100,0 TOTAL: 100,0.

Nmeros absolutos  At 1879: 56; 138174  1880/1889: 41; 46840  1890/1899: 45; 25127  1900/1909: 99; 90290 TOTAL: 241; 300431.

na natureza das associaes, perdendo terreno as de carter religioso em favor das de conotao civil ou mesmo poltica, no  menos verdade que em 1909 ainda predominavam 
amplamente os associados s instituies tradicionais.
Mesmo as associaes modernas mantinham ainda o aspecto de grupo primrio e assistencial. O ponto era mais visvel nas associaes operrias. Foi grande a luta das 
lideranas para transformar organizaes de assistncia e cooperao em rgos de luta ou de resistncia, como se dizia na poca. O levantamento da prefeitura indica 
que, ainda em 1909, era grande o nmero de associaes operrias de assistncia mtua; no mximo combinavam assistncia com resistncia. A luta da liderana radical 
contra o assistncialismo, o cooperativismo, era rdua e freqentemente inglria.8
Em termos de ao poltica popular, vimos que ela se dava fora dos canais e mecanismos previstos pela legislao e pelo arranjo institucional da Repblica. Na maior 
parte das vezes era reao de consumidores de servios pblicos. Era reao a alguma medida do governo antes que tentativa de influir na orientao da poltica pblica. 
O movimento que mais se aproximou de uma ao poltica clssica foi o jacobinismo. Mesmo assim, no possua organizao, tendia ao fanatismo e perdia-se em interminveis 
contradies. Eptome dos movimentos de massa da poca, a Revolta da Vacina mostrou claramente o aspecto defensivo, desorganizado, fragmentado, da ao popular. 
Revelou antes convices sobre o que o Estado no podia fazer do que sobre suas obrigaes. De modo geral, no eram colocadas demandas mas estabelecidos limites. 
No se negava o Estado, no se reivindicava participao nas decises do governo; defendiam-se valores e direitos considerados acima da esfera de interveno do 
Estado,
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ou protestava-se contra o que era visto como distoro ou abuso.
 importante no interpretar os movimentos de revolta popular em sentido liberal clssico como exigncia de reduo ao mnimo da ao do Estado, ou de ilegitimidade 
desta ao onde coubesse a iniciativa particular. Um estudo de Eduardo Silva sobre queixas do povo durante a primeira dcada do sculo confirma este ponto. A fonte 
usada  uma coluna de jornal em que as pessoas podiam reclamar do governo   importante por revelar a atitude do cidado em momentos no-crticos, em seu cotidiano 
de habitante da cidade. A concluso do estudo  que quase s pessoas de algum modo relacionadas com a burocracia do Estado se queixavam, seja os prprios funcionrios 
e operrios, seja as vtimas dos funcionrios, especialmente da polcia e dos fiscais. Reclamavam funcionrios, artesos, pequenos comerciantes, uma ou outra prostituta. 
Mas as queixas no revelavam oposio ao Estado. Eram antes reclamaes contra o que se considerava ao inadequada, arbitrria, por parte dos agentes do governo. 
Ou ento contra a falta de ao do poder pblico. Revelavam que havia entre a populao certa concepo do que deveria constituir o domnio legtimo da ao do Estado. 
Pelo contedo das reclamaes pode-se deduzir que este domnio girava em torno de problemas elementares, como segurana individual, limpeza pblica, transporte, 
arruamento.9
Permanece, no entanto, o fato de que entre as reivindicaes no se colocava a de participao nas decises, a de ser ouvido ou representado. O Estado aparece como 
algo a que se recorre, como algo necessrio e til, mas que permanece fora do controle, externo ao cidado. Ele no  visto como produto de concerto poltico, pelo 
menos no de um concerto em que se inclua a populao.
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 uma viso antes de sdito que de cidado, de quem se coloca como objeto da ao do Estado e no de quem se julga no direito de a influenciar.
Como explicar este comportamento poltico da populao do Rio de Janeiro? De um lado, a indiferena pela participao, a ausncia de viso do governo como responsabilidade 
coletiva, de viso da poltica como esfera pblica de ao, como campo em que os cidados se podem reconhecer como coletividade, sem excluir a aceitao do papel 
do Estado e certa noo dos limites deste papel e de alguns direitos do cidado. De outro, o contraste de um comportamento participativo em outras esferas de ao, 
como a religio, a assistncia mtua e as grandes festas em que a populao parecia reconhecer-se como comunidade.
Seria a cidade a responsvel pelo fenmeno? Neste caso, como caracteriz-la, como distingui-la de outras? Entramos aqui na vasta e rica literatura sobre o fenmeno 
urbano, em particular sobre a cultura urbana, de que no poderemos dar conta neste captulo.10 No temos tambm ainda concluses assentadas. As observaes que seguem 
devem ser tomadas antes como um tatear na direo de possveis linhas de explicao.
Os conhecidos estudos de Max Weber sobre a cidade ocidental podem servir-nos de ponto de partida. Segundo ele, a cidade ocidental medieval representou uma revoluo 
na histria e contribuiu poderosamente para o desenvolvimento da moderna sociedade industrial capitalista. A cidade medieval, em contraste com a cidade antiga, desenvolveu-se 
como coletividade de produtores individuais que introduziram nova concepo e nova prtica de legitimidade poltica. A nova legitimidade baseava-se na associao 
de interesses dos burgueses, que com isso se tornavam cidados. Foi ela a primeira entidade poltica moderna,
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precedendo o prprio Estado moderno ao qual se opunha. Tornou-se autnoma, com direito prprio, justia prpria, finanas prprias, defesa prpria, governo prprio. 
E quebrou a base associativa da sociedade anterior, ignorando condicionamentos estamentais, eclesisticos, familiares. O novo cidado era admitido em termos estritamente 
individuais. Surgia literalmente uma nova sociedade baseada na associao livre de produtores.
Tudo isto contrastava com a cidade antiga ocidental, que era predominantemente uma cidade de consumidores, orientada para fins polticos e militares. Era uma cidade 
marcada economicamente pelo capitalismo comercial e de pilhagem; politicamente, pelo predomnio do Estado e sua burocracia. O mundo da produo, alm de secundrio, 
dividia-se pela coexistncia do trabalho livre e do trabalho escravo, obstculo  formao das corporaes que tanto marcaram a vida da cidade medieval. Na cidade 
antiga o cidado era antes um guerreiro, um hoplita; sua riqueza se baseava na posse de escravos, de terras, de esplios de guerra. Sobre ela no se poderia desenvolver 
a sociedade moderna de mercado, nem o conceito liberal de cidado.11
A cidade medieval desapareceu. No entanto, a seguirmos Weber, ela esteve na origem do capitalismo moderno de empresa e de trabalho livre, da sociedade liberal, do 
racionalismo formal, do individualismo. Vrios de seus traos foram incorporados  sociedade e ao Estado modernos, embora ela prpria tivesse sido bloqueada pelo 
desenvolvimento do Estado burocrtico, seu grande inimigo. Para Weber, a cidade moderna tpica foi a do norte da Europa, onde predominou com maior nitidez a funo 
econmica e a separao das vrias esferas de atividade. As cidades do sul da Europa teriam representado quebra menor com o passado medieval. Poderamos dizer que 
as
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cidades da Pennsula Ibrica sofreram ainda menos que as italianas o impacto das transformaes que iam pelo norte. As distncias tornaram-se ainda maiores ao passarem 
as sociedades ibricas ao largo da Reforma Protestante e da revoluo cientfica, fatores que vieram solidificar os novos valores burgueses, particularmente os do 
individualismo, com todas as suas seqelas.12
O tema da especificidade da cultura ibrica foi retomado recentemente com grande riqueza analtica por Richard Morse, no livro El Espojo de Prspero. Morse coloca-se 
na tradio dos clssicos" da sociologia ao distinguir entre formas integrativas e formas competitivas de associao. Ou, na linguagem de Dumont, entre a societas 
e a universitas, entre o individualismo e o holismo. A cultura ibrica estaria marcada pela nfase na incorporao, na integrao, na predominncia do todo sobre 
o indivduo, em oposio  cultura anglo-saxnica, que se caracterizaria pela nfase na liberdade e na prioridade do indivduo sobre o todo. Em termos polticos, 
ainda segundo Morse, a cultura ibrica, particularmente a espanhola, teria feito, no limiar da idade moderna, a opo tomista por um Estado baseado na idia de incorporao, 
de bem comum, de comunidade hierarquizada. Mas permanecia na sombra, como alternativa e como tenso, uma viso oposta do Estado como maquia velismo, como puro poder. 
Na viso anglo-saxnica, a tenso se dava entre a liberdade e a ordem, tendo sido possvel a absoro do liberalismo e da democracia de maneira a compatibiliz-los, 
embora em convivncia tensa. A cultura ibrica nunca teria resolvido adequadamente o problema. Nela, o liberalismo tenderia a fortalecer o lado maquiavlico, e a 
democracia a adquirir formas rousseaunianas, populistas, messinicas.13
Curiosamente, vrios pensadores brasileiros da poca j tinham abordado o tema das diferenas entre a cultura
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anglo-saxnica e a cultura ibrica em termos que muito se aproximam das abordagens modernas, inclusive a de Morse. Alberto Sales dizia, por exemplo, que o brasileiro 
era muito socivel mas pouco solidrio. Sua sociabilidade e extroverso davam-se nas relaes pessoais e nos pequenos grupos. Faltava-lhe o individualismo dos anglo-saxes, 
responsvel pela capacidade de associao desses povos. Para ele, era a conscincia da individualidade, dos interesses individuais, que constitua a base da capacidade 
associativa. Pouco depois, Slvio Romero usaria um autor francs, Edmond Demolins, para retomar o tema em linha semelhante. Empregando expresso de Demolins, ele 
diria que o povo brasileiro era de formao comunria, em oposio aos povos anglo-saxes, que eram de formao individualista. No Brasil (e nas culturas ibricas 
em geral), predominava a famlia, o cl, o grupo de trabalho, ou mesmo o Estado. Em termos coletivos, o resultado era a falta de organizao, de solidariedade mais 
ampla, de conscincia coletiva. No domnio especfico da poltica, a conseqncia era a orientao alimentria para o emprego pblico, hoje chamada de fisiologismo. 
Em contraste, o individualismo levava  iniciativa privada, ao esprito associativo,  atividade produtiva,  poltica de participao.14
Alberto Sales e Slvio Romero elaboraram uma posio que era a de quase todos os pensadores representantes do liberalismo burgus no pas, de Tefilo Ottoni a Tavares 
Bastos, Mau, Andr Rebouas, Joaquim Murtinho. Todos reclamavam da falta entre ns do esprito de iniciativa, do esprito de associao, do esprito empresarial 
burgus, enfim, para usar a terminologia atual.15 Conversamente, criticavam a excessiva dependncia em relao ao Estado como regulador da atividade social e a obsessiva 
busca do emprego pblico. Slvio Romero usava
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a expresso capitalismo quebrado para o caso brasileiro, revelando ter percebido as amplas vinculaes da problemtica.
Em oposio a esta viso francamente favorvel  concepo burguesa e individualista do mundo, temos o ensaio de Annbal Falco intitulado Frmula da Civilizao 
Brasileira, escrito em 1883. Pioneiro em tentar diagnosticar em termos culturais a problemtica nacional, Annbal Falco raciocinava dentro da viso positivista, 
antagnica ao individualismo liberal e prxima do holismo. Mas, curiosamente, seu diagnstico das diferenas  o mesmo que o de Alberto Sales e Slvio Romero. O 
Brasil, junto com os outros povos ibricos, caracterizava-se pela sociabilidade, pela predominncia dos aspectos morais, afetivos, integrativos, colaborativos. Os 
povos de tradio protestante eram individualistas, egostas, voltados para aspectos materiais, para a cincia, para a competio. Falco distinguia-se dos outros, 
e estava aqui naturalmente na companhia de todos os positivistas, em valorizar o lado ibrico por ser ele, segundo Comte, o que melhor correspondia  direo em 
que evolua a humanidade, isto , a integrao, a sntese geral dentro da religio. Na poltica, Falco no hesitava em tirar as ltimas conseqncias de sua posio. 
O individualismo resultava no conflito e na disperso democrtica, considerados indesejveis. A cultura integrativa, pelo contrrio, levava  ditadura republicana 
de natureza coletiva e integrativa.16
Nossa discusso sobre os vrios conceitos de cidadania em voga por ocasio da proclamao da Repblica corrobora os termos desta dicotomia. De um lado, a viso liberal, 
individualista, de outro, as vises positivista e rousseauniana, integrativas, comunitrias. Na prtica poltica, verificamos na populao a ausncia da tica individualista
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associativa. Sempre que havia esprito de associao, seja nas irmandades religiosas, seja nas organizaes beneficentes, seja nas organizaes operrias, ele se 
concretizava no estilo comunitrio. As grandes festas religiosas e profanas tinham igualmente o mesmo sentido integrativo de solidariedade vertical.
Comeamos com a idia de Weber sobre a cidade ocidental, passamos para a bifurcao da cultura ocidental a partir da distino entre as cidades do norte e do sul, 
da reforma protestante e do desenvolvimento do capitalismo moderno, todos fenmenos interligados. Podemos voltar agora  cidade. A cultura ibrica seria algo capaz, 
por si s, de explicar o Rio de Janeiro, tornando o fenmeno urbano em si irrelevante? Parece-nos que no. A cidade  capaz seja de criar cultura nova, seja de consolidar 
traos da cultura herdada, seja de modificar estes traos em outras direes. Uma vasta literatura j mostra tambm que, apesar dos traos comuns, as cidades da 
Amrica Latina em geral, e mesmo do Brasil, apresentam caractersticas distintas.17 Qual seria ento a caracterstica do Rio de Janeiro e como explic-la? Novamente, 
os estudos de Weber podem sugerir algumas idias. O Rio de Janeiro, ao contrrio de So Paulo, ou mesmo de Buenos Aires, era, sob o ponto de vista econmico, uma 
cidade predominantemente consumidora e de pesada tradio escravista. Criada no sculo XVI como entreposto militar e administrativo, a cidade tornou-se aos poucos 
um centro comercial e poltico importante no mundo colonial portugus, fazendo a ligao entre a metrpole, a colnia da Amrica, o rio da Prata e a frica. Na segunda 
metade do sculo XVIII, tornou-se sede da administrao colonial. As funes administrativa e comercial foram reforadas mais ainda com a chegada da corte portuguesa 
em 1808, que trouxe
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cerca de 20 mil pessoas, entre as quais boa parte da burocracia metropolitana. No mesmo ano foram abertos os portos do pas ao comrcio das naes amigas. Foi nessa 
poca que a cidade comeou a adquirir uma feio um pouco mais europia. Antes pesavam muito os aspectos africanos, devido ao grande nmero de escravos. s vsperas 
da independncia, em 1822, os escravos eram ainda 46% da populao. Na virada do sculo, quando o trfico foi interrompido, quase 40% da populao ainda era escrava, 
e a populao branca no deveria passar dos 40%.18
O reflexo desta situao de cidade administrativa e comercial de base escravista fazia-se ainda sentir no censo de 1906, que mostra uma populao ocupada principalmente 
em comrcio, transporte, administrao e servio domstico. Esta populao era trs vezes maior do que a ocupada na indstria. A condio de tradicional centro administrativo 
e de capital do pas acarretava ainda uma grande visibilidade da burocracia e um domnio do Estado sobre a cidade, numa inverso da relao existente na cidade medieval 
descrita por Weber. Tudo isto so traos mais prximos da cidade antiga que da cidade moderna; da cidade poltica antes que econmica, da cidade sem autonomia, castrada, 
pr-burguesa. Na tipologia de Redfield e Singer, poder-se-ia dizer que o Rio seria uma cidade ortogentica, um centro administrativo e poltico, sustentculo da 
grande tradio cultural. So Paulo, em contraste, seria uma cidade heterogentica, comercial e industrial, culturalmente inovadora.19
O contraste com Buenos Aires tambm  claro. Embora tambm criada inicialmente como posto militar e administrativo e depois transformada em grande emprio comercial, 
pelo menos trs traos distinguem a capital portenha do Rio. Em primeiro lugar, a presena de
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escravos em Buenos Aires sempre foi reduzida; em segundo, embora feita capital do vice-reinado mais ou menos na mesma poca em que o Rio se tornou a capital da colnia 
portuguesa, permaneceu na periferia da colnia, de modo que l o peso do Estado nunca se fez sentir como no Rio, ou em Lima: a economia era mais forte. Finalmente, 
o fato de ter estado sempre em luta contra a federao at 1880, deu mais autonomia poltica ao governo municipal, mais autogoverno. Com a federalizao em 1880, 
com as ondas de imigrantes que passaram a chegar, Buenos Aires se aproximou, muito mais que o Rio, do modelo de uma cidade burguesa dotada de um mercado de trabalho 
homogeneizado e competitivo.20
Porm, naturalmente, o Rio no era uma cidade antiga na plena expresso do termo. Por um lado, embebera-se na cultura crist medieval pr-reforma, uma cultura familista, 
religiosa, integrativa, hierarquizada. Por outro lado, esta cultura j se vira parcialmente abalada pelo processo de colonizao, feito dentro da tradio antes 
maquiaviica que tomista, para retomar as expresses de Morse. As transformaes de fim de sculo, sobretudo a abolio e a Repblica, vieram complicar o quadro, 
introduzindo elementos da tradio liberal individualista. Como observou Slvio Romero, a cultura brasileira era de tradio comunitria, mas uma tradio j em 
crise. Em crise, podemos acrescentar, principalmente nas cidades e, entre essas, principalmente no Rio de Janeiro. O perodo que estudamos marcou uma exacerbao 
do conflito entre estas tradies antagnicas. O que resultou no foi a vitria de uma delas, antes um novo hbrido. O avano liberal no foi acompanhado de avano 
igual na liberdade e na participao. O Estado republi-cano perdeu os restos de elementos integrativos que possua o Estado monrquico (lembre-se do monarquismo
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das classes proletrias), sem adquirir a base associativa do Estado liberal democrtico. No era fraternitas nem societas.
Perante tal Estado, a cidade reagia seja pela oposio, seja pela apatia, seja pela composio. Vimos os casos de oposio e apatia. Elaboraremos um pouco mais os 
de composio. Dava-se ela principalmente atravs da mquina burocrtica dentro da lgica alimentria. Mesmo o movimento operrio no escapou a esta aproximao 
a que chamamos de estadania. A maneira mais perversa de aproximao era o envolvimento de elementos da desordem no prprio mecanismo de composio da representao 
poltica. Refiro-me ao uso tradicional de capoeiras, capangas e malandros no processo eleitoral.
Mas as formas de entrosamento da ordem com a desordem iam alm do simples uso de capoeiras em eleies. Capoeiras e capangas eram tradicionalmente usados tambm 
por polticos e poderosos em geral como instrumentos de justia privada. Muitos capoeiras integraram a Guarda Negra que dispersava comcios republicanos. A prpria 
polcia fazia uso deles como agentes .provocadores ou informantes. O conbio ia alm da poltica. Diferentemente do que se pensa, por exemplo, entre os capoeiras 
havia muitos brancos e at mesmo estrangeiros. Em abril de 1890, ainda em plena campanha de Sampaio Ferraz, foram presas 28 pessoas sob a acusao de capoeiragem. 
Destas, apenas cinco eram pretas. Havia dez brancos, dos quais sete estrangeiros, inclusive um chileno e um francs. Era comum aparecerem portugueses e italianos 
entre os presos por capoeiragem. E no s brancos pobres se envolviam. A fina flor da elite da poca tambm o fazia. Neste mesmo ms de abril de 1890 foi preso como 
capoeira Jos Elsio dos Reis, filho do conde de Matosinhos, uma das
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mais importantes personalidades da colnia portuguesa, e irmo do visconde de Matosinhos, proprietrio do jornal O Paiz. Como  sabido, a priso quase gerou uma 
crise ministerial, pois o redator do jornal era Quintino Bocaiva, ministro e um dos principais propagandistas da Repblica. Outro caso famoso foi o de Alfredo Moreira, 
filho do baro de Penedo, embaixador quase vitalcio do Brasil em Londres, onde privava do convvio dos Rothschild. Segundo o embaixador francs no Rio, Alfredo 
era "um dos chefes ocultos dos capoeiras e cabea conhecido de todos os tumultos". O representante ingls informava em 1886 que Jos Elsio e Alfredo Moreira eram 
vistos diariamente na rua do Ouvidor, a Carnaby Street do Rio, em conversas com a jeunesse dore da cidade.21
O que acontecia na capoeiragem, a convivncia de classes distintas, era o que se dava tradicionalmente nas irmandades religiosas e nas organizaes de auxlio mtuo. 
E foi o que passou a dar-se cada vez mais em instituies e atividades inicialmente exclusivistas ou mesmo vetadas e perseguidas. A populao do Rio foi construindo 
algumas ocasies de auto-reconhecimento dentro da metrpole moderna que aos poucos se formava. A grande festa da Penha foi tomada do controle branco e portugus 
por negros, ex-escravos, bomios; as religies africanas passaram a ser freqentadas por polticos famosos como, pasmem, J. Murtinho; o samba foi aos poucos encampado 
pelos brancos; o futebol foi tomado aos brancos pelos negros. Movimentos de baixo e de cima iam minando velhas barreiras e derrotando as novas, que se tentavam impor 
com a reforma urbana.
Mas na poltica a cidade no se reconhecia, o citadino no era cidado, inexistia a comunidade poltica. Diante desta situao, no era de estranhar a apatia e mesmo 
o cinismo da populao em relao ao poder.
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A apatia e o cinismo, no entanto, no parecem ser caractersticas apenas do Rio na poca. Em Buenos Aires, a participao poltica era tambm muito baixa e o mesmo 
provavelmente acontecia na maioria das capitais latino-americanas. O que marcava, e marca, o Rio  antes a carnavalizao do poder como, de resto, de outras relaes 
sociais. Poucos meses aps a Revolta da Vacina, ela j era objeto de celebrao carnavalesca, sem falar no fato de terem comeado as agitaes por uma farsa teatral 
montada por pivetes.
Em maio de 1905, algum imaginou em poesia um grupo carnavalesco aberto por Morfeu (Rodrigues Alves), tendo como destaques dos carros alegricos o ministro da Justia, 
Seabra, fantasiado de marisco, o chefe de polcia, Cardoso, vestido de Javert e, ao final, Oswaldo Cruz, com enorme seringa respingando formol.22 Dois textos j 
mencionados, afastados no tempo quase 30 anos, mostram bem a atitude de completo desrespeito pela lei por parte dos fluminenses. As Memrias de um Sargento de Milcias, 
escritas em 1853 e cuja ao se passa ainda no final do perodo colonial, revelam um mundo em que a ordem e a desordem se misturam e se confundem, apesar da aparente 
oposio. O temido major Vidigal, encarnao da lei e da ordem,  usado pelos primos de Leonardo para se livrarem de um rival no amor das primas e se deixa depois 
convencer pelo lobby das comadres e pelo suborno da promessa de uma mancebia. Dona Maria diz abertamente ao major quando este insiste em mencionar a lei: "Ora, a 
lei... o que  a lei, se o major quiser?...".
Em 1891, Artur Azevedo pintaria um retrato primoroso da j ento capital da Repblica em sua revista O Tribofe. O autor mostra ao longo da pea a existncia do tribofe, 
da trapaa, em todos os domnios do comportamento
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do fluminense. Havia tribofe na poltica, na bolsa, no cmbio, na imprensa, no teatro, nos bondes, nos aluguis, no amor. No se obedecia nem  lei dos homens, nem 
 de Deus. Como diria o prprio Tribofe: "Ah, minha amiga, nesta boa terra os mandamentos da lei de Deus so como as posturas municipais... Ningum respeita!".23
Em revista anterior, O Bilontra, escrita em 1886, Artur Azevedo j abordara o mesmo tema, baseado em fato real  a venda por um bilontra de falsos ttulos de nobreza. 
O bilontra  o espertalho, o velhaco, o gozador:  o tribofeiro. A auto-imagem do fluminense como levador da vida aparece tambm na revista O Cruzeiro (1.2.1882): 
"[ns os fluminenses] somos positivistas e pndegos, gostamos muito de festas e mulheres". O positivismo a no tinha naturalmente nada a ver com o do sisudo e mstico 
Auguste Comte. Significava pragmatismo, p no cho, saber lidar com a realidade em benefcio prprio.
Este lado carnavalesco no pode ser derivado das caractersticas ibricas, nem dos traos de cidade antiga que encontramos no Rio. Ele no  mesmo um trao comum 
a outras cidades brasileiras, exceto talvez Salvador, por mais que se tente hoje generaliz-lo para o Brasil como um todo. O que segue  esboo de explicao.
Mais do que qualquer outra cidade brasileira, o Rio acumulou foras contraditrias da ordem e da desordem. No parece que lhe possa ser dada a caracterstica de 
cidade letrada de que fala Angel Rama.24 Embora criada com a finalidade de ser instrumento de colonizao, centro de poder e de controle, a prpria geografia j 
derrotava qualquer plano urbanstico que se Ihe quisesse impor. O terreno era constitudo de morros e pntanos e o desenvolvimento urbanstico da cidade foi 
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determinado por esses fatores durante longo tempo. Consistia em ocupar os morros e ir aos poucos aterrando os pntanos. Posteriormente, j em nosso sculo, passou-se 
a arrasar os morros. Mesmo assim, ainda hoje, na mais rica parte da cidade, a zona sul, convivem a classe mdia alta  beira-mar e o proletariado nos morros adjacentes.
A grande presena escrava, por outro lado, acrescida mais tarde dos imigrantes do pas e do exterior, formou a massa proletria de que falamos. O Estado colonial, 
depois nacional, tinha de conviver com esta realidade. Por mais iluminista que fosse, e o Estado portugus no o era muito, precisou desenvolver formas de convivncia, 
ao mesmo tempo que as irmandades constituam tambm espaos de contato entre burocracia e povo e entre os vrios setores da populao. Nessas condies as normas 
legais e as hierarquias sociais iam aos poucos se desmoralizando, constituindo-se um mundo alternativo de relacionamento e valores. A escravido dentro da casa minava 
a disciplina da famlia branca, assim como corroa os prprios padres de relacionamento entre senhor e escravo. O predomnio de homens em relao s mulheres na 
composio demogrfica da cidade impossibilitava em muitos casos a formao de famlias regulares. Mesmo que a autoridade o desejasse, seria impossvel a aplicao 
estrita da lei. Da que da parte do prprio poder e de seus representantes desenvolveram-se tticas de convivncia com a desordem, ou com uma ordem distinta da prevista. 
A lei era ento desmoralizada de todos os lados, em todos os domnios. Esta duplicidade de mundos, mais aguda no Rio, talvez tenha contribudo para a mentalidade 
de irreverncia, de deboche, de malcia. De tribofe.
Havia conscincia clara de que o real se escondia sob o formal. Neste caso, os que se guiavam pelas aparncias
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do formal estavam fora da realidade, eram ingnuos. S podiam ser objeto de ironia e gozao. Perdia-se o humor apenas quando o governo buscava impor o formal, quando 
procurava aplicar a lei literalmente. Nesses momentos o entendimento implcito era quebrado, o poder violava o pacto, a constituio no-escrita. Ento tinha de 
recorrer  represso, ao arbtrio, o que gerava a revolta em resposta. Mas, como vimos, eram momentos de crise, no o cotidiano.
O povo sabia que o formal no era srio. No havia caminhos de participao, a Repblica no era para valer. Nessa perspectiva, o bestializado era quem levasse a 
poltica a srio, era o que se prestasse  manipulao. Num sentido talvez ainda mais profundo que o dos anarquistas, a poltica era tribofe. Quem apenas assistia, 
como fazia o povo do Rio por ocasio das grandes transformaes realizadas a sua revelia, estava longe de ser bestializado. Era bilontra.
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CONCLUSO
Nossa discusso girou em tomo de trs temas e das relaes entre eles: o tema do regime poltico (a Repblica), o tema da cidade (Rio de Janeiro) e o tema da prtica 
popular (a cidadania). Em tese e de acordo com a experincia histrica de outros povos, haveria relao positiva de reforo mtuo entre esses temas. A cidade, a 
vida e os valores urbanos tenderiam a favorecer a prtica republicana, que, por sua vez, se caracterizaria pela ampliao da cidadania. A Repblica, mesmo no Brasil, 
apresentou-se como o regime da liberdade e da igualdade, como o regime do governo popular. A cidade fora o bero da cidadania moderna e, no Brasil, o Rio de Janeiro, 
maior centro urbano, apresentava as melhores condies de fornecer o caldo de cultura das liberdades civis, base necessria para o crescimento da participao poltica.
Encontramos realidade diferente. Nossa Repblica, passado o momento inicial de esperana de expanso democrtica, consolidou-se sobre um mnimo de participao eleitoral, 
sobre a excluso do envolvimento popular no governo. Consolidou-se sobre a vitria da ideologia liberal pr-democrtica, darwinista, reforadora do poder oligrquico. 
s propostas alternativas de organizao do
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poder, a do republicanismo radical, a do socialismo e mesmo a do positivismo, derrotadas, foram postas de lado. A cidade do Rio de Janeiro, sentava as caractersticas 
da cidade burguesa onde se desenvolveu a democracia moderna. O peso das tradies escravista e colonial obstrua o desenvolvimento das liberdades civis, ao mesmo 
tempo que viciava as relaes dos citadinos com o governo. Era uma cidade de comerciantes, de burocratas e de vasto proletariado, socialmente hierarquizada, pouco 
tocada seja pelos aspectos libertrios do liberalismo, seja pela disciplina do trabalho industrial. Uma cidade em que desmoronava a ordem antiga sem que se implantasse 
a nova ordem burguesa, o que equivale a outra maneira de afirmar a inexistncia das condies para a cidadania poltica.
A relao da Repblica com a cidade s fez, em nosso caso, agravar o divrcio entre as duas e a cidadania. Primeiro, por ter a Repblica neutralizado politicamente 
a cidade, impedindo que se autogovernasse e reprimindo a mobilizao poltica da populao urbana. A seguir, quando a Repblica, uma vez consolidada, quis fazer 
da cidade-capital o exemplo de seu poder e de sua pompa, o smbolo, perante a Europa, de seus foros de civilizao e progresso (bem como de sua confiabilidade como 
pagadora de dvidas). A castrao poltica da cidade e sua transformao em vitrina, esta ltima efetivada nas reformas de Rodrigues Alves e na grande exposio 
nacional de 1908, inviabilizaram a incorporao do povo na vida polticas cultural. Porque o povo no se enquadrava nos padres europeus nem pelo comportamento poltico, 
nem pela cultura, nem pela maneira de morar, nem pela cara.
Na Repblica que no era, a cidade no tinha cidados. Para a grande maioria dos fluminenses, o poder
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permanecia fora do alcance, do controle e mesmo da compreenso. Os acontecimentos polticos eram representaes em que o povo comum aparecia como espectador ou, 
no mximo, como figurante. Ele se relacionava com o governo seja, pela indiferena aos mecanismos oficiais de participao, seja pelo pragmatismo na busca de empregos 
e favores, seja, enfim, pela reao violenta quando se julgava atingido em, direitos e valores por ele considerados extravasantes da competncia do poder. Em qualquer 
desses casos, uma viso entre cnica e irnica do poder, a ausncia de qualquer sentimento de lealdade, o outro lado da moeda da inexistncia de direitos. A lealdade 
era possvel em relao ao paternalismo monrquico, mais de acordo com os valores da incorporao, no em relao ao liberalismo republicano.
Impedida deser repblica, a cidade mantinha suas repblicas, seus ndulos de  participao social, nos bairros, nas associaes, nas irmandades, nos grupos tnicos, 
nas igrejas, nas festas religiosas e profanas e mesmo, nos cortios e nas maltas de capoeiras. Estruturas comunitrias no se encaixavam no modelo contratual do 
liberalismo dominante na poltica. Ironicamente, foi da evoluo destas repblicas, algumas inicialmente discriminadas, se no perseguidas, que se foi construindo 
a identidade coletiva da cidade. Foi nelas que se aproximaram povo e classe mdia, foi nelas que se desenhou o rosto real da cidade, longe das preocupaes com a 
imagem que se devia apresentar  Europa. Foi o futebol, o samba e o carnaval que deram ao Rio de Janeiro uma comunidade de sentimentos, por cima e alm das grandes 
diferenas sociais que sobreviveram e ainda sobrevivem. Negros livres, ex-escravos, imigrantes, proletrios e classe mdia encontraram aos poucos um terreno comum 
de auto-reconhecimento que no lhes era propiciado pela
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poltica. Fenmeno semelhante se deu em Buenos Aires, onde o tango, sado da cultura marginal dos camponeses e imigrantes, foi absorvido pela cultura da classe tradicional 
e tornou-se o smbolo da cidade, se no do pas.
Mas, ainda hoje, tempo de Nova Repblica, livre da tarefa de representar o pas e tendo conquistado o direito de eleger seus governantes, a cidade no consegue transformar 
sua capacidade de participao comunitria em capacidade de participao cvica. A atitude popular perante o poder ainda oscila entre a indiferena, o pragmatismo 
fisiolgico e a reao violenta. O conluio da ordem com a desordem, da lei com a transgresso, outrora tipificado no uso de capoeiras nas eleies, continua em plena 
vigncia atravs do acordo tcito entre autoridades e banqueiros do jogo do bicho.  Cidade, a Repblica e a Cidadania continuam dissociadas, quando muito perversamente 
entrelaadas. O esforo de associ-las segundo o modelo ocidental tem-se revelado tarefa de Ssifo. J  tempo talvez de se fazer a pergunta se o caminho para a 
cidadania no deve ser outro. Se a Repblica no republicanizou a cidade, cabe perguntar se no seria o momento de a cidade redefinir a Repblica segundo o modelo 
participativo que lhe  prprio, gerando um novo cidado mais prximo do citadino.
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NOTAS

INTRODUO
(1) Carta de Aristides Lobo ao Dirio Popular de So Paulo, em 18.11.1889. Citada por Lencio Basbaum. em Histria Sincera da Repblica, de 1889 a 1930 (So Paulo, 
Fulgor, 1968), p. 18.
(2) Veja Louis Couty, L' Esclavage au Brsil (Paris, Librairie de Guillaumm et Cie. Editeurs, 1881), p. 87.
(3) Veja Herbert A. Deane, The Political and Social Ideas of St. Augustine (New York and London, Columbia University Press, 1963), p. 116:53.
(4) Revoluo, 21.4.1881.
(5) Voz. do Povo, 9.1.1890 e 7.1.1890. O redator do jornal era Gustavo de Lacerda.
(6) Echo Popular, 11.3.1890.
(7) Sobre as cidades como centros de libertao e do desenvolvimento de relaes contratuais, veja Lewis Munford, The City in History (New York, Harcourt, Brace 
and World, Inc., 1961), especialmente p. 261-5.
(8) Campos Sales a Saldanha Marinho, 25.5.1887 (AGCRJ, 41-1-60), p. 20-1.

Captulo I: O RIO DE JANEIRO E A REPBLICA
(1) Sobre a demografia da cidade, veja Samuel Adamo. "The Broken Promise: Race, Health, and Justice in Rio de Janeiro, 1890-1940" (Tese de Doutorado. Universidade 
de New Mxico, 1983), cap. II. Sobre a situao social em geral, veja Sylvia Fernandes Padilha, "As Condies de Vida na Cidade do Rio de Janeiro, 1889-1906: Resultados 
Preliminares" (FCRB, mimeo. 1984).
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(2) Nogueira Soares a Barros Gomes, 8.4.1887 (RAB). A observao de Evaristo de Moraes est em AGCRJ, 48-4-56.
(3) "No Maranho falavam com tanto assombro dos gatunos da Corte!  os tais capoeiras!" (Alusio Azevedo, Casa de Penso. Goinia, Liv. e Ed. Walfr Ltda., 1982. 
p. 41.) Veja tambm Plcido de Abreu, Os Capoeiras (Rio de Janeiro, Typ. da Escola de Serafino Jos Alves, s.d.). Sobre a gatunagem, veja Vicente Reis, Os Ladres 
no Rio, 1898-1903 (Rio de Janeiro, Cia. Typ. do Brazil, 1903).
(4) AGCRJ. 41-4-5.
(5) Jornal O Tempo, citado por Verediano Carvalho no prlogo a O Encilhamento (Belo Horizonte, Ed. Itatiaia, 1971. p. 12). O romance de Taunay foi publicado originalmente 
em 1893, em folhetins, sob o pseudnimo de Heitor Malheiros.
(6) Relatrio do segundo-secretrio da legao portuguesa, Antnio da Franca, anexo a ofcio de Pao d'Arcos a Hintze, 7.4.1893 (RAB).
(7) Adam a Salisbury-, 9.1.1891 (PRO. FO 13, 675), e Sylvia Fernandes Padilha, "As Condies de Vida", p. 52.
(8) AZEVEDO, Artur. O Tribofe. Revista Fluminense do anno de 1891. Rio de Janeiro, H. Lombaerts & Cia. Editores, 1892, p. 60.
(9) Sobre os jacobinos, veja June Hahner, "Jacobinos versus Galegos: Urban Radicais versus Portuguese Immigrants in Rio de Janeiro in the 1890's" (Journal of Interamerican 
Studies and World Affairs, 18 (2): 125-54. May 1976).
(10) Sobre os operrios no incio da Repblica, veja Angela Maria de Castro Gomes, "A Hora e a Vez dos Trabalhadores; Repblica e Socialismo na virada do Sculo" 
(mimeo, 1984).
(11) Veja a lista de expulsos enviada pelo chefe de polcia ao ministro da Justia a 8 de janeiro de 1895 (AN, Cx 6C5). Veja tambm os Relatrios do ministro da 
Justia referentes aos anos de 1893 e 1894, p. 27 e 59, respectivamente.
(12) Citado em Socialismo Brasileiro (Sel. e introd. Evaristo de Moraes Filho. Braslia, Cmara dos Deputados-UnB, s.d.), p. 5.
(13) Citado em Raimundo Magalhes Jnior, Deodoro. A Espada contra o Imprio (So Paulo, Cia. Editora Nacional, 1957), v. II, p. 161.
(14) AZEVEDO, Artur. O Tribofe. p. 58. Agradeo a Flora Sssekind e Raquel Valena o acesso a O Rio em 1877. Tribofe era termo usado em corridas de cavalos e significava 
a vitria inesperada de um cavalo por meio de fraude.
(15) POMPIA, Raul. Obras. Org. Afrnio Coutinho. Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira/OLAC, 1980. v. VI, p. 1:8-9.
(16) Sobre Lima Barreto, veja Francisco de Assis Barbosa, A vida de Lima Barreto (1881-1922) (6. ed. Rio de Janeiro, Jos Olympio/INL-MEC, 1981). Os ataques ao racismo 
de Rio Branco aparecem em mais de um
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local na obra de Lima Barreto. Para um exemplo, veja Os Bruzundangas (So Paulo, Brasiliense, 1956), p. 143-54, em que o baro aparece na figura do visconde de Pancome.
(17) RIO, Joo do. A Alma Encantadora das Ruas. Rio de Janeiro, Organizaes Simes, 1952. p. 213-4. A edio original do livro  de 1910.
(18) SALES, Campos. Da Propaganda  Presidncia. So Paulo, s. ed., 1908. p. 252. Agradeo a Marcos Veneu a lembrana da citao.
(19) Para informaes sobre a organizao do governo municipal do Rio no incio da Repblica, baseei-me em Ana Marta Rodrigues Bastos, "O Conselho de Intendncia: 
Organizao e Representatividade, 1889-1892", FCRB, mimeo, 1984). A citao de O Paiz est na p. 18 desse texto.
(20) Para um resumo do Cdigo, veja Ana Marta Rodrigues Bastos, "O Conselho de Intendncia".
(21) Sobre o uso da imprensa como veculo de comunicao das queixas populares, veja Eduardo Silva, "As Queixas do Povo, Massas Despolitizadas e Consolidao da 
Repblica" (FCRB, mimeo, 1984). O autor usa como fonte uma coluna publicada sistematicamente pelo Jornal do Brasil, intitulada "Queixas do Povo".
(22) Totonho e Lucrcio Barba de Bode so personagens de Numa e a Ninfa. A impreciso de limites entre a ordem e a desordem dava-se tambm, como seria de esperar, 
entre polcia e criminosos ou contra-ventores. Um exemplo humorstico  o do homossexual Traviata, que, ao ser preso certa vez, revelou que o chefe de polcia era 
seu fregus... Sobre as vrias faces da polcia do Rio, veja Marcos Luiz Bretas, "Policiar a Cidade Republicana" (Revista OAB-RJ, 22: 47-60, jul. 1985).
(23) AZEVEDO, Alusio. O Cortio. Goinia. Liv. e Ed. Walfr Ltda., 1982. Especialmente p. 102, 158-60, 223-5.
(24) Sobre o mundo intelectual na belle poque do Rio, veja A.L. Machado Neto, Estrutura Social da Repblica das Letras (Sociologia da Vida Intelectual Brasileira, 
1870-1930) (So Paulo. Grijalbo, 1973), e Jeffrey D. Needell, "Rio de Janeiro at the Tum of the Century: Modernization and the Parisian Ideal" (Journal of Interamerican 
Studies and World Affairs, 25 (1): 83-103, Feb. 1983). Sobre Lima Barreto e Euclides como escritores dissidentes, veja Nicolau Sevcenko, Literatura como Misso, 
Tenses Sociais e Criao Cultural na Primeira Repblica (So Paulo, Brasiliense, 1983).
(25) Sobre a Pequena frica e as origens do samba carioca, veja Roberto Moura, Tia ciata e a Pequena frica no Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, Funarte, 1983).
Captulo II: REPBLICA E CIDADANIAS
(1) Veja Raul Pompia, Obras (1982), v. IX, p. 351-2, e visconde de Taunay, O Encilhamento.
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(2) Para dados sobre participao eleitoral, veja Joseph L. Love,"Political Participation in Brazil, 1881-1969" (Luso Brazilian Review, VII (2): 2-24, Dec. 1970). 
Note-se que Love no se refere aos dados eleitorais de antes da eleio direta, o que lhe permite afirmar que a Repblica representou um aumento significativo na 
participao poltica. Tal concluso no seria vlida se a comparao se fizesse com o nmero de votantes das eleies indiretas do Imprio.
(3) ROBSON, J.M., ed. Coilected Works of John Stuart MUL Toronto, University of Toronto Press, 1977. v. XIX, p. 470. Para fazer justia a Mill,  preciso acrescentar 
que, ao mesmo tempo que exclua o analfabeto do direito de voto, ele considerava um dever da sociedade fornecer os meios de alfabetizao a todos os cidados. Veja 
tambm Jos Antnio Pimenta Bueno, Direito Pblico Brasileiro e Anlise da Constituio do Imprio (Braslia, Senado Federal, 1978), p. 442, 4614. A primeira edio 
desta obra  de 1857. Para uma discusso do tema, j na Repblica. veja Victor de Britto, O Sufrgio Proporcional e a Democracia Representativa (Rio de Janeiro, 
Imprensa Nacional, 1914), especialmente caps. VI e VII.
(4) Veja Lus Washington Vita, Alberto Sales, Idelogo da Repblica (So Paulo, Cia. Editora Nacional, 1965). Em justia, Alberto Sales era mais democrtico do que 
o foram os constituintes, pois admitia o voto dos analfabetos e das mulheres. Segundo ele, o sufrgio  funo mas tambm direito, devendo ser concedido a todos 
os que de alguma maneira cooperam na vida social. Veja a obra acima, p. 196-200.
(5) Era sintomtico que as manifestaes republicanas no Rio sempre terminavam com o canto da Marselhesa. Frequentemente eram feitas no prprio 14 de Julho, para 
desespero do embaixador francs. Veja Amelot a Spuller, 10.7.1889 (MAE, Correspondance Politique, Brsil, 1871-1896). A comemorao do 14 de Julho em 1889, apesar 
dos cuidados do embaixador, terminou em conflitos de rua entre republicanos e monarquistas. No dia seguinte haveria o atentado a bala contra o imperador. Silva Jardim 
insistia em que a Monarquia casse em 1889 para coincidir com o centenrio da Revoluo Francesa.
(6) Sobre Silva Jardim, veja Maurcio Vinhas de Queiroz, Paixo e Morte de Silva Jardim (Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1967).
(7) O manifesto est reproduzido em Reynaldo Carneiro Pessoa, A Idia Republicana no Brasil atravs dos Documentos (So Paulo, Alfa-Omega. 1973), p. 106-13. A referncia 
do texto est na p. 109.
(8) Veja "Carta Poltica ao Pas e ao Partido Republicano", de 6 de janeiro de 1889, reproduzida em Reynaldo. Carneiro Pessoa, A Idia Republicana, p. 114-45. A 
referncia do texto est na p. 143. E Alberto Sales, A Ptria Paulista (Braslia, UnB, 1983). A primeira edio desta obra  de 1887.
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VISES DA POCA

Aqui diversas gravuras:
Descrio da figura 1 - Imagem parecida com caricatura em preto e branco,contendo uma espcie de mesa circular,sem as pernas, formando um pedestal. Sobre esse objeto 
encontra-se um cavalo em p, ensilhado,indo em direo ao lado a direito da tela.Tendo seu rabo dado um n e escrito em sua coxa direita povo.Nesse animal uma 
lagrima desce de seu olho direito. Sobre ele encontra-se montado um homem com o p na espora,com a mo esquerda segura as rdeas e com a direita levantada ao alto,contendo 
algumas folhas de papel escritas,passando a impresso de estar balanando o brao. Esse homem tem em sua feio enferruscada, um cavanhaque,olhos grandes, meio calvo, 
tendo cabelos apenas nas laterais da cabea. Parecendo ser um senhor de meia idade.

Descrio da figura 2 - Esta figura mostra um homem forte vestindo apenas uma cala na altura dos joelhos,calando sapatos simples. Em sua barriga est escritopovinho. 
Este homem encontra-se todo enrolado por uma cobra muito longa,que d vrias voltas por todo o seu corpo. Nota-se que esse animal possui escrito ao longo de seu 
corpo:misria, impostos, emprestimos, desfalques, cambio, selo.

Descrio da figura 3 - Retrata a figura de Marechal Deodoro, de frente, ricamente bem vestido em trajes de gala da poca, sendo cumprimentado por uma mulher nua, 
que est de lado, vestindo apenas meias sete oitavos, sapatos de salto alto e luvas que vo at ao cotovelo. Ela traz  cabea uma cesta contendo alguns objetos. 
Do ombro esquerdo dessa mulher desce uma ala em diagonal passando pela cintura  no lado direito  que prende nas suas costas um galho que parece um galho de palmeira 
ou uma folha de bananeira.

Descrio da figura 4 - Esta figura mostra vrios homens simples, todos usando chapus e roupas que demonstram serem camponeses. Ao centro um animal parecido com 
um jegue,ensilhado luxuosamente, com uma faixa no pescoo escrito soberano eleitoral. E em sua cabea uma coroa de rei. Montado nesse animal est um homem vestido 
um terno de tecidos finos, sem chapu,com barba e bigodes curtos. Usando culos de grau. Trazendo  cintura uma espada. Segurando com a mo esquerda as rdeas e 
com a direita um objeto no sendo possvel identificar. O animal est indo da direita para a esquerda da tela. O rosto deste homem se encontra de frente,tendo uma 
cabea grande,desproporcional em relao ao seu corpo que parece menor que o normal.

Descrio da figura 5 - Nesta imagem h muitos homens armados, com algo que parece com faca ou punhal e lutam entre si. Alguns j cados no cho. Pela aparncia 
so pessoas pobres e humildes.

Descrio da figura 6 - A imagem mostra um casal simples,parecem camponeses vestindo trages de poca. O homem,branco,de barba, usa chapu e se encontra com os braos 
cruzados de frente para a mulher. Ela uma mulher negra,de frente para ele,com a palma da mo esquerda aberta em direo ao homem e a mo direita aponta com o indicador 
na mesma direo gesticulando, parece explicar algo ao homem.

Descrio da figura 7- Nesta figura aparecem cinco homens,sendo que quatro deles esto bem vestidos, encontram-se em fila, todos segurando uma espcie de lana escrita 
na parte mais larga,proximo a ponta, "vacina". Esses quatro homens apontam em direo do quinto homem que veste apenas uma cuca e tem o semblante desesperado,encolhido 
e com a boca aberta,parece gritar.   

Descrio da figura 8 - Aparecem na figura seguinte os mesmos homens,agora os que estavam segurando a tal lana,esto todos cados no cho, trs deles com as pernas 
levantados para o ar e um de joelho segurando apenas um pedao do que era uma lana, e sendo segurado atravs do colarinho, pelo homem semi-nu, que agora  quem 
ameaa com o outro pedaa da arma.

Descrio da figura 9 - Nesta imagem aparecem seis homens, em uma paisagem que parece ser urbana, com rua e um muro ao fundo. No canto superior direito esto passando 
trs deles vestidos de terno,um apenas de chapu e os outros dois carregam casacos no brao. Eles olham em direo aos outros trs que se encontram no canta esquerdo,em 
primeiro plano aparece um homem sem calas,usando apnas camisa e sapatos, tendo um semblante cansado, gotas de suor caem de seu rosto.Seus cabelos escorridos parecendo 
molhados. Ao seu lado direito,dois homens vestidos de terno,o mais prximo com a mo esquerda estendida toca sua mo direita. O homem que est logo em seguida, sorri 
olhando o homem cansado.

 Descrio da figura 10 - Nesta figura aparece uma paisagem urbana,ao fundo h sobrados de estilo do inicio do sculo XX, h tambm algumas arvores de altura que 
vai at a metade desses sobrados. H vrias pessoas vestidas com roupa de poca. Em primeiro plano um automvel que parece um nibus ou bonde, se encontra virado.

Descrio da figura 11 - Nesta figura que parece um retrato pintado, a partir do peito, h um nicohomem negro,ele usa chapu pequeno,arrumado levemente em diagonal,deixando 
um pouco mais baixo no lado direito e mais alto no lado esquerdo.Est vestindo um alinhado palet acompanhado de um leno no pescoo,arrumado como uma gravata.

Descrio da figura 12 - A figura mostra uma caricatura de um homem negro,olhando para o alto,com os braos abertos contendo em cada mo uma arma de fogo. Parece 
ser um boneco de pano, porque seu corpo termina em tecidos esvoaantes, sendo preso em uma espcie de mastro que sai da copa de uma arvore. O cenrio parece ser 
urbano devido ao muro que est ao fundo e o telhado de uma casa que se encontra atrs desse muro.

Descrio da figura 13 - Nesta imagem aparece uma gravura circular, retratando vrios homens a cavalo,armados de cacetetes, parecem soldados e batem nas pessoas 
que correm assustadas. O cenrio parece urbano, uma praa porque ao fundo pode-se ver uma espcie de monumento alto,de um homem montando um cavalo. Por todo o espao 
encontram-se luminrias tipicas de locais publicos de cidades, como de uma praa mesmo. 

Descrio da figura 14 - Esta imagem agora  uma fotografia tirada de uma rua urbana,como cenrio aparece ao lado esquerdo uma faixada que se parece com o de uma 
igreja. Do centro para a direita ao fundo nota-se alguns sobrados. Na rua tem algo atravessado, parece tabuas sobre tambores, sobre essas tabuas encontram-se alguns 
homens em p, de costas olhando para o fundo da imagem.

Descrio da figura 15 - A imagem mostra uma fotografia em preto e branco tirada do alto,  uma vista de cima de um espao de circulao da poca, tendo muitas pessoas 
andando por ela, todos a p,no se v carros. Ladeado por edificios e sobrados. Podendo-se notar que h poste e fios de luz acompanhando esse espao.

Descrio da figura 16 - Ao lado h outra fotografia, tambm tirada do alto,contendo as mesmas caractersticas da anterior, datada de  7 de setembro de 1.904, mas 
neste espao de avenida pode-se notar que h algo parecido com bonde, podendo-se perceber as linhas como as de trem, no lado esquerdo deste espao.


(18) Veja o jornal de Frana e Silva, Echo Popular, 13.3.1890. Alm de Vinhaes, Gustavo de Lacerda, que redigia A Voz do Povo, tambm disputava com Frana e Silva 
a formao de um partido operrio. Ao final, foram formados trs partidos, todos de vida efmera. Ver a respeito Jos Augusto Valladares Pdua, "A Capital, a Repblica 
e o Sonho: a Experincia dos Partidos Operrios de 1890" (Dados  Revista de Cincias Sociais, 28(2): 163-92, 1985.
(19) Veja as intervenes de Vinhaes na Constituinte, especialmente sesses de 4.2 e de 23.2.1891, em Annaes do Congresso Constituinte de 1891 (Rio de Janeiro, Imprensa 
Nacional, 1926), v. III, p. 447-53, 818-24. Veja tambm suas intervenes na primeira legislatura, em Annaes da Cmara dos Deputados (Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 
1891), especialmente v. I, p. 106-8, 420-1, 590-1; v. II, p. 504-6; v. III, p. 35-6, 238-9, e v. IV, p. 24. 179-80. Veja ainda O Paiz, 18/22/23/31 jan. 1890. Na 
Cmara falavam tambm a favor dos operrios Barbosa Lima e Lauro Sodr, positivistas, e Sampaio Ferraz.
(20) Veja Echo Popular, 6/8/11/13 mar. 1890. Para as idias de Gustavo de Lacerda, veja A Voz do Povo.
(21) Vrios programas destes partidos podem ser encontrados, juntamente com um breve histrico do movimento socialista, em Socialismo Brasileiro, p. 16-26, 238-58. 
Veja tambm Gustavo de Lacerda. O Problema Operrio no Brasil (Propaganda Socialista, Rio de Janeiro, 1901). que contm o programa do Centro Operrio Radical criado 
por ele no Rio, em 1892. Ainda no Rio, um dos porta-vozes do socialismo reformista era o jornal O Primeiro de Maio (1898), redigido por Evaristo de Moraes, J. Azurara 
e J. Palma, com a colaborao de Vicente de Souza e Mariano Garcia. Em So Paulo, surgiu um Centro Socialista em 1896, transformado em Partido Operrio Socialista 
em 1897 e em Partido Socialista Internacional em 1898, cujo rgo de divulgao era O Socialista. O programa do partido de 1897 est nesse jornal, edio de 1.5.1897. 
Em 1902 houve na capital paulista um segundo Congresso Socialista, de que resultou a criao de um Partido Socialista Brasileiro. O manifesto do Congresso pode ser 
encontrado em Antnio dos Santos Figueiredo, A Evoluo do Estado no Brasil (Porto, Impr. Indstr. Grf. do Porto Ltda., 1926), p. 156-68. O partido durou cerca 
de um ano.
(22) Sobre o anarquismo em seus incios no Brasil, veja EIysio de Carvalho, "O Movimento Anarquista no Brasil" (Kultur, 7: 2-3, mar. 1904, e Kultur, 3: 22-4. Floreal, 
112/ago. 1904. Veja tambm M. Curvelo de Mendona, "O Movimento Socialista no Brasil" (Almanaque Brasileiro Garnier, 272-7. 1905, e Almanaque Brasileiro Garnier 
210-3, 1906). EIysio calculou em 10 000 o nmero de comunistas (anarquistas) no pas, nmero que Neno Vasco achou muito exagerado; ver Kultur, 2:
Pg. 170
18-9, Germinal, 112/jun. 1904. A lista de jornais citada no  exaustiva, e limita-se ao Rio. Como se sabe, a maior fora do anarquismo estava em So Paulo.
(23) CARVALHO, Elysio de. "O Movimento Anarquista", p. 2-3. Sobre o anarquismo veja tambm Sheldon C. Maram, Anarquistas, Imigrantes e o Movimento Operrio no Brasil, 
1S90-1920 (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979).
(24) MOTA, Benjamim. Rebeldias. So Paulo, Tipografia Brasil de Carlos Gerke & Cia., 1898. p. 46-52.
(25) As resolues do congresso esto em O Congresso, 27.10.1906, p. 3. O discurso de B. Mota est em Novo Rumo, 1.5.1906, p. 2-3.
(26) Veja Novo Rumo, 28.12.1906, p. 2-3.
(27) COB, Desde o Umbral do Palcio Monroe, folheto, 1912. O ttulo refere-se ao fato de ter sido o congresso realizado no palcio Monroe, onde no tiveram entrada 
os anarquistas.
(28) Veja Ferdinand Tnnies, Community and Society (New York, Harper and Row Publishers, 1963); Emile Durkheim, De Ia Division du Travail Social (Paris, Presses 
Universitaires de France, 1973); Charles H. Cooley, Social Organization (New York, 1909). Sobre o pensamento de Herbert Spencer, veja Lewis A. Coser, Masters of 
Sociological Thought (New York, Harcourt Brace Jovanovich, Inc., 1971), p. 89-127.
(29) PIRENNE, Henri. Medieval Cities. Garden City, Doubleday Anchor Books, s.d. Especialmente, p. 121-51; THOMPSON, E.P. The Making of the English Working Class. 
New York, Vintage Books, 1966. p. 77-101; ROUSSEAU, Jean-Jacques. Du Contrat Social. Introd. notes et commentaire par Maurice Halbwachs. Paris. Aubier Montaigne, 
1967.
(30) O manifesto foi reproduzido por jornais operrios do Rio. Veja, por exemplo, O Baluarte, 8.3.1907, e O Marmorista, 1.7.1907.
(31) Veja O Baluarte, 15.12.1907. Numa das poucas manifestaes contrrias, a Sociedade Unio dos Operrios Estivadores apoiou o sorteio, atitude que O Baluarte 
tachou de vergonhosa em edio de 1.3.1908.
(32) Terra Livre, 22.6.1907. No Matars, n. 1, mar. 1908.
(33) A Voz do Trabalhador, 15.7 e 6.12 de 1908.
(34) Veja Miguel Lemos e R. Teixeira Mendes, "Razes contra a Lei da Grande Naturalizao" (In: Annaes do Congresso Constituinte da Repblica. 2. ed. Rio de Janeiro, 
Imprensa Nacional, 1924. v. I, p. 493-505).
(35) Ibid., p. 505. Seguindo Rousseau, Comte tambm achava que, para um adequado funcionamento, as naes deveriam ter dimenses reduzidas, no mximo trs milhes 
de habitantes.
(36) Veja FCRB, Pastas referentes aos nomes citados. A reao veio de Ennes de Souza, diretor da Casa da Moeda. Veja Pasta Ennes de Souza, Memo de 30.9.1890, e Pasta 
Antnio Joaquim de Sousa Botafogo, parecer s.d. e bilhete de Ennes de Souza.
Pg. 171

Captulo III: CIDADOS INATIVOS: A ABSTENO ELEITORAL
(1) COUTY, Louis. L'Esclavage au Brsil. p. 87-90.
(2) Blondel a Spuller, Rio, 18.11.1889 (MAE, Correspondance Politique, 53). E carta particular de Amelot a Granville, 20.11.1889, mesma localizao. O conde Amelot 
de Chaillou foi representante francs no Rio de 1882 a 1889. Regressou  Frana em setembro desse ano, sendo substitudo interinamente pelo secretrio da legao, 
Camile Blondel.
(3) Frederick Adam a Salisbury, ofcio confidencial de 16.5.1891 (PRO, FO 13, 676). Adam era secretrio da legao, substituindo George Windham que viajara  Inglaterra.
(4) POMPIA, Raul. Obras, v. IX, p. 365, 373-4. Neste desencanto com a realidade social fluminense, Raul Pompia teria a companhia de outro intelectual de postura 
poltica muito diferente. Em 1904, comentando a Revolta da Vacina, Olavo Bilac viu no que considerava arruaas a prova de que "ns ainda no somos um povo". Para 
Bilac, quem no sabia ler no via, no raciocinava, no vivia (Kosmos, I(11):1, nov. 1904).
(5) Raikes a Salisbury, confidencial, 6.7.1897 (PRO, FO, 13, 767).
(6) Pao d'Arcos a Valbom, 23.12.1892 (RAB, Cx. 223. Srie A, Conf., 19). Barbaroux era o chefe dos marselheses que chegaram a Paris para derrubar a Monarquia a 
10 de agosto de 1792.
(7) Pao d'Arcos a Hintze, 6/24.10.1893 (RAB. Livro 99, n. 43 e 45).
(8) Veja, por exemplo, Windham a Rosebery, 1./3.10.1893 (PRo, FO, 13, 705). Em caso de anarquia, diziam as instrues dos representantes estrangeiros, seus nacionais 
deveriam reunir-se no largo do Pao (atual Praa 15), onde seriam protegidos pela esquadra estrangeira e, se necessrio, transferidos para os navios.
(9) O texto mais conhecido de Le Bon, La Psychologie des Foules, foi publicado pela primeira vez em 1895.
(10) Obras, v. IX. p. 527. Crnica no Jornal do Commercio de 7.3.1892.
(11) Obras, v. IX, p. 399-400. Crnica no Jornal do Commercio de 12.10.1891.
(12) Obras, v. V, p. 328.
(13) Os dados da tabela III foram organizados pelos responsveis pelo censo. Como no h maiores explicaes sobre os critrios de classificao adotados em cada 
caso,  preciso torn-los com certa cautela, apenas como um indicador aproximado da estrutura ocupacional de cada cidade. Nada  dito, por exemplo., sobre o que 
foi feito das categorias "profisses desconhecidas" e "profisses mal definidas" do censo carioca de 1906. Os dados de 1887 para Buenos Aires foram tirados de Hilda 
Sbato, "La Formacin del Mercado de Trabajo en
Pg. 172
Buenos Aires, 1850-1880" (Desarollo Econmico, 24(96): 564, ene./mar. 1985).
(14) "Pode-se dizer que no Rio de Janeiro nove dcimos dos cocheiros e dos carroceiros so portugueses." Garcia da Rosa a Hintze Ribeiro, 5.12.1890 (RAB, Cx. 223, 
Srie A, n. 95). Segundo outra fonte, carroceiros, cocheiros e catraieiros provinham de imigrantes fugidos das colnias, de desertores de navios mercantes e da Marinha 
brasileira para a qual eram ilegalmente recrutados, e da imigrao agenciada. Faziam o trabalho pesado que em Lisboa era feito pelos galegos, e  eram em geral conhecidos 
no Rio por esse epteto. Sua origem pode explicar em parte a agressividade do grupo e a violncia de suas manifestaes. Veja relatrio do segundo-secretrio da 
legao portuguesa, Antnio da Franca, apresentado a Pao d'Arcos e enviado por este a Hintze Ribeiro em 26.ago.l893 (RAB, Srie A, n. 56). Sobre a imigrao portuguesa 
para o Brasil e a integrao dos portugueses na sociedade brasileira, veja Ann Marie Pescatello, "Both Ends of the Journey: An Historical Study of Migration and 
Change in Brazil and Portugal, 1889-1914" (Tese de Doutorado. Universidade da Califrnia, Los Angeles, 1970).
(15) BRAZIL, Major Jos D'Assis. O Atentado de 5 de Novembro de 1897 contra o Presidente da Repblica. Causas e Efeitos. So Paulo, Casa Vanorden, 1909. p. 94.
(16) Veja o relatrio de Antnio da Franca mencionado na nota 14.
(17) As queixas comeam na Revolta do Vintm, de que participaram portugueses, e vo at a Revolta da Vacina, quando muitos portugueses morreram ou foram presos. 
Sobre Antnio da Costa Borlido, disse o representante portugus: " proprietrio da maior parte das carroas do Rio de Janeiro e pr isso tem sob as suas ordens 
um enorme pessoal quase todo composto de portugueses". Lampreia a Arroyo, 26.3.1901 (RAB, Cx. 226, n. 2). Borlido envolveu-se novamente em complicaes polticas 
em 1901 e foi expulso para a Itlia. Lampreia queixa-se de no conseguir convencer os portugueses a no se meterem em poltica.
(18) O mesmo segundo-secretrio citado acima, Antnio da Franca, discute longamente o problema da naturalizao em relatrio escrito em 17.12.1893. Para ele, a grande 
naturalizao fora o mais srio golpe contra os interesses da colnia portuguesa. Denuncia que muitos portugueses aceitavam inocentemente certos cargos ou praticavam 
atos sem saber que, assim, renunciavam implicitamente cidadania portuguesa. Alguns atos tinham toda a aparncia de inofensivos, como concorrer para o custeio de 
bandas de msica dos regimentos como alternativa ao servio militar. Veja Garcia a Hintze, 17.12.1893 (RAB, Cx. 552, Srie A, n. 68).
(19) Um caso exemplar  o de W. Hancox, que vira rescindido seu contrato para drenagem de guas pluviais no Rio. Como tinha comprado
Pg. 173
material alm dos limites previstos e por preos exagerados, esperando a extenso do contrato, pediu indenizao. Seu pedido foi negado pelo Conselho de Estado em 
1888. Continuou a pressionar atravs dos representantes ingleses. A certa altura, o prprio representante se convenceu de que suas reclamaes no tinham base legal 
(Windham a Sanderson, 1.6.1889). Hancox morreu, mas seu cunhado Haggard, que fora cnsul no Rio, continuou a briga, apelando at para os Rothschild. O caso s terminou 
em abril de 1892. em plena Repblica, quando o governo concordou em pagar 300 contos em ouro  viva.
(20) Veja relatrio de Antnio da Franca, de 17.8.1893. A informao lhe fora dada pelo ministro italiano, Tugini. Franca se pergunta, com razo, se no haveria 
exagero nos nmeros do italiano.
(21) Em 19 de janeiro de 1895, por exemplo, houve um conflito entreoperrios do Arsenal da Marinha e carregadores portugueses, resultando do choque vrios feridos 
e dois ou trs mortos.
(22) O censo no fornece diretamente, o nmero de alfabetizadoscom mais de 21 anos. Para o clculo deste dado projetamos para os maiores de 21 anos a taxa de alfabetizao 
para os homens de mais de 7 anos, que era de 68,2%. O nmero das praas de pr foi conseguido tomando-se 80/o dos militares do Exrcito, da Armada e da fora policial. 
O resultado obtido no deve estar longe da realidade.
(23) ANNAES da Cmara dos Deputados, 1891. v. II, p. 142. 
(24) Para anos que no 1890, supomos um crescimento do eleitorado potencial proporcional ao crescimento projetado da populao total.
(25) MINISTRIO da Agricultura, Indstria e Commercio, Directoria do Servio de Estatstica. Estatstica Eleitoral da Repblica dos Estados Unidos do Brazil. Rio 
de Janeiro: Typografia do Ministrio da Agricultura, Indstria e Commercio, 1914. p. 244-5.
(26) Sobre Nova Iorque, veja David C. Hammack, Power and Society. Greater New York at the Turn of the Century (New York, Russel Sage Foundation, 1982). Sintomaticamente, 
os ndices de participao eleitoral de Lisboa estavam muito mais prximos, dos do Rio que dos de Nova Iorque. Em 1900, por exemplo, votaram apenas 2,84% da populao 
da cidade. Os eleitores eram 6,9% dessa populao.
(27) A participao eleitoral no Rio de Janeiro s comeou a aumentar na dcada de 1920 e acelerou-se aps 1930, especialmente durante o governo de Pedro Ernesto, 
que iniciou a poltica populista no Brasil. Em 1919 votaram ainda apenas 21000 pessoas. Em 1930 os votantes j tinham subido para 64000, atingindo 110000 em 1934. 
Houve um dramtico aumento de 424% entre 1919 e 1934. Sobre isso, veja Michael L. Conniff. Urban Politics in Brasil. The Rise o f Populism, 1925-1945 (Pittsburgh, 
University of Pittsburgh Press, 1981), caps. 4 e 6, p. 73 e 102.
Pg. 174
(28) Veja AGCRJ, Livro de Actas da Qualificao Eleitoral da Parochia de So Cristvo, 1890 (65-4-8). Comerciantes e capitalistas eram 23% dos alistados, artistas 
e operrios 21%.
(29) Carta de Silva Jardim a Rui Barbosa, em 31.1.1890. FCRB, Pasta Silva Jardim.
(30) BARO DE PARANAPIACABA. "Eleies". In: A Dcada Republicana. Rio de Janeiro, Cia. Tip. do Brasil, 1899-1900. v. 3, p. 256-9.
(31) BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. p. 113. O livro foi escrito em 1917.
(32) Os Bruzundangas, p. 114; Numa e a Ninfa (So Paulo, Brasiliense, 1956), p. 145-7. Numa e a Ninfa foi publicado pela primeira vez em folhetins, em 1915. No 
 difcil arrolar casos de violncia nas eleies do Rio de Janeiro. Em 18 de fevereiro de 1903, por exemplo, houve derramamento de sangue por ocasio de eleies 
federais. Nas eleies municipais de 20 de setembro do mesmo ano, o eleitorado, assustado, quase no compareceu. Em muitas sees no houve eleio. Mesmo assim, 
alguns mesrios foram feridos a tiros. O candidato Irineu Machado era visto dirigindo seus seguidores e trocando-lhes os ttulos aps cada voto para que pudessem 
votar novamente. Como era de se esperar, foi o mais votado, com l 829 votos. Veja Correio da Manh, 21.9.1903, p. 2. A violncia eleitoral no foi, bem entendido, 
inveno republicana. Sobre eleies no Rio durante o Imprio, antes da reforma do voto direto, h um testemunho vvido do representante francs. Segundo Amelot, 
as eleies eram resolvidas a porrete, a faca e a revlver. Os capoeiras eram agentes eleitorais muito teis: votavam um nmero indefinido de vezes, impediam de 
votar os adversrios de seu chefe, em caso de reclamaes ou de resistncia, recorriam  ultima ratio, certos da impunidade garantida pelos chefes polticos influentes". 
Amelot a Flourens, 10.12.1887 (MAE, Correspondance Politique, Brsil,n. 52).
(33) Numa  a Ninfa, p. 59.
(34) Veja Jos Vieira, A Cadeia Velha, Memrias da Cmara dos Deputados (Braslia, Senado Federal/FCRB, 1980), p. 159-63. Pinto de Andrade causou a interrupo da 
sesso da Cmara em 24.7.1909, tal a confuso que provocou nas galerias defendendo a candidatura Hermes. Em certo momento chegou a puxar um revlver.
(35) Careta, 17.4.1915, p. 1.
(36) Sobre as tentativas de organizar partidos operrios no incio da Repblica, veja o estudo de Jos Augusto Valladares Pdua, j citado. Sobre partidos polticos 
em geral, veja Marcos Veneu, "Enferrujando o Sonho: Agremiaes Polticas Eleitorais no Distrito Federal, 1889-1895" (FCRB, mimeo, 1984). Sobre os jacobinos, veja 
Wilma Peres Costa, "Notas sobre o jacobinismo Brasileiro" (trabalho apresentado no
Pg. 175
Seminrio Rio Republicano, organizado pela FCRB, Rio de Janeiro, out. 1984), e o trabalho de June Hahner, "Jacobinos versus Galegos", tambm j citado.

Captulo IV: CIDADOS ATIVOS
(1) A revolta tem despertado recentemente a ateno de vrios pesquisadores. Cabe mencionar, em primeiro lugar, o livro de Nicolau Sevcenko, A Revolta da Vacina. 
Mentes Insanas em Corpos Rebeldes (So Paulo, Brasiliense. 1984). O autor no faz uso extenso das fontes, mas revela fina sensibilidade analtica e adota uma abordagem 
que diverge um pouco da nossa. A revolta foi abordada tambm na Tese de Mestrado de Jaime Larry Benchimol, "Pereira Passos  um Haussmann Tropical; as Transformaes 
Urbanas na Cidade do Rio de Janeiro no Incio do Sculo XX" (Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1982). Outro texto recente  o de Jeffrey D. Needel, "Popular 
Response to Reform: the so-called Revolta contra Vacina of 1904" (Trabalho apresentado no XII Congresso Internacional da LASA. Albuquerque, 1985). Entre os livros 
mais antigos que tratam do assunto, podemos citar os de Afonso Arinos de Melo Franco, Rodrigues Alves, Apogeu e Declnio do Presidencialismo (Rio de Janeiro, Jos 
Olympio, 1973); Sertrio de Castro, A Repblica que a Revoluo Destruiu (Rio de Janeiro, Freitas Bastos, 1932); Raymundo A. de Athayde, Pereira Passos, O Reformador 
do Rio de Janeiro. Biografia e Histria (Rio de Janeiro, Ed. A Noite, s.d.); Edgar Carone, A Repblica Velha (Evoluo Poltica) (So Paulo, Difel, 1971), e Boris 
Fausto. Trabalho Urbano e Conflito Social (So Paulo, Difel, 1977). Na literatura, h um romance com valor documentrio, o de Jos Vieira, O Bota-Abaixo. Chronica 
de 1904 (Rio de Janeiro. Selma Editora. 1934). Outra verso romanceada da revolta pode ser encontrada em Joel Rufino dos Santos, Quatro Dias de Rebelio (Rio de 
Janeiro, Jos lympio, 1981).
(2) Os estudos sobre a ao coletiva de multides tm longa tradio. Foram renovados recentemente a partir dos trabalhos de George Rud, especialmente The Crowd 
in History, 1730-1848 (London, Lawrence and Wishart, 1981), cuja primeira edio  de 1964, e Ideology and Popular Protest (London, Lawrence and Wishart, 1980). 
Neste ltimo texto, o autor enriquece a anlise incorporando crticas feitas ao primeiro.
(3) A melhor descrio do governo Rodrigues Alves ainda  a de Afonso Arinos, no livro acima citado. As reformas do Rio tm tambm merecido interesse crescente dos 
estudiosos. O trabalho de Jaime Benchimol, tambm citado acima,  dos mais recentes e completos. Veja-se, tambm, a respeito, Oswaldo Porto Rocha, "A Era das Demolies. 
Cidade do Rio de Janeiro: 1870-1920" (Tese de Mestrado. Universidade 
Pg. 176
Federal Fluminense, 1983), e Srgio Pechman e Lilian Fritsch, "A Reforma Urbana e seu Avesso: Algumas Consideraes a Propsito da Modernizao do Distrito Federal 
na Virada do Sculo (Revista Brasileira de Histria. 5 (8/9): 139-95, set. 1984/abr. 1985). Sobre a reforma do porto, veja Srgio Lamaro, "Dos Trapiches ao Porto: 
Uma Contribuio ao Estudo da Produo da rea Porturia do Rio de Janeiro" (Tese de Mestrado. Univ. Fed. do Rio de Janeiro, 1984). A reforma sanitria  tratada 
por Nilson do Rosrio Costa em "Estado e Polticas de Sade Pblica (1889-1930)" (Tese de Mestrado. IUPERJ, 1983),  e por Angela de Arajo Porto, "Artimanhas de 
Esculpio: Crena ou Cincia no Saber Mdico" (Tese de Mestrado. Universidade Federal Fluminense, 1985).
(4) Veja Anbal Villanova Villela e Wilson Suzigan, Poltica do Governo e Crescimento da Economia Brasileira, 1889-1945 (Rio de Janeiro, IPEA/INPES. 1975), especialmente 
p. 16-24. As idias de Joaquim Murtinho esto em Ncia Villela Luz, Idias Econmicas de Joaquim Murtinho (Braslia, Senado Federal/Fundao Casa de Rui Barbosa, 
1980). As crticas so de Vieira Souto e esto includas no livro de Ncia Villela Luz, p. 502. 
(5) VILLELA & SUZIGAN. Poltica do Governo, p. 81-4, 109-15.
(6) Sobre a situao das obras em novembro, veja Alfredo Lisboa. "A Avenida Central" (Kosmos, Anno I, 11, nov. 1904), e, do mesmo autor, "Obras do Porto do Rio de 
Janeiro" (Kosmos, Anno I, 2, fev.1904). Consulte-se tambm a obra de Srgio Lamaro citada acima.
(7) Reproduzido em Edgard Carone, Movimento Operrio no Brasil (1877-1944) (So Paulo, Difel, 1979), p. 33-7.
(8) Veja Afonso Arinos, Rodrigues Alves, p. 382, e Jaime Benchimol, Pereira Passos, p. 614.
(9) BENCHIMOL, Jaime. Pereira Passos, p. 573-90.
(10) No h estudo mais detido sobre as tentativas de implantao da vacina obrigatria e sobre as razes do fracasso da ao do governo. Breve resumo da legislao 
pode ser encontrado no relatrio do chefe de polcia do Rio de Janeiro, includo no Relatrio do Ministro da Justia e Negcios Interiores, J.J. Seabra, de maro 
de 1905 (Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1905), p. 28-33. Para outra fonte, veja nota 55. A experincia inicial de Edward Jenner com a linfa animal foi descrita 
por ele prprio em An Inquiry into the causes and Effects of the Variolae Vaccinae (London, S. Low, 1798). A primeira vacinao foi feita em 14 de maio de 1796. 
A Frana introduzira a obrigatoriedade da vacina em 1903.
(11) Sobre os lderes positivistas da oposio, veja Robert G. Nachman, "Positivism and Revolution in Brazil's First Republic: the 1904 Revolt" (The Americas, XXXIV 
(l): 20-39, July 1977). Salientaram-se ainda no combate  vacina os congressistas e mdicos Barata Ribeiro
Pg. 177
e Brido Filho. Este ltimo mantinha no Correio da Manh uma colunacom o ttulo "Contra a Vacina".
(12) Esta  apenas uma pequena amostra do rol de doenas listadas pelo mdico positivista Joaquim Bagueira Leal. A posio dos positivistas em relao  vacina foi 
discutida por Angela Porto em "Artimanhas de Esculpio", cap. III, em que nos baseamos. Veja a citao de Bagueira Leal s p. 109-10.
(13) O Paiz, 11.11.1904. p. 1.
(14) A Notcia, 11 e 12.11.1904. No dia 11, o jornal entrevistou os drs. Luiz da Cunha Feij Filho e Miguel Couto. No dia 12, os drs. Malaquias Gonalves, Rodrigues 
Lima, deputado pela Bahia, Joo Carlos Teixeira Brando, deputado pelo Rio de Janeiro. Rodrigues Lima teve uma tirada humorstica ao apontar a impossibilidade de 
se exigir a vacina para os eleitores da capital federal: muitos deles eram defuntos ...
(15) Para a descrio dos acontecimentos, utilizamo-nos principalmente dos jornais O Paiz, que apoiava o governo e sua poltica vacinista, o Correio da Manh, o 
principal rgo de oposio, profundamente envolvido na conspirao militar, e o Jornal do Commercio, contra a conspirao mas tambm crtico da obrigatoriedade. 
Subsidiariamente, foram usados tambm o Jornal do Brasil, A Notcia e a Tribuna.
(16) Correio da Manh, 6.11.1904, p. 1.
(17) Jornal do Commercio, 15.11.1904, p. 1.
(18) No relatrio do chefe de polcia, j mencionado, o mximo rigor significava "sufocar a revolta  metralha" (p. 16).
(19) Para o depoimento de uma testemunha da rendio, veja marechal Estvo Leito de Carvalho, Memrias de um Soldado Legalista (Rio de Janeiro, Imprensa do Exrcito, 
1961), t. I, Livros l e 2, p. 39-58. Leito era na poca aluno da Escola Militar e no aderiu  revolta. A ausncia de qualquer resistncia por parte do comandante 
e de seus auxiliares lhe causou "dolorosa impresso". A atitude do ministro da Guerra tambm lhe sugeriu irresoluo ou cumplicidade (p. 47).
(20) Vejam-se as anotaes do prprio Rodrigues Alves, reproduzidas no livro de Afonso Arinos, p. 406-14.
(21) Porto Artur: a denominao, entre bombstica e jocosa, se devia ao episdio da resistncia desta fortaleza na recente guerra russo-japonesa.
(22) O Jornal do Commercio e A Notcia, ambos do dia 17 de novembro, do verses ligeiramente distintas da priso de Prata Preta. Ambos, no entanto, salientam a 
bravura indmita do crioulo. No navio Itaipava, em que foi deportado com outras 334 pessoas, Prata Preta assumiu a liderana dos presos, surrando-os com um pedao 
de cabo, segundo A Notcia, 27/28.12.1904.
Pg. 178
(23) A Notcia, 17.11.1904. Segundo este jornal, dia 18.11, foram presos vrios outros conhecidos desordeiros da Sade, como Rato Branco, Truvisco, Machadinho, Almeidinha.
(24) As fontes de que dispomos no permitem esclarecer a posio dos estivadores. A Notcia do dia 12 menciona ameaa de greve no cais da Sade. No dia 18, diz ter 
terminado a greve que se manifestara h quatro dias. Pelas informaes do Jornal do Commercio e de O Paiz, deduz-se que no houve greve mas apenas paralisao por 
falta de garantias. A questo permanece em aberto. A referncia do lder dos estivadores aos portos de Buenos Aires e Montevidu no  gratuita. Em outubro de 1904 
fora discutido um acordo entre os estivadores do Rio e de Buenos Aires para ao conjunta que abrangesse tambm o porto de Montevidu.
(25) A prtica de deportao, que era de uso generalizado tambm na Europa, mas que no Brasil era feita sem nenhum processo, foi iniciada no final do Imprio com 
o envio de capoeiras para o Mato Grosso. Intensificou-se com a Repblica. O chefe de polcia do governo provisrio, Sampaio Ferraz, prendeu e desterrou para Fernando 
de Noronha, sem processo, uns 600 capoeiras. Muitos dos participantes da Revolta dos Marinheiros de 1910 foram mandados para o Amazonas.
(26) O Jornal do Commercio adotou posio mais neutra na classificao dos revoltosos. Na Sade, haveria mistura de desordeiros com martimos, formando a "multido 
sinistra" que tanto impressionou o reprter. Os que foram presos no final, entretanto, seriam desordeiros, gatunos, vagabundos, arruaceiros.
(27) Jos Maria dos Santos, crtico do governo e da Repblica, segue a mesma linha em A Poltica Geral do Brasil (So Paulo, J. Magalhes, 1930), p. 409-29. Esta 
linha liberal de interpretao tem seu primeiro representante em J. Michelet, La Rvolution Franaise (Paris, 1868-1900).
(28) A vertente conservadora tem em Edmund Burke, Reflections on the Revolution in Franco, publicado pela primeira vez em 1790, o mais conhecido representante.
(29) Veja a parte do relatrio de Cardoso de Castro includa no Relatrio do Ministro da Justia de maro de 1905, p. 16; e seu prprio Relatrio, p. 4-5.
(30) Para a posio de Rui Barbosa, veja Documentos Parlamentares, Estado de Stio. Acontecimentos de 14 de novembro de 1904. Revolta dos Marinheiros de 1910 (Paris 
e Bruxelles, L'Edition d'Art, 1913), v. IV, 15-29. Para a de Olavo Bilac, Kosmos, Anno I, 11: 2, nov. 1904. Seguem mais ou menos a mesma linha de interpretao Afonso 
Arinos, em seu livro j citado, Jos Maria Bello. Histria da Repblica (So Paulo, Editora Nacional, 1972), p. 172-84, e Jos Vieira, em O Bota-Abaixo, p. 169-72.
Pg. 179
(31) JUSTIA Federal. Processo Crime motivado pelos acontecimentos ocorridos na Capital Federal, a 14 e 15 de Novembro de 1904. Razes de defesa e recurso apresentados 
pelo Dr. Vicente de Souza acusado pelo crime de conspirao. Rio de Janeiro, Typ. do "Jornal do Commercio", 1905.
(32) Relatrio apresentado ao ministro, p. 6.
(33) No esto includos nas tabelas VI e VII os mortos e feridos militares e os da Guarda Civil. O nmero de feridos constante nas tabelas deve estar subestimado, 
pois baseia-se nas listas publicadas pelos jornais que as tiravam dos hospitais. Houve certamente feridos que no foram tratados em hospitais. A lista de mortos 
no deve estar longe da verdadeira. Alguns dos mortos no participaram da revolta, foram vtimas acidentais.
(34) A ampla presena de portugueses entre os presos  confirmada pelo embaixador de Portugal. Segundo ele, 160 teriam sido soltos e quatro teriam sido mandados 
para o Acre. Lampreia a Vilaa, RAB, 26.12.1904.
(35) Correio da Manh, 12.11.1904, p. 1.
(36) Veja Correio da Manh, de 10.8 a 20.9.1903.
(37) Em outubro de 1904, o Centro das Classes Operrias tentou mediar sem xito uma greve de canteiros em pedreira da praia da Saudade. No final, 300 trabalhadores 
depredaram as oficinas em meio a tiroteio que deixou cinco feridos (O Congresso, n. 40, 13.10.1906).
(38) O noticirio da greve foi tirado do Correio da Manh. O bole-tim est na edio de 22 de agosto, p. 2.
(39) Sobre a organizao e tendncias do anarquismo no Rio de Janeiro, veja Oscar Farinha Neto, "Atuao Libertria no Brasil: A Federao Anarco-Sindicalista" (Tese 
de Mestrado. IUPERJ, 1985), cap. IV.
(40) A lista de entidades convidadas pelo Centro das Classes Operrias est no Correio da Manha, 8.9.1905, p. 2. No Relatrio ao Segundo Congresso Operrio de 1912, 
documento de inspirao anarquista, h velada crtica a Vicente de Souza e ao Centro das Classes Operrias, como "obedecendo a orientao poltica". Veja Estudos 
Sociais, 18: 195 nov. 1963. A mesma crtica pode ser vista em A Voz do Trabalhador, rgo da Confederao Operria Brasileira, n. 44, 1.12.1913, p. 3, onde a tentativa 
de envolver operrios na luta eleitoral de 1910  comparada ao que aconteceu em 1904.
(41) As listas apresentadas  Cmara a 1. de setembro (Anais, 1904. v. V., p. 13-70) do indicao de ocupao para 4130 pessoas, quase todas operrios. Entre estes, 
segundo clculo de Pedro Paulo Soares, 1859, ou seja, 43%, eram artistas, o que indica grande envolvimento pelo menos na campanha inicial.
Pg. 180
(42) Sobre as revoltas de Paris, veja David H. Pinkney, "The Crowd in the French Revolution of 1830" (American Historical Review, LXX, 1: 1-17, Oct. 1964); do mesmo 
autor, "The Revolutionary Crowd in Paris in the 1830's" (Journal of Social History, 5(4): 512-20, Summer 1972); Charles Tilly et Lynn Lees, "Le -Peuple de Juin 1848" 
(Annales ESC, 5: 1061-91, sept.-oct. 1974); J. Rougerie, "Composition d'une population insurge. L'exemple de Ia Commune" (Le Mouvement Social, 48: 31-47, jul.-sept. 
1964); Martin R. Waldman, "The Revolutionary as Criminal in 19th. Century France: A Study of the Communards and Deportes" (Science and Society, XXXVII (1):31-55, 
Spring 1973).
(43) O trabalho mais elaborado sobre a Revolta do Vintm  o de Sandra Lauderdale Graham, "The Vintm Riot and Political Culture: Rio de Janeiro, 1880" (Hispanic 
American Historical Review, 60(3) :431-49, Aug. 1980).
(44) Veja o relatrio do chefe de polcia includo no Relatrio do Ministro da Justia, 1900, p. 15-20. A viso dos monarquistas est em Antnio Ferreira Vianna, 
A Conspirao Policial (Rio de Janeiro, Typ. do Jornal do Commercio, 1900).
(45) Veja O Paiz, 17.11.1904, p. 1.
(46) Veja Jos Maria dos Santos, A Poltica Geral do Brasil, p. 414.
(47) O relatrio de 1905 da comisso nomeada pelo governo para estudar o problema da habitao popular diz que o trabalho no Rio era abundante, a prova sendo o preo 
elevado da mo-de-obra. Veja Everardo Backheuser, Habitaes Populares (Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1905), p. 107. O jornal O Congresso, dos pedreiros, menciona 
grande abundncia de trabalho para a categoria a partir de 1904. Tal fato teria gerado queda de qualidade pela afluncia de trabalhadores menos qualificados. Menciona 
uns l 500 canteiros no Rio (O Congresso. Anno II, n. 53, 13.4.1907, p. l).
(48) O Libertrio, Anno I. n. 1, 9.10.1904.
(49) BENCHIMOL, Jaime. Pereira Passos, p. 510.
(50) FALCO, Edgard. "A Incompreenso de uma poca - Oswldo  Cruz e a Caricatura" (v. I). In: Oswaido Cruz Monumento Histrica. So Paulo, s. ed. 1978). Dificilmente 
se encontraria outro tema na Primeira Repblica que fizesse tanto as delcias dos humoristas como o das campanhas de Oswaldo Cruz.
(51) VIEIRA. Jos. O Bota-Abaixo. p. 169.
(52) ANAIS da Cmara dos Deputados. 1904. v. V, p. 662.
(53) O Paiz, 17.11.1904, e Jos Vieira, O Bota-Abaixo, p. 173. A qualidade de cronista de Jos Vieira  confirmada em seu livro A Cadeia Velha, j citado.
(54) Veja Documentos Parlamentares. Estado de Sitio, p. 31.
(55) O efeito negativo no se limitou a 1904. Nesse ano houve ao todo 66 537 vacinaes e revacinaes; no ano seguinte apenas 2 859;
Pg. 181
em 1906, 4463; em 1907, 4574. Veja Diretoria Geral de Sade Pblica, Os Servios de Sade Pblica no Brasil, de 1808 a 1907 (Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1909), 
p. 446. 
(56) Note-se o cuidado e a racionalidade com que os alvos foram escolhidos. No houve nada na revolta que lembrasse a multido primitiva, irracional e volvel imaginada 
por Gustave Le Bon.
(57) Veja Delso Renault, O Dia-a-Dia no Rio de Janeiro segundo os Jornais, 1870-1889 (Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira/INL, 1982), p. 163.
(58) Veja relatrio do chefe de polcia, includo no Relatrio do Ministro da Justia, de maro de 1904, p. 15-22.
(59) Sobre o nmero de greves, veja Eullia Maria Lahmeyer Lobo e Eduardo Navarro Stoltz, "Flutuaes Cclicas da Economia, Condies de Vida e Movimento Operrio 
 1880-1930" (Revista do Rio de Janeiro, 1(1) :86, set.-dez. 1985). Em janeiro de 1904 houve greve de carroceiros e cocheiros contra taxa criada pela prefeitura. 
Houve bondes e carroas viradas, luzes apagadas, barricadas, tiros.
(60) Veja George Rud, The Crowd in History, em especial p. 237-58.
(61) Alm de Rude, veja especialmente E. P. Thompson, "The Moral Economy of the English Crowd in the Eighteenth Century" (Past and Present, 50: 76-136, Feb. 1971). 
Maior nfase ainda em elementos valrativos e simblicos  dada por Natalie Zemon Davis. Veja, por exemplo, "The Rites of Violence: Religious Riot in Sixteenth-Century 
France" (Past and Present, 59: 51-91, May 1973).
(62) Emancipao, Ano II, n. 1, 21.3.1905, p. 6.
(63) George Rude, Ideology and Popular Protest, p. 27-38.
(64) Agentes do governo j antes da aprovao da lei distribuam avisos intimando os operrios a se vacinarem sob pena de perderem o emprego (Anais da Cmara, 1904. 
v. V, p. 16).
(65) ANAIS, 1904. v. VI, p. 86; v. IV, p. 608. nfase no original.
(66) ANAIS, v. V, p. 16.
(67) O reprter de A Tribuna ouviu de populares as mais variadas razes para explicar a revolta. Mas o tom geral era sempre o mesmo: reao contra abusos do governo 
(A Tribuna, 18.11.1904).
(68) A Tribuna, 18.11.1904.


Captulo V: BESTIALIZADOS OU BILONTRAS?
(1) Veja Novo Rumo, 5.2.1906, p. 2. Veja tambm as edies dos dias 20.1 e 5.3 do mesmo ano, em que se criticam os operrios por seu interesse no carnaval. A edio 
de 5.2 traz ainda impiedosa crtica de um anarquista estrangeiro ao operariado da capital. Victor Bejar, o autor da crtica, afirma: "No Rio de Janeiro no existe 
a luta de
Pg. 182
classes", to fraco e inoperante lhe parece o movimento operrio. As sedes das organizaes no so frequentadas, no h bibliotecas. E conclui ironicamente: "O 
Rio deveria chamar-se o Paraso dos Operrios" (grifo no original).
(2) Veja Thomas Ewbank, Life in Brazil, or A Journal of a Visit to the Land of the Cocoa and the Palm (New York, Harper and Brothers Publ, 1856). O livro todo demonstra 
a fascinao do autor com o fenmeno religioso no Rio, fascinao que se toma mais curiosa pela averso do protestante  maneira fluminense de praticar a religio.
(3) Veja documentao sobre a festa, guardada no Arquivo Nacional (AN Cx 6 C 35). Veja tambm as descries feitas nas crnicas de Raul Pompia (Obras, v. VI, p. 
96-100, e v. IX. p. 416-7). Veja ainda Melo Morais Filho, Festas e Tradies Populares do Brasil (Rio de Janeiro, Fauchon & Cia.. s.d.), p. 141-53.
(4) Veja Roberto Moura, Tia Ciata e a Pequena frica no Rio de Janeiro, p. 71-5.
(5) ALENCAR, Jos de. Lucola. Um Perfil de Mulher. So Paulo.  Melhoramentos, s.d. p. 10. POMPIA, Raul. Obras, v. VI. p. 56, e v. VII, p. 129-30. E MELLO MORAES 
F. Festas e Tradies, p. 209-18.
(6) DENT, Hasting Charles. A Year in Brazil. London, Kegan Paul, Trench & Co., 1886. p. 239. O texto ingls : "Everyone appears to have taken leave of their senses". 
A mesma impresso teve a educadora alem, Ina von Binzer, em 1881. Chocada com as prticas carnavalescas no Rio, observa que os brasileiros ficam completamente fora 
de si. Veja Os Meus Romanos. Alegrias e Tristezas de uma Educadora Alem no Brasil. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982. p. 70.
(7) ASSISTNCIA Pblica e Privada no Rio de Janeiro (Brasil). Histria e Estatstica. Rio de Janeiro, Typographia do "Anurio do Brasil", 1922. p. 747-8. O trabalho 
foi encomendado a Ataulpho de Paiva, que procedeu a um levantamento extremamente cuidadoso.
(8) Veja Michael L. Conniff. "Voluntary Associations in Rio, 1870-1945: A New Approach to Urban Social Dynamics" (Journal of Interamerican Studies, 17(i): 64-81, 
Feb. 1975). Victor Bejar, mencionado na primeira nota acima, indignava-se ao ver nas sedes das associaes operrias estandartes copiados dos que as irmandades religiosas 
desfilavam nas procisses. (Novo Rumo, 52.1906.) O setor que mais xito teve em organizar-se em termos modernos foi o empresarial, tanto do comrcio como da indstria. 
Sobre a organizao dos industriais, veja Angela Maria de Castro Gomes, Burguesia e Trabalho; Politica e Legislao Social no Brasil, 1917-1937 (Rio de Janeiro, 
Campus. 1979).
(9) Veja Eduardo Silva, "As Queixas do Povo. Massas Despolitizadas e Consolidao da Repblica". O autor compara as queixas do incio do sculo com pesquisa de 1975 
sobre demandas de moradores e chega
Pg. 183
 concluso de que pouco mudou quanto ao contedo das reclamaes neste meio sculo.
(10) Para uma reviso da literatura brasileira que relaciona cidade e poltica, veja Jos Murilo de Carvalho. "A Cidade e a Poltica: um Exame da Literatura Brasileira" 
(Trabalho apresentado nas Jornadas Argentino-Brasileiras de Histria Social Urbana. Buenos Aires, set. 1985). A literatura sobre o Rio de Janeiro foi comentada por 
Maria Alice Rezende de Carvalho em "Letras, Sociedade e Poltica: Imagens do Rio de Janeiro" (Boletim de Informaes Bibliogrficas (BIB), n. 20, 1985. p. 3-22).
(11) Veja Max Weber, T He City (Translated and edited by DonMartindale and Gertrud Neuwirth. New York, The Free Press, 1966). Para comentrios atuais sobre a obra 
de Weber, veja Figures de Ia Vilie: Autour de Max Weber (Sous Ia direction d'Alain Bourdin et Monique Hirschhom. Paris, Aubier, 1985).
(12) A imunidade ibrica  Reforma, s transformaes cientficas e s teorias individualistas  examinada em Bernce Hamilton, Political Thought in the Sixteenth-Century 
Spain (Oxford, Oxford University Press, 1963). A gnese do individualismo como um produto tipicamente ocidental  discutida em Louis Dumont, Essais sur I'Individualisme. 
Une Perspective Anthropologique sur I'Idologie Moderno (Paris. Seuil, 1983). 
(13) Veja Richard M. Morse, El Espojo de Prspero. Un Estdio de Ia Dialctica del Nuevo Mundo (Mxico, Siglo Veintiuno Editores, 1982).
A distino de Dumont est nos seus Essais, especialmente no cap. 2.Para o caso brasileiro, Roberto da Matta introduz, com sentido semelhante, a distino entre 
indivduo e pessoa. Veja seu Carnavais, Malandros e Heris. Para uma Sociologia do Dilema Brasileiro (Rio de Janeiro, Zahar, 1979), especialmente p. 139-93.
(14) Veja Alberto Sales, "Balano Poltico Necessidade de uma Reforma Constitucional" (O Estado de So Paulo, 18/26 jul. 1905), e Slvio Romero. O Brasil Social 
(Vistas Syntheticas Obtidas pelos Processos de Le Play) (Rio de Janeiro, Typ. do "Jornal do Commercio" de Rodrigues & C., 1907), especialmente p. 38-43. A distino 
utilizada por Slvio Romero  exposta em Edmond Demolins, A Quoi Tient Ia Supriorit des Angto-Saxons (Paris, Firmin-Didot et Cie., s.d.), p. 53.
(15) J em 1868 o jornal Democracia, editado em So Paulo, contrastava o Brasil e os Estados Unidos em termos da capacidade de iniciativa individual. Segundo o jornal 
(edio de 30.5.1868), no Brasil era subversivo falar em o povo associar-se para lutar contra a misria, pois tal combate era atribuio do imperador: "Aqui o governo 
 pai; e at mais do que pai, se  possvel s-lo:  patriarca".
(16) Veja Annibal Falco, Frmula da Civilizao Brasileira (Rio de Janeiro, Guanabara, s.d.), p. 77-137.
pg.184
(17) Sobre as cidades na Amrica Latina, veja Jorge Enrique Hardoy e Richard P.Schaedel compiladores. Las Ciudades de Amrica Latina y sus Areas de Influencia atravs 
de Ia Historia (Buenos Aires, Ediciones SIAP, 1975); Jorge E. Hardoy, Las Ciudades en America Latina (Buenos Aires, Paidos, 1972), e Richard Morse y Jorge Enrique 
Hardoy,compiladores. Cultura Urbana Latinoamericana (Buenos Aires. CLACSO,1985).
(18) Para uma breve histria do Rio, veja Mary Karasch, "Rio de Janeiro: from Colonial Town to Imperial Capital (1808-1850)" (In: R. Ross and G.J. Telkamp, eds., 
Colonial Cities: Essays on Urbaniz.ation in a Colonial Context. Den Haag. 1984. p. 123-51).
(19) Citados em Richard M. Morse, "The City-Idea in Argentina. A Study in Evanescence" (Journal of Urban History, 2 (3): 307-29, May 1976). Os aspectos comercial 
e cultural do Rio ressaltam da discusso em torno da mudana da capital havida na Cmara dos Deputados em 1891. Os defensores da permanncia do Rio como capital 
alegavam sua condio de centro cultural e de crebro do Brasil. Os mudancistas acusavam a cidade de ser um cancro que corroa a riqueza do resto do pas. Veja Congresso 
Nacional, Anais da Cmara dos Deputados, 1891.v. 2, p. 177-8, 240-4.
(20) Sobre Buenos Aires, veja a clssica obra organizada por Jos lus Romero y luis Alberto Romero, Buenos Aires. Historia de Cuatro Siglos (Buenos Aires, Editorial 
Abril S.A., 1983. 2 v.).
(21) Amelot a Globert, Rio, 26.1.1889; e Haggard a Rosebery, Rio,6.4.1886 (FO 13, 618). O contato de pessoas importantes com capoeiras nas reas cinzentas da prostituio, 
do jogo e do crime  matria do romance de Plcido de Abreu, Os Capoeiras (Rio de Janeiro, Typ. Da Escola Serafim Jos Alves, s.d.). Veja tambm Melo Morais Filho,Festas 
e Tradies, p. 401-13.
(22) O Paiz, 6.5.1905.
(23) Veja Manuel Antnio de Almeida, Memrias de um Sargento de Milcias (So Paulo, Livraria Martins Editora, 1955) pgina 271. Artur Azevedo, O Tribofe, p. 53. 
O Tribofe foi reeditado em 1897 com o ttulo de A Capital Federal, o que reflete a importncia que lhe dava Artur Azevedo como retraio da cidade. De revista destinada 
a existncia transitria passou a pea com pretenses a vida mais longa. O tema da malandragem no romance de Manuel Antnio de Almeida  discutido com nfase na 
polarizao entre ordem e desordem, antes que em sua contaminao mtua, por Antnio Candidoem "A Dialtica da Malandragem" (Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, 
8: 67-89, 1970). Na mesma linha de Antnio Candido est o trabalho de Maria Alice Rezende de Carvalho, "A Construo do Mundo do Trabalho na Sociedade Brasileira" 
(Tese de Mestrado. Unicamp
PG.185
1983). Para um estudo da cidade atravs das revistas de Artur Azevedo, veja Flora Sssekind, As Revistas de Ano e a Inveno do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, Nova 
Fronteira/FCRB, 1986).
(24) Veja Angel Rama, A Cidade das Letras (So Paulo, Brasiliense,1985). J em 1936, Srgio Buarque de Holanda anotava a diferena entre o rgido planejamento seguido 
pelos espanhis na criao de cidades na Amrica e o estilo mais solto, quase anrquico, dos portugueses. Veja Razes do Brasil (Rio de Janeiro, Jos Olympio, 1936), 
cap. 4.
pg.186

BIBLIOGRAFIA
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Almanaque Brasileiro Garnier
O Baluarte
Careta
O Congresso
Correio da Manh
O Cruzeiro
Democracia
O Despertar
Echo Popular
Emancipao
Gazeta Operria
Jornal do Brasil
Jornal do Commercio
Kosmos  
Kultur
O Libertrio
O Marmorista
No Matars
A Nao
A Notcia
Novo Rumo
O Paiz
Revoluo
O Socialista
O Soldado
Terra Livre
A Tribuna
Voz do Povo
A Voz do Trabalhador
pg.187

II. DOCUMENTOS
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ANNAES do Congresso Constituinte de 1891. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1926.
ANNAES da Cmara dos Deputados. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1904.
assistncia Pblica e Privada no Rio de Janeiro (Brasil). Histria e Estatstica. Rio de Janeiro, Typographia do "Anurio do Brasil", 1922.
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CMARA DOS DEPUTADOS. Relatrio Apresentado pelo Deputado Joo Perneta, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1919.
CONFEDERAO OPERRIA BRASILEIRA (COB). Desde o Umbral do Palcio Monroe, folheto, 1912.
DIRETORIA GERAL DE SADE PBLICA. Os Servios de Sade Pblica no Brasil, de 1808 a 1907. Rio de Janeiro. Imprensa Nacional, 1909.
DIRETORIA GERAL DE ESTATSTICA. Annurio Estatstico do Brasil (1908-1912). Rio de Janeiro, Typ. da Estatstica, 1916. v. I e III.
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